É mais do que uma voz. É uma ponte. Entre gerações, entre continentes, entre o que é dito e o que ainda está por cantar. Aos 36 anos, Djodje carrega nas suas melodias o ritmo de Cabo Verde e o pulso de uma diáspora que dança sem pedir licença. Compositor, intérprete e produtor, é um nome que se fez ouvir sem ruído — com elegância, consistência e autenticidade. Nesta conversa com a Xonguila, recuamos à infância, mergulhamos nos bastidores da sua editora, Broda Music, questionamos os limites da fama e da arte, e celebramos a ligação afectiva com Moçambique. Aqui, Djodje não responde como estrela — mas como homem, criador e irmão de uma cultura que se escreve em crioulo, batuque e memória.

Mininu di Oru” não nasce só do talento — nasce também da luta. Olhando agora para os teus trabalhos mais recentes, como o EP Elements ou músicas como “Tentason” e “Nu Ka Gosta Poku”, sentes que essas feridas ainda cantam contigo? Ou estás a viver uma fase mais leve, mais entregue ao prazer e ao amor, sem esquecer o que te formou?
Em todas as músicas que faço, toda a minha história está comigo. Então, se uma música é mais festiva ou mais triste, por assim dizer, são momentos e são partes de mim. Então, “Tentason”, ou “Nu Ka Gosta Poku”, ou o álbum “Mininu di Oru”, são, são partes de mim e são, são pedaços da minha história. Porque, para mim, o essencial é, em cada música, ter sempre a verdade — a verdade sobre o momento, sobre quem é o artista Djodje — e isso é o que eu tenho de transpor para a minha música.

Há algum som na tua infância que, mesmo hoje, ecoa na tua música?
Com certeza, o som que ecoa em mim até hoje são as festas de quintal, onde os meus tios, a minha família, juntava-se para tocar e cantar — o que nós chamamos, em Cabo Verde, de tocatinas.

E haverá alguma coisa que não tenhas cantado, por medo, respeito ou porque ainda não estavas pronto?
Se ainda não cantei algo, é porque não senti que fosse tempo, não por medo. Tudo o que eu canto é porque sinto. Então, se ainda não cantei alguma coisa, é porque, se calhar, ainda não chegou o momento.

Num mundo saturado de artistas “virais”, como é que o Djodje se mantém autêntico? E o que é que nunca permitirias que mudassem em ti?
O meu segredo, entre aspas, para a autenticidade — e até é um bocado redundante — é manter-me fiel à minha essência, ou seja, é ser autêntico mesmo. Então, esse é que é o maior segredo. E eu não digo que não há nada que não permitisse que mudasse em mim, porque nós estamos em constantes mudanças, né? Mas, com certeza, não permitiria que retirassem a minha essência. Isso, não.

Nos bastidores da tua carreira, há decisões que nem sempre são visíveis. Já houve alguma colaboração que te tenha ensinado mais do que esperavas, mesmo que tenha sido difícil? 
As colaborações são sempre momentos de muito aprendizado. Portanto, há, sim, momentos em que as coisas não têm corrido tão bem, mas foi um aprendizado. E, quando corre muito bem, também é um aprendizado. Portanto, acho que é por isso que eu gosto muito de fazer colaborações.

Fundaste a Broda Music. Já pensaste em parar de cantar para seres apenas produtor e mentor? O que é que mais te apaixona: o palco ou os bastidores?
Eu gosto igualmente do palco e dos bastidores. Portanto, o trabalho de produtor e de mentor é algo que eu gosto de fazer, mas não penso em deixar de cantar para fazer só isso — e vice-versa. Acho que as duas coisas podem andar de mãos dadas, e é o que tem acontecido até hoje.

E sentes haver alguma parte do teu percurso que o público ainda não tenha compreendido bem? 
A parte do meu percurso que eu acho que o público ainda não entendeu muito bem, se calhar, é a fase “Mininu di Oru”. Mas tenho a certeza de que essa fase, ao longo da minha carreira, irá ser muito, muito mais valorizada e compreendida. Sim.

Kriol Kings é um movimento ou um momento? Há espaço para uma nova geração dentro desse conceito?
Kriol Kings é, com certeza, um movimento. Kriol Kings é — é o encontro de dois artistas já com uma carreira consolidada e que querem deixar um legado para as novas gerações. E, com certeza, há espaço para a nova geração. Tanto é que, nos concertos que fazemos como Kriol Kings, e que já fizemos, há sempre espaço tanto para artistas já mais consagrados como para artistas da nova geração. Portanto, é, sim, um movimento.

Tens uma playlist secreta que ninguém esperaria de ti? O que há nela?
Não tenho nenhuma playlist secreta, mas, com certeza, seria muito surpreendente ouvirem a minha playlist (risos), porque é uma playlist muito eclética — que tem desde música tradicional cabo-verdiana, a hip-hop, R&B, kizomba, a música dos PALOP, música brasileira como a de Djavan, Sting... Portanto, é uma playlist muito eclética, e acho que isso também ajuda muito naquilo que é a minha criação musical.

Já nos habituaste a álbuns com identidade forte e evoluções marcantes. O que é que podes já revelar sobre o que vem aí? Títulos, colaborações, géneros, novas línguas… o que podemos esperar, ou não esperar de todo?
Neste momento, estou a preparar músicas novas. Com certeza, este ano vou ter vários lançamentos, e quero focar-me mesmo nisso, em ter vários conteúdos, lançar música nova, lançar formatos novos, fazer concertos. Estou numa fase em que sinto que quero dar mais ao público, em termos do que é o meu conteúdo artístico. É essencialmente isso.

Se a tua carreira acabasse amanhã, que legado pessoal querias garantir que ficava para Cabo Verde e para o mundo lusófono?
O maior legado que eu acho que deixo para Cabo Verde e para o mundo lusófono é que, com certeza, os sonhos se realizam com trabalho, com foco, com determinação. Qualquer sonho se pode realizar, e esse eu acho que é o maior legado que eu acabo por deixar e por representar.

Como vês o futuro da música lusófona?
Sinceramente, eu estou esperançoso com o percurso da música lusófona. Acho que temos ainda muito para conquistar, de uma forma geral, e o que eu espero e desejo é que haja mais colaborações entre artistas da lusofonia, dos PALOP, né? E acho que isso vai fazer com que a nossa música chegue a pontos muito, muito, muito mais distantes, e que consigamos também explorar o potencial que tem a música dos PALOP, a música lusófona.

Já pisaste palcos moçambicanos e sentiste o calor de um povo que dança com alma. O que é que Moçambique representa para ti enquanto artista, e que mensagem gostarias de deixar a quem te ouve por cá — não só como cantor, mas como irmão de uma cultura que também é tua?
Desde muito cedo na minha carreira, mesmo antes de ir para Moçambique, sempre senti um amor muito forte do povo de Moçambique. Quando consegui ir lá actuar pela primeira vez, esse amor fez-se sentir também, e é recíproco. E Moçambique tem sido, cada vez mais, um país com muito significado na minha vida, não só a nível profissional, como também pessoal. Tenho amigos e irmãos, digamos assim, moçambicanos, e quero estar mais próximo da cultura moçambicana, quero estar mais próximo de Moçambique. Adoro Moçambique — é um dos países preferidos da minha família. O meu filho também adora. Portanto, quero agradecer a Moçambique pelo carinho, pelo amor, e saibam que, aqui, também têm um artista que ama muito Moçambique e quer estar mais próximo.