Janeiro de 2025. Mais uma vez, retorno à Ilha de Moçambique. Nos últimos dois anos, as minhas visitas a este lugar mágico têm sido frequentes. Aqui, as pessoas encantam-nos com os seus sorrisos, e os momentos vividos são jóias sem princípio ou fim, experiências inesquecíveis que sempre estão presentes em mim.
Contudo, esta viagem é diferente. É uma experiência única. O que aconteceu há poucos dias na Ilha de Moçambique afectou-me de forma significativa – sinto que foi um momento de mudança.
O ciclone Dikeledi passou pela ilha e foi devastador. Numa realidade desafiadora onde a economia local gira em torno de escasso turismo, ofícios artesanais e construção, e onde o salário mínimo é uma promessa sempre adiada, a Ilha de Moçambique foi, mais uma vez, assolada por um ciclone. No dia 13 de Janeiro de 2025, o Dikeledi fez sentir a sua fúria, após o Ciclone Gombe ter deixado o seu rasto de destruição em 11 de Março de 2022.
Ainda existiam famílias que não tinham conseguido recuperar do Gombe quando foram fustigadas pelo Dikeledi. O cenário que encontrei era terrível, com cerca de 80 mil estimadas sem abrigo, não apenas na Ilha de Moçambique, mas também em áreas circundantes, abrangendo um vasto território continental.
As casas, muito frágeis, pareciam montes de areia ou terra macia; mais robustas, algumas com mais de 100 anos, perderam parte dos seus alicerces e ficaram parcialmente destruídas. Calcula-se que 80% das habitações da Ilha foram afectadas.
Com a queda de mais de 90 postes de electricidade, a Ilha ficou sem energia durante cerca de 10 dias, o que interrompeu o abastecimento de peixe, marisco e frango, pois não havia como os conservar. As noites tornaram-se muito mais escuras que anteriormente, excepto em 2 ou 3 locais onde os proprietários tinham geradores, que proporcionavam um pouco de luz no breu nocturno, levando à junção de algumas pessoas. As redes de telecomunicações estiveram sem funcionar durante 3 ou 4 dias. Num mundo globalizado em que se comunica com o outro lado do planeta com apenas alguns toques num teclado, as notícias sobre o que realmente se passava na Ilha ficaram retidas, aguardando o sinal voltar para que pudessem alcançar aqueles que estavam preocupados com os seus.
Todos sofreram, mas os mais afectados foram os que menos têm. É aqui que sinto um enorme orgulho por esta gente humilde, mas repleta de força. Não é fácil sorrir perante a adversidade, nem tão pouco acreditar que amanhã será um dia melhor.
Aqui ficam três pequenas histórias que acompanhei durante os dias que passei na Ilha após a passagem do Dikeledi. Ali, amigos uniram-se e ajudaram algumas famílias a cobrir parcialmente os seus telhados, permitindo-lhes voltar a dormir com alguma protecção. E logo surgiram manifestações de gratidão.
Mamacha Issufo
É uma bisavó resiliente, que desde o Gombe não tem uma única divisão completamente coberta para poder dormir em segurança, ao lado do seu marido. Os traços profundos do seu rosto contam uma história de vida dura, marcada pela ausência de sorrisos. Quando o genro soube que havia pessoas a tentar ajudar algumas famílias, não hesitou em pedir apoio para a sogra.
As imagens que captei mostram claramente como esta senhora tem vivido nos últimos quase dois anos. Agora, Manacha, finalmente, terá a oportunidade de dormir tranquila, sabendo que está protegida. Embora não seja uma mulher de muitas palavras, o rápido e sincero abraço que deu a cada um de nós foi depoimento suficiente de gratidão – vale por uma infinidade de sorrisos.
Nelson Amito
Nelson Amito é um adolescente com um talento especial e um coração generoso. Para ajudar a sua família, dedica-se a fazer desenhos que vende aos poucos turistas que visitam a ilha. Dos seus desenhos, transborda sentimento, reflectindo a sua visão do mundo. Seu sorriso contagiante é um raio de luz; é um bom rapaz que, como qualquer jovem da sua idade, comete alguns excessos, mas parece ter o coração sempre no lugar certo. Nelson e a família vivem numa casa inacabada, com apenas dois quartos. O Dikeledi não foi gentil com eles, levando as chapas do telhado e danificando parte da estrutura. Embora a ajuda tenha sido útil para cobrir os quartos, a sala e outras áreas ficaram sem protecção. Acredito, no entanto, que em breve teremos novos desenhos de Nelson, e espero que os turistas regressem para os adquirir.
Agira Luciano
De todos os casos que acompanhei, aquele que mais me tocou foi o de Agira e Carlos. Eles vivem à beira-mar, cercados pelas águas que tanto amam, enquanto os seus seis filhos brincam diariamente, indiferentes às condições precárias da sua “casa”. Vítimas do Gombe, possuíam cerca de 25m² da casa cobertos, mas o Dikeledi levou quase tudo, deixando-os mais vulneráveis do que como já se encontravam.
A gratidão que Carlos demonstrou ao receber ajuda foi de partir o coração. Homem especial, é evidente o amor genuíno que sente por Agira. Ele trabalha num restaurante próximo e trata todas as crianças da casa como se fossem suas. Duas têm origem em relações anteriores de Agira, mas isso não diminui o carinho que lhes dedica. A cumplicidade entre eles é inspiradora e incrementa a força que encontram uns nos outros, mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras.
Três histórias que ilustram a capacidade de resiliência humana, sem dúvida facilitada pela solidariedade, compreensão e harmonia no lar.
