No dia 10 de Outubro de 2025, o Centro Cultural Moçambique-China acolheu uma celebração da música, da amizade e da identidade: o concerto Otis & Friends II. Idealizado pelo saxofonista moçambicano Otis Sax, o evento reuniu artistas de diferentes estilos e gerações num mesmo palco, promovendo um rico diálogo entre tradição e modernidade, entre raízes e experimentação.
Antes do espectáculo, a organização apresentou, em conferência de imprensa no Hotel Rovuma, as motivações por detrás desta segunda edição, sublinhando a importância de se criarem espaços onde os músicos possam crescer juntos e o público reencontrar-se com o que há de mais autêntico na cultura nacional. “O objectivo central deste evento é a promoção dos novos talentos e, acima de tudo, enaltecer a cultura moçambicana, provando que através do cruzamento de gerações podemos ter resultados positivos surpreendentes”, explicou um dos responsáveis.
O conceito parte da convicção de que a diversidade é a força motriz da criação artística. “Trabalhar com artistas de diferentes estilos só enriquece o produto final. Cada um, da forma como sabe, aplica o seu conhecimento e, em palco, só visto”, referiu a organização, destacando nomes como Aniano Tamele, Dua Maciel, Celso Durão, Valter Mabas, Sarmento e Mahu, além do próprio Otis.
Mais do que música, o evento integrou também gastronomia e artesanato, reforçando a ideia de que “a cultura é o espelho de um povo”. O público pôde, assim, viver uma experiência sensorial completa — um verdadeiro retrato da vitalidade criativa de Moçambique.
Outro ponto forte foi a presença de artistas da diáspora, cuja participação, segundo a organização, “tem um papel crucial na redefinição e ampliação da identidade cultural nacional”. Para os promotores, a diáspora moçambicana representa uma ponte entre o local e o global, capaz de mostrar que “ser moçambicano é também uma experiência transnacional — moldada pela migração, pelo diálogo intercultural e pela memória”.
O Otis & Friends II é visto como uma semente para futuras colaborações. A organização revelou que está em discussão a criação de residências artísticas e projectos de intercâmbio, de modo a consolidar a iniciativa como plataforma permanente de diálogo cultural. “Ganha a cultura e ganha Moçambique”, resumem.
Entrevista com Otis Sax
O Otis & Friends II surge como um espaço de encontro entre diferentes vozes e estilos. O que o inspirou a dar continuidade a este formato?
O Otis & Friends inicia com a produção do mais recente álbum com o mesmo nome. O lançamento deu-se em 2019 em Maputo. Os meus amigos, os “friends”, acompanham-me ao longo da carreira de forma directa ou indirecta e, por esse motivo, juntei-os para juntos fazermos uma obra atemporal. Com o concerto Otis & Friends 2, junto em palco gerações diferentes com imenso talento. Os mais novos, nomeadamente Mahu e Sarmento, na minha opinião, representam o futuro. Tal como fez Miles Davis, faço eu agora: trabalho com a nova geração. Aprendemos sempre uns dos outros.
Tendo iniciado o seu percurso em Inhambane e vivido grande parte da sua carreira em Portugal, de que forma a distância influenciou a sua relação com Moçambique e com a sua música?
A distância fez com que pudesse “beber” de outras águas e, com isso, enriquecer as minhas habilidades. A minha relação com Moçambique sempre esteve presente, quer nas minhas obras, quer nas minhas visitas frequentes e, acima de tudo, no contacto com os amigos, a nível corporativo e institucional. Sinto que o carinho por mim e pelo que faço se manteve ao longo dos anos. Note que a minha música não é de todo comercial. O meu primeiro álbum, lançado há mais de 20 anos, ainda é presente.
A sua trajectória inclui colaborações com nomes marcantes da lusofonia. Que aprendizagens dessas experiências transporta hoje para o palco moçambicano?
Cada um dos artistas com quem colaborei ensinou-me muito. Cada um é ímpar e isso influenciou a minha forma de estar artisticamente, sem contar com o facto de essas colaborações me terem concedido o privilégio de conhecer meio mundo. O maior aprendizado com estas figuras icónicas foi perceber que, em tudo o que fazemos, devemos manter a nossa genuinidade. Não precisamos ser os melhores, mas sim únicos no que fazemos. Essa tem sido a lição que carrego todos os dias.
A sua música cruza jazz, afro soul, marrabenta e sonoridades urbanas. Como define o seu lugar dentro da actual cena musical moçambicana e africana?
Julgo que a minha genuinidade permite que o meu lugar na cena musical tenha o devido destaque e merecimento. A minha música é atemporal. Apesar de distante, tenho acompanhado o evoluir da qualidade da música produzida em Moçambique e devo reconhecer que a nova geração está muito melhor preparada do que nós na década de 80.
O evento valorizou a diversidade e o diálogo entre culturas. Que significado pessoal encontra nesse cruzamento entre tradição e modernidade?
Muito simples. Temos de ter sempre noção de onde viemos, das nossas origens. Essa tem sido a minha fórmula. A minha discografia tem sempre algum elemento que nos conecta a África e a Moçambique em particular. A modernidade sofre alterações todos os dias; a autenticidade deve ser firme para não perdermos a nossa essência.
Depois de tantos anos de carreira e de nove álbuns publicados, como olha para a evolução do seu percurso e o que o continua a mover artisticamente?
Cada obra discográfica é como um filho que colocamos no mundo. Cada álbum é único e tenho a mesma ligação com todos. Vivo o som do saxofone dia e noite e isso é o motivo para acordar todos os dias. Artisticamente, não me vejo com outra motivação além de continuar a criar enquanto tiver saúde.
Que mensagem gostaria que o público levasse consigo no final do concerto?
Este evento promoveu os novos talentos e a diversidade cultural, mas, acima de tudo, foi uma voz para a paz e reconciliação entre nós, moçambicanos. A música tem o poder de transmitir mensagens, e fazemos uso dela para influenciar a cidadania, o bem-estar entre os moçambicanos e a paz duradoura.
O Otis & Friends II reafirmou o percurso de Otis Sax como um dos grandes embaixadores da música moçambicana contemporânea. Nascido em Inhambane, o artista — nome artístico de Alípio Cruz, em homenagem a Otis Redding — construiu uma carreira que o levou de Moçambique a Lisboa, colaborando com figuras como Roberto Leal, Rui Veloso, Mariza, Bonga e Tito Paris. Em 2025, destacou-se também ao lado dos Calema, num concerto histórico que encheu o Estádio da Luz. Com este regresso a Maputo, Otis trouxe consigo o mesmo espírito que o acompanha desde sempre: o de fazer da música um acto de partilha, identidade e união.
