Há nomes que ultrapassam o feito e se tornam referência. Mas há pessoas que, quando o aplauso termina, escolhem continuar. Escolhem trabalhar, muitas vezes longe do ruído. Clarisse Machanguana poderia viver apenas da memória de uma carreira que abriu portas e inspirou gerações. Esteve fora e preferiu regressar. Preferiu construir. Hoje, o seu campo é outro: são as comunidades, as jovens que procuram horizonte, as estruturas que precisam de mudança. Entre a visibilidade e a responsabilidade, entre a expectativa pública e a mulher que existe para além dela, há uma história que continua a escrever-se. Falámos com ela sobre missão, decisões difíceis, liderança, juventude e legado. Sem nostalgia. Com consciência.
Que parte da sua infância continua a conduzir silenciosamente a mulher que é hoje?
A curiosidade. Cresci em Maputo numa época em que as oportunidades para raparigas como eu não eram muitas, mas sempre fui uma criança que observava o mundo à sua volta e fazia perguntas. O basquetebol entrou na minha vida quando tinha seis anos, e desde cedo percebi que o desporto não era apenas um jogo — era uma linguagem, uma forma de aprender disciplina, de me superar, de pertencer. Essa criança que "batia bola" no Costa do Sol e que mais tarde se revelou no mundo para além da realidade moçambicana, ainda está cá dentro. É ela que me lembra, nos dias mais difíceis, de onde vim e porque faço o que faço.
A Fundação que criou – e que tem o seu nome – foi um passo natural do caminho que vinha a trilhar ou uma inquietação que deixou de caber dentro de si?
Foi as duas coisas, honestamente. Quando regressei a Moçambique, depois de mais de duas décadas a jogar pelo mundo fora, as pessoas e as organizações locais começaram a pedir-me que as representasse — pela visibilidade que o meu nome tinha. E ao fazer esse trabalho, fui descobrindo realidades que não conhecia a fundo: o impacto do HIV, as barreiras que a rapariga enfrenta para simplesmente ficar na escola... Havia uma inquietação que crescia dentro de mim. Mas o que me convenceu mesmo a criar a Fundação foi quando percebi que as raparigas me perguntavam, em voz baixa, qual era o "feitiço" que eu tinha usado para ter sucesso. Percebi que o maior obstáculo não era a falta de talento — era a falta de acesso e a falta de ousadia para sonhar. A Fundação nasceu para ajudar a desfazer essa prisão mental.
Há decisões que nos atravessam para sempre. Tomou alguma com medo nas mãos e, ainda assim, escolheu avançar?
Sim. Voltar a Moçambique. Quando terminei a carreira, tinha opções. Podia ter ficado na Europa ou nos Estados Unidos, construir uma vida confortável, longe dos desafios do dia-a-dia em casa. Mas não conseguia ignorar o que via quando regressava. Voltar com tudo o que aprendi e construí, sem rede de segurança financeira, para montar uma organização do zero num contexto tão exigente — isso exigiu uma fé que nem sempre se sente, mas que se escolhe. Não me arrependo nenhum dia.
Depois dos aplausos e das luzes, que silêncio ficou consigo?
A consciência de que o percurso que tive não foi para mim apenas. Cada vez que saía de um campo depois de uma vitória, olhava para o lugar onde estava — Barcelona, Los Angeles, Seul — e pensava nas raparigas de Marracuene, de Maputo, que nunca teriam aquela oportunidade se ninguém lhes abrisse uma porta. Esse silêncio transformou-se numa responsabilidade. Não num peso, mas numa missão.
Já recusou algum apoio ou parceria por não querer comprometer princípios?
Sim. Há parcerias que trazem dinheiro, mas que cobram algo que não está nos contractos: a tua voz, a tua agenda, a tua autonomia. Deixei muito claro, desde o início da Fundação, que a angariação de fundos nunca seria a peça central do nosso trabalho. O que guia a Fundação são os princípios, a visão, a coerência com as comunidades que servimos. Quando sinto que uma parceria nos afastaria disso, a resposta é não. Não é fácil, porque os recursos são sempre escassos. Mas prefiro fazer menos com integridade do que muito sem ela.
Quando precisa de tomar decisões difíceis, sabendo que nem todos as vão compreender, como encontra o equilíbrio entre firmeza e escuta?
Ouço muito antes de decidir. Tenho aprendido ao longo dos anos que firmeza não é teimosia — é clareza de valores. Por isso, consigo a ser firme depois de ouvir: porque sei o que está em causa e porquê. O que me ajuda é separar a decisão da necessidade de aprovação. Nem sempre as pessoas vão compreender na hora. Às vezes compreendem anos depois. E há decisões em que nunca haverá consenso — e ainda assim têm de ser tomadas.
Quando olha para a juventude moçambicana, o que a enche de esperança e o que lhe tira o sono?
O que me enche de esperança é a energia que existe. Os jovens moçambicanos têm uma criatividade e uma resiliência que me surpreendem constantemente. Quando vejo as raparigas que passaram pela Fundação e hoje estudam no estrangeiro, ou estão a liderar projectos nas suas comunidades, sinto que o potencial existe — sempre existiu. O que me tira o sono é o sistema. A qualidade do ensino, o acesso à saúde, a falta de estruturas que convertam esse potencial em oportunidade real. Mais de vinte anos depois de termos falado sobre estas questões (ainda em pequena falava-se destas matérias), ainda estamos a lutar pelas mesmas batalhas básicas. Isso preocupa-me muito.
Há palavras que se repetem no debate sobre juventude e desenvolvimento. Alguma delas a inquieta por soar vazia?
"Capacitação". É uma palavra que ouço em todos os relatórios, em todos os eventos, em todas as parcerias. Mas quando pergunto o que ficou — o que mudou concretamente na vida das pessoas — a resposta, muitas vezes, é vaga. Capacitação sem continuidade, sem acompanhamento, sem estrutura que sustente o que foi aprendido, é um workshop. E um workshop não muda uma vida. O que muda vidas é consistência.
O conceito de empoderamento feminino ainda a inspira como no início ou sente que perdeu força quando começou a ser usado sem compromisso real?
O conceito em si nunca perdeu força para mim — o que perdeu força foi o uso superficial que se faz dele. Quando "empoderamento feminino" se torna apenas branding, quando aparece em campanhas sem estar ligado a nenhuma mudança estrutural, a nenhuma política concreta, a nenhum acesso real — aí esvazia-se. Mas quando vejo uma rapariga que nunca teve espaço para falar ganhar voz, quando vejo uma jovem que acreditava que não merecia estudar, ir para a universidade — aí o conceito está vivo. Para mim, ele só existe no concreto.
Nos espaços internacionais por onde tem passado, o que viu funcionar que ainda sente faltar estruturar em Moçambique?
A ligação entre o desporto e a educação como política nacional. Em muitos países, o desporto é reconhecido formalmente como um veículo de desenvolvimento social — há investimento, há estrutura, há avaliação. Em Moçambique ainda tratamos o desporto como entretenimento, não como ferramenta. O modelo existe. Nós já o aplicamos na nossa escala na Fundação. O que falta é a vontade e o investimento para o escalar a nível nacional. Também vejo uma diferença grande na cultura filantrópica e de responsabilidade social empresarial. Há muito espaço para crescer nessa área.
Num país onde muitos sentem que a conhecem, como protege a parte da sua vida que não quer transformar em palco?
Sendo muito intencional com o que partilho. Há uma Clarisse pública — a atleta, a fundadora, a activista — e há uma Clarisse que é mãe, que é filha, que tem dias difíceis e dúvidas reais. Essa segunda pessoa não precisa de estar em todas as entrevistas, ou vida social para ser real. Aprendi que posso ser autêntica sem ser exaustiva. Nem tudo o que é verdadeiro precisa de ser público.
Há batalhas que se travam em silêncio. Qual tem sido a mais exigente para si nesta fase da vida?
No início deste ano perdi a minha casa nas cheias que afectaram Moçambique. Foi um golpe muito duro — material, mas sobretudo emocional. Estar do lado de fora, a olhar para o que o esforço de tantos anos tinha construído, com a água pela cintura, foi uma das coisas mais difíceis que já vivi. Mas também me ensinou algo que já sabia, mas que precisava de sentir de novo: nada do que acumulamos nos define. O que somos é o que fica depois de tudo isso ir embora. E a minha família está bem. Era o que importava.
Haverá algo que ainda queira construir e que eventualmente ninguém esteja à espera de ver nascer das suas mãos?
Sim. Tenho pensado muito num espaço físico permanente — um centro que junte desporto, saúde e educação num só lugar, que sirva comunidades de forma contínua e não apenas por projectos. Um lugar que exista independentemente de mim, que sobreviva e cresça por si. Também tenho vontade de escrever mais — não apenas sobre o meu percurso, mas sobre o que aprendi sobre liderança feminina em contextos africanos. Há histórias que precisam de ser contadas na nossa língua, com a nossa voz.
Entre feitos e afectos, o que gostaria que daqui a, digamos, trinta anos, resistisse ao tempo?
Que as pessoas que cruzaram o caminho da Fundação — as raparigas, as famílias, as comunidades — tivessem vidas diferentes por isso. Não por mim. Por elas. E que os meus filhos, Ester e Luca, olhassem para o que a mãe fez e sentissem orgulho — não do nome, mas da coerência. Que o que eu disse e o que eu fiz fossem a mesma coisa. É o legado mais honesto que posso imaginar.
