David Dias, um apresentador muito querido por cá

Quem é David Dias? Fala-nos um pouco de ti e do teu percurso até chegar à RTP?  
Falar de mim é sempre ingrato, tendemos sempre a sobrevalorizar as qualidades e a diminuir os defeitos. Mas a verdade é que as características positivas e negativas moldam a minha personalidade. Sou persistente, exigente, dedicado, resiliente, o que pode ser tanto bom como mau, mas que tem sido importante para o meu percurso profissional. Em miúdo, agarrava na câmara de filmar que o meu pai tinha comprado para dar aso à minha criatividade e só a largava quando as minhas baterias acabavam, ao fim do dia (Tanta reportagem e programas feitos!  Foram aí as minhas primeiras horas de televisão a sério, uma vez que, depois de gravado, obrigava a família toda a assistir... Sofreram!). A verdade é que a partir daí a magia da televisão surgiu e nunca mais me largou, nem eu a larguei. Seguiram-se os estudos, confesso que com imensa vontade e gosto de aprender como este acto básico de comunicar afinal funciona. E foi mesmo durante a licenciatura que surgiu a oportunidade de estagiar na rádio, na Antena 1 – “Oh, não, a rádio!”, pensei eu. Feito o estágio, chegou o fascínio. Afinal de contas, não era a televisão que me dava asas. Do que eu realmente gostava era de conhecer pessoas e de poder partilhar com o mundo as histórias que todas têm para contar. E isso podia fazer na rádio, na televisão, na Internet, onde eu quisesse. Fruto dessa vontade e de uma sorte única na vida, gostaram do meu trabalho e fui colocado na equipa de um programa da autoria de Jaime Fernandes – nome mítico da rádio e da televisão – a quem a minha vontade de fazer mais, fazer bem, convenceu. Daí a um convite para trabalhar na televisão passaram apenas alguns meses. Da rádio para a televisão, o gosto por conhecer e dar a conhecer pessoas continuou. A vontade de fazer perguntas, a pergunta. E talvez por toda essa energia surgiu o segundo convite, vindo de alguém que não conhecia e me surpreendeu. José Arantes, num acto de uma generosidade colossal, convida-me para apresentar um talk-show com uma missão nobre e verdadeira de unir margens, de celebrar diferenças, e, sobretudo, de olhar e tentar mudar o mundo. Não podia estar mais feliz. Oito anos depois do primeiro episódio, vibro de igual forma, tenho o mesmo entusiasmo em cada semana. Porque não há nada melhor do que conhecer pessoas e poder partilhar esse momento com o mundo.

Como surgiu a ideia de criação do programa Conversas ao Sul?   
O Conversas ao Sul nasce do engenho da necessidade de aproximar o que estava demasiado longe. Os públicos pediam que existisse um espaço de partilha, de união, de ponte entre margens distantes. Temos um dos maiores activos do mundo: a língua – fruto de um passado colonial abjecto e traumático, mas do qual devemos tirar o maior proveito possível como forma de celebração das diferenças e semelhanças culturais enquanto seres humanos. Esse espaço não existia em televisão, e é ainda hoje insuficiente, pouco equitativo e pouco representativo na televisão em língua portuguesa. O meu sonho é que existam mais mil Conversas ao Sul por esse mundo fora, para que todos os que têm talento, intelecto, engenho e pensamento tenham palco para partilhar os seus ideais com o mundo.
 

Somos todos diferentes, só isso é incrível. E não sendo eu muito adepto de generalizações, adianto que os moçambicanos que tenho conhecido são resilientes – mesmo perante as mais cruéis adversidades – e optimistas


O que o mais te surpreendeu desde o lançamento do programa?
Toda as semanas são surpreendentes. Não é exagero. São mesmo. O que mais me surpreende desde o primeiro episódio são as histórias de vida dos convidados. A capacidade de superação, de criatividade, de resiliência do Ser Humano é absolutamente avassaladora. Poder escutar testemunhos tão diferentes e tão fortes consegue ser sempre uma novidade, sempre surpreendente. É um privilégio.

Conversas com pessoas de todos os PALOP. Tem sido enriquecedor conhecer gente de tantas culturas diferentes, mas como uma língua em comum? 
Somos todos diferentes, só isso é fantástico. E são precisamente essas diferenças que têm de ser celebradas. É o que nos enriquece enquanto humanidade. Acredito que é na diversidade que está o mote para a felicidade global. Celebremos isso mesmo!

Cada país é diferente, como descreverias o povo moçambicano?  
Somos todos diferentes, só isso é incrível. E não sendo eu muito adepto de generalizações, adianto que os moçambicanos que tenho conhecido são resilientes – mesmo perante as mais cruéis adversidades – e optimistas, acreditando que Moçambique vai assumir-se enquanto país promotor do desenvolvimento humano, da paz, do crescimento dos rendimentos individuais e colectivos e garante da felicidade dos seus cidadãos – convicção que eu partilho.

Depois de tantos entrevistados, existe algum momento ou convidado que te tenha marcado em especial?  
É impossível seleccionar um momento ou um convidado. Todos acabam por me marcar, e levo um bocadinho de todos para a minha vida. Há experiências de vida que são surpreendentes, dificuldades que não imaginamos e quase impossíveis de ultrapassar, mas que foram superadas por aquela pessoa que olhamos ali, olhos nos olhos, ou vidas incríveis ao mais alto nível mundial, mas que não retiram em nada a humildade de determinado convidado. O ser humano fascina-me.

O formato do teu programa é bastante descontraído, e tem sido muito acarinhando pela África lusófona. Quão especial é para ti esse feito e como descreves a sensação de ser um ponto de união de todas estas comunidades?   
No outro dia li um livro sobre a questão das migrações no continente americano rumo aos Estados Unidos da América, escrito por uma norte-americana a partir do ponto de vista de uma família mexicana. Dizia a autora (Jeanine Cummins), na nota final da obra, que compreendia as críticas de que poderia ser alvo por ser ela a contar aquela história e que sentiu muitas dúvidas ao escrever o livro, mas que, encorajada por uma amiga, decidiu avançar. Afinal, ela podia ser uma ponte para que a história fosse contada, e ali o importante era a história. O Conversas ao Sul é também isso: uma ponte que tem de ser erguida. E o melhor das pontes é que unem as duas margens por igual, e o meio é exactamente no meio para os dois lados. É muito gratificante poder fazer parte de uma equipa que, imbuída deste espírito, gosta de erguer pontes e encurtar distâncias.

Sabemos que gostas de pregar partidas e desafios aos teus convidados. Alguma vez pregaram-te alguma partida em directo?  
Esse é um pensamento constante na equipa! Confesso-me um satisfeito alvo de partidas frequentes. E tive algumas surpresas que me emocionaram, como num aniversário repleto de mensagens de colegas e amigos generosos que se juntaram a mim naquele dia, ou alguns jogos que preparam sem o meu conhecimento e me fazem mostrar o meu melhor desportivismo (que, face ao número de derrotas que já tenho, diga-se que é bastante generoso).

Diz-nos 3 personalidades que admiras em Moçambique e porquê. 
Pergunta difícil pela limitação do número. Optarei, por isso, por responder com personalidades que ainda não tive oportunidade de entrevistar – fica aqui desde já o convite. Em primeiro lugar, embora a ordem seja apenas sugestiva, diria Graça Machel. Pelo legado, pela energia, e sobretudo pela força. É uma mulher extraordinária, com um percurso de vida pública e privada repleto de acontecimentos, a quem gostaria de colocar várias questões. Depois, nas letras, Luís Bernardo Honwana, quer pelo percurso enquanto autor, figurando na lista dos nomes maiores da escrita do país, lado a lado com Mia Couto ou Paulina Chiziane (tendo tido já o privilégio de entrevistar ambos), bem como pelo percurso público. Desempenhou funções ao mais alto nível em diferentes organismos, das quais certamente existirão histórias interessantes. E, para juntar a este painel, a cientista Raquel Matavele – recentemente distinguida pela UNESCO pela investigação na luta contra a COVID-19. É um exemplo de como também as novas gerações de moçambicanos desejam contribuir para o país, seja lhes dado esse pódio. 

Planos para o futuro? Pensas vir visitar o nosso país para breve?
Assim que seja possível, tendo em conta a evolução pandémica. Certamente estarei feliz em Moçambique para conduzir um especial do Conversas ao Sul, e para conhecer mais o país – que, pela sua dimensão e diversidade, implicará certamente muitas mais visitas.