Comecemos olhando para trás. Como nasce o teu interesse pela música?
O interesse pela música surge no ano 2000, quando assistia ao meu irmão mais velho, o Mic B, a trabalhar com alguns artistas locais em minha casa. Comecei a mexer nos softwares de produção como passatempo, e, por algum motivo, assimilei as técnicas com alguma rapidez e, em menos de um ano, já me encontrava a produzir música para algumas pessoas. Em 2001 o rapper Kloro, da Trio Fam, atribuiu-me o nome Ellputo, justamente por eu ter aprendido e desenvolvido o talento muito rapidamente, e não parar de evoluir. Na altura, eu tinha apenas 12 anos, e estava só a divertir-me, estava longe de imaginar que aquilo se fosse tornar a minha profissão. Investia tanto tempo na arte que, inevitavelmente, acabei me tornando bom no que fazia, mas nunca com intenção de me tornar um profissional. Chegou a um ponto em que já não tinha como voltar atrás, e o nome Ellputo já estava lançado no mercado. Uma das músicas que marcou a minha entrada no mercado foi “Dynomite está com gana”.
Como defines a tua actividade e aquilo que fazes?
Se tivesse de definir numa palavra, provavelmente seria “fantástica”. É interessante poder conceber uma obra de raiz, e imaginar como será recebida pelo consumidor. O processo criativo por vezes pode ser complexo, mas o resultado é sempre satisfatório. E, o melhor de tudo, não há limite para a criatividade.
Que fontes mais influenciam a tua forma de expressão artística?
Bem, diversas fontes, desde artistas a jogadores de futebol e empresários. Sou muito movido por histórias de vida. As minhas referências ou fonte de inspiração são pessoas que de alguma forma servem de exemplo em diversas áreas da vida. Por exemplo, Jay-z, Garry Vee, Napoleon Hill, Timbaland, Pharrell, Dr Dre, Bob Proctor, David Guetta, Black Coffee, entre outros.
Como se desenvolve o teu processo criativo?
O meu processo criativo depende muito do meu estado de espírito. Há dias em que gosto de trabalhar em ideias que já estão guardadas no meu cérebro há algum tempo, e outros dias em que opto por algo mais experimental, sem compromisso nenhum. Fora estas duas opções, também existe o cenário em que recebo um script que devo ter como base para criar. O meu exercício é perceber em que estado de espírito estou, e tento capitalizar o momento.
Existe algum género musical com que gostes de trabalhar em particular?
Nos dias de hoje, o meu género favorito é o amapiano, mas, fazendo uma análise macro, nunca tive preferência, apenas gosto de música, e tudo o que soa bem e me agrada eu abraço, até porque gosto de desafios, sair da zona de conforto e explorar o desconhecido.
A Ellputo Music Experience tem sido um sucesso. Contas-nos qual o segredo por trás deste êxito?
Acredito que tudo se resume a uma boa preparação. O conceito da Experience vive na minha cabeça desde 2015, mas só em 2021 é que realmente me senti preparado e confiante para avançar com a ideia, e felizmente correu bem. Ao longo dos anos, fui desenvolvendo a ideia lentamente e ao mínimo detalhe e, felizmente, a execução e a repercussão superaram a minha expectativa. Aliar a componente Dj à produção musical faz todo sentido, especialmente porque tenho o privilégio de produzir conteúdo exclusivo para a minha audiência com regularidade.
Quais consideras serem as maiores referências de Moçambique actualmente? Gostaste de colaborar particularmente com alguém?
Hot Blaze, Hernâni da Silva, MR BOW, Laylizzy e muitos outros. Recentemente tive uma boa experiência com o Mano Tsotsi, que é um artista muito talentoso e muito dedicado, o que torna o meu trabalho mais fácil.
O mundo actual está marcado pela tecnologia. Na tua perspectiva, de que forma é que as ferramentas que proporciona influenciam a música e a cultura em geral?
Para mim, particularmente, a tecnologia é algo essencial. A produção musical nos últimos anos evoluiu tanto graças aos avanços tecnológicos! Atualmente existem ferramentas que aceleram e facilitam o nosso trabalho. Antigamente, para produzir uma música, dependíamos 100% de estúdios grandes e superequipados, e hoje conseguimos ter equipamentos com a mesma qualidade em versões mais acessíveis, que nos permitem trabalhar de casa e ter resultados fantásticos. Daí que surjam os ditos bed room producers, que, a partir das suas casas, conseguem produzir grandes hits mundiais. Graças à tecnologia, a cultura consegue alcançar uma audiência maior, e já não sofremos com limitações geográficas porque temos o mundo nas nossas mãos.
Quais são os teus planos para o futuro?
De momento, a prioridade é perfurar novos mercados, e já está a acontecer. Acredito que em alguns meses estarei a partilhar grandes palcos internacionais com grandes nomes internacionais. Nos últimos anos tive avanços significativos nesse sentido, que encorajam e reforçam a visão.
És considerado por muitos um dos maiores produtores musicais moçambicanos. Que responsabilidades isto acarreta?
Fico feliz por este carinho, e sinto-me com a responsabilidade de educar através da minha arte. Implica que seja um role model para muita gente; e, no fim do dia, faço de tudo para ser um bom exemplo a seguir, pois daqui a alguns anos gostaria de ver outros jovens a darem continuidade ao trabalho que tenho realizado nos últimos 22 anos, inspirados na minha ética de trabalho, e com auto-estima para acreditar nos seus sonhos. Todos os dias devo ter cuidado com o que falo e faço, pois existem pessoas a replicarem os meus passos.
