Há artistas que seguem tendências. Outros ajudam a criá-las. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, DJ Faya construiu um percurso marcado pela consistência, pela capacidade de adaptação e por uma profunda ligação à música africana. O que começou nas festas familiares evoluiu para uma carreira internacional que já o levou a actuar em dezasseis países, dos palcos de Moçambique aos Estados Unidos, passando pela Europa, Ásia e diversos pontos do continente africano. Reconhecido como DJ, produtor e formador, foi também um dos nomes que ajudaram a consolidar a profissionalização da arte de ser DJ em Moçambique. Com nomeações e prémios nos Mozambique Music Awards, sucessos que marcaram pistas de dança e uma escola dedicada à formação de novos talentos, DJ Faya continua a olhar para o futuro sem esquecer as suas raízes. Nesta conversa com a Xonguila, fala sobre os desafios do início da carreira, a evolução da música moçambicana, os sonhos que ainda pretende concretizar e o legado que já está a construir.
Como nasceu a tua ligação com a música e em que momento decidiste tornar-te DJ?
Como qualquer jovem que gosta de música, comecei nas festas em família, sendo muitas vezes o escolhido para animar os momentos. O facto de o meu pai ter iniciado uma discoteca no distrito de Marracuene impulsionou ainda mais a minha paixão.
Lembras-te da primeira vez que actuaste perante público? Como foi essa experiência?
A primeira vez que toquei pode até ser um pouco difícil de recordar ao certo, mas, sem dúvida, foi num evento privado, um aniversário ou casamento. Como miúdo que era, acredito que foi uma experiência emocionante e que me trouxe muitas lições.
Quando começaste, imaginavas chegar ao nível de reconhecimento que tens hoje?
Nunca imaginei que fosse chegar a este nível. Tinha noção do meu talento e sentia retorno nas pistas, mesmo entre a família, mas nada ao nível que acabei por atingir.
Qual foi o momento que consideras ter mudado verdadeiramente a tua carreira?
Penso que tive vários momentos que ajudaram a minha carreira, mas quando recebi cinco nomeações nos Mozambique Music Awards (MMA), enquanto DJ, e venci dois prémios importantes, isso deu-me a certeza de que estava no caminho certo.
Sendo DJ e produtor, qual das duas áreas te desafia mais actualmente?
As duas áreas desafiam-me constantemente, porque os tempos mudam todos os dias e devemos estar sempre atentos e disponíveis para aprender novas tendências.
O que sentes quando vês um tema teu tornar-se um verdadeiro hit e começar a ouvir-se em todo o lado?
É o maior reconhecimento do esforço, do investimento em investigação e da criatividade que colocamos no nosso trabalho. Saber que as nossas músicas são escolhidas para abrir salas e marcar o início de muitos momentos e relações é algo muito gratificante.
Que dificuldades enfrentaste no início da carreira que o público talvez nunca tenha imaginado?
O meu pai não aceitava a minha vontade de ser DJ e não facilitava. Hoje dou-lhe alguma razão, porque para qualquer pai, tendo em conta os estereótipos associados às pessoas que trabalhavam à noite, era natural preferir que eu seguisse desporto e os estudos.
Como vês actualmente o mercado da música em Moçambique? Achas que os artistas já conseguem viver da música de forma sustentável? O que ainda falta para a música moçambicana?
Penso que temos muitos exemplos de artistas com mais de 20 anos de carreira que já provaram que é possível viver da música. Ainda assim, sou da opinião de que o artista não deve viver apenas de espectáculos. Em relação à nossa música, acredito que nos falta uma verdadeira indústria cultural, capaz de fortalecer todas as áreas da cultura e de exportar o nosso talento para além das fronteiras.
Hoje existem muitos jovens a entrar rapidamente no mundo da música por causa das redes sociais. Isso ajuda o talento ou cria artistas demasiado apressados?
A tecnologia facilita o acesso, mas não substitui a criatividade, o conhecimento musical, a leitura do público nem a experiência adquirida ao longo do tempo.
Como defines a tua identidade musical? O que diferencia o DJ Faya dos outros artistas?
Sou um DJ de música africana. Apesar de ser versátil e trabalhar em open format, aquilo que me diferencia dos outros artistas é a minha visão e o meu posicionamento no mercado.
Algum tema teu tem um significado mais pessoal ou especial?
A música “Bondoro”. Apesar de ser uma dança criada e desenvolvida na Beira, com a minha música a palavra “Bondoro” e o estilo de beat ganharam força no mercado e acabaram por ser adoptados por muitos artistas.
A vida nocturna pode ser intensa e desgastante. Como cuidas da tua saúde mental e do teu equilíbrio fora dos palcos?
Tenho muito cuidado com a minha saúde. Pratico artes marciais, futebol e ginásio. Procuro alimentar-me bem e controlar a informação à minha volta para não me desfocar nem perder energia.
Qual foi o momento mais marcante ou inesperado que já viveste por causa da música?
Chegar a grandes palcos, actuar em países que sonhava conhecer e ser uma surpresa agradável em eventos de pessoas de diferentes culturas são, sem dúvida, alguns dos momentos mais marcantes da minha carreira.
