Da Universidade Eduardo Mondlane para os laboratórios de investigação no Japão, Amade Sambo é um exemplo da nova geração de moçambicanos que leva talento, curiosidade e ambição científica além-fronteiras. Na Universidade de Osaka desenvolveu investigação ligada a uma vacina experimental contra o cancro do pâncreas, um trabalho que reforça o potencial da ciência feita por jovens investigadores do país. Nesta conversa com a Xonguila, partilha o seu percurso, os desafios da investigação e a forma como Moçambique continua presente no seu caminho.
Cresceu em Moçambique e hoje desenvolve investigação de ponta no Japão. Que memórias ou referências do seu percurso inicial continuam presentes no laboratório?
Crescer em Moçambique ensinou-me, desde cedo, o valor da curiosidade e da persistência. Nem sempre tínhamos acesso a todos os recursos laboratoriais que encontro no Japão, mas isso acabou por desenvolver em mim uma mentalidade de resolver problemas com criatividade. No laboratório ainda carrego essa memória: a ideia de que a ciência não depende apenas de equipamentos sofisticados, mas sobretudo de pensamento crítico e dedicação. Muitas vezes lembro-me das aulas e dos laboratórios na Universidade Eduardo Mondlane, que foram fundamentais para despertar o meu interesse profundo pela química.
Antes de falarmos da vacina que é objecto do seu trabalho, queria perceber o homem por detrás do cientista. Quem é Amade Sambo fora da bancada de investigação?
Fora da bancada de investigação, sou uma pessoa bastante curiosa sobre a vida. Gosto muito de caminhar e explorar novos lugares. Também gosto de conversar com pessoas de culturas diferentes, ouvir as suas histórias e aprender como vêem o mundo.
O que o fascinou na química ao ponto de a transformar no seu campo de vida? Houve um momento de descoberta que o marcou?
A química fascinou-me porque é a ciência que explica como o mundo funciona a nível molecular. A ideia de que pequenas estruturas invisíveis podem determinar propriedades da matéria ou até processos biológicos complexos sempre me impressionou. Um momento marcante foi quando comecei a trabalhar com síntese orgânica e percebi que era possível construir moléculas específicas com um propósito científico ou médico.
Desenvolver uma vacina experimental contra o cancro do pâncreas durante o mestrado é um feito raro. Como nasceu essa linha de investigação?
Essa linha de investigação surgiu dentro de um projecto académico focado na síntese de moléculas com potencial aplicação imunológica. Durante o mestrado tive a oportunidade de trabalhar com síntese de peptídeos e glicanos, que são componentes importantes na engenharia de antigénios. A partir daí, juntamente com os meus Professores, começou a desenvolver-se a ideia de construir uma molécula capaz de estimular o sistema imunitário a reconhecer células cancerígenas específicas.
Para quem não é da área científica, como explicaria a lógica da sua vacina e o que a torna inovadora?
De forma simples, a ideia da vacina é ensinar o sistema imunitário a reconhecer células cancerígenas. Isto é, sintetizar moléculas que imitam certas estruturas presentes nas células tumorais. Quando o sistema imunitário entra em contacto com essas moléculas numa formulação controlada, ele aprende a identificá-las como algo que deve ser combatido. A inovação está na forma como estas moléculas são desenhadas quimicamente e apresentadas ao sistema imunitário, utilizando estratégias de química sintética e engenharia de nanopartículas.
Trabalhar com uma doença tão agressiva traz também um peso emocional. Como lida com a consciência de que o seu trabalho pode significar esperança para milhares de pessoas?
É uma responsabilidade grande, mas também é uma motivação enorme. A ciência é um processo longo e muitas vezes incerto. Tento manter sempre uma perspectiva equilibrada, focar-me em fazer o melhor trabalho científico possível e respeitar cada pequeno avanço.
A excelência académica que alcançou na Universidade de Osaka não acontece por acaso. Que disciplina pessoal sustenta esse nível de desempenho?
Acredito muito em consistência. A ciência exige paciência, atenção ao detalhe e capacidade de aprender continuamente. Procuro organizar bem o meu tempo, manter uma rotina de estudo e laboratório disciplinada e, sobretudo, cultivar curiosidade científica. Também considero muito importante colaborar e aprender com colegas e orientadores, porque a investigação raramente é um esforço individual.
Que diferenças encontrou entre o ambiente científico japonês e o contexto académico moçambicano? O que poderíamos aprender dessa experiência?
O Japão tem uma infra-estrutura científica muito forte e um grande investimento em investigação. Os laboratórios estão bem equipados e há uma cultura muito forte de precisão, planeamento e rigor experimental. Em Moçambique, apesar de existirem menos recursos, encontrei também um grande potencial humano e muita vontade de aprender. Acredito que um dos caminhos importantes para o futuro é fortalecer o investimento em investigação e criar mais oportunidades para jovens cientistas.
Já sentiu o conflito entre construir carreira fora e o desejo de contribuir directamente para o desenvolvimento científico de Moçambique? Como equaciona esse equilíbrio?
Aprender em ambientes científicos avançados permite adquirir conhecimentos, redes de colaboração e competências que podem ser muito úteis para apoiar o desenvolvimento científico de Moçambique mais tarde. O ideal é encontrar formas de manter essa ligação e contribuir para o crescimento da ciência no país.
A ciência exige tempo, financiamento e paciência. Num mundo que pede resultados imediatos, como se mantém fiel ao ritmo longo da investigação?
Sendo sincero, ainda estou a aprender a lidar com este ritmo. Acabei de começar o meu percurso mais profundo na investigação e vou descobrindo com o tempo como ela realmente funciona. No início, é natural querer resultados rápidos, mas, à medida que se trabalha no laboratório, percebe-se que a investigação é um processo gradual, feito de muitas tentativas, erros e pequenas descobertas.
Para além da oncologia, que outras áreas científicas despertam interesse em si neste momento? Há novos projectos em gestação?
Tenho interesse crescente em áreas como nanomedicina e engenharia molecular aplicada à medicina. Também me interessa muito a interface entre química e biologia, especialmente no desenho de moléculas capazes de interagir com sistemas biológicos de forma precisa.
Se pudesse imaginar Moçambique daqui a vinte anos no campo da ciência e inovação, como gostaria que o país estivesse posicionado, e que papel ambiciona ter nesse futuro?
Gostaria de ver Moçambique com universidades fortes, centros de investigação bem equipados e uma geração de jovens cientistas capazes de contribuir para soluções locais e globais. Pessoalmente, gostaria de contribuir para esse futuro através da investigação, da formação de novos cientistas e da criação de pontes científicas entre Moçambique e o resto do mundo.
A ciência começa muitas vezes com uma pergunta simples e a coragem de a seguir até ao fim. Nos laboratórios onde trabalha hoje, Amade Sambo continua a fazer exactamente isso: procurar respostas que ainda não existem. E, nessa busca silenciosa, vive também a promessa de um futuro em que mais jovens moçambicanos possam transformar curiosidade em descoberta.
