Butcheca
Escrito por Mariano Silva
Nos finais dos anos 70, um pequeno vindo da Machava, Moisés Ernesto Mafuiane, de seu nome, suscitava na cidade a curiosidade dos mais velhos. Aquele menino fazia coisas que as outras crianças não faziam, e as suas habilidades, capacidade inventiva e de adaptação depressa se tornaram notícia entre as vizinhanças da Malhangalene. “Bummmm (som imitando explosão), tcheca lá (´observa com atenção´) esta cena que este puto fez aqui!” Eram estes e outros comentários semelhantes que surgiam sempre que o garoto fazia algo diferente dos demais, cimentando cada vez mais a individualidade que já o destacava no bairro. Inevitavelmente, o nome acabou por surgir, tal era a frequência do espanto que causava na comunidade: Butcheca, como ainda hoje é conhecido, apesar de que, à época, não fosse algo que lhe agradasse: “Dei por mim a passear na rua e pessoas que nem conhecia comentarem: Olha, ali vai o Butcheca. Eu não gostava, mas não podia evitar que me chamassem assim”.
Recentemente, com 2020 quase a terminar, fomos recebidos no atelier do já consagrado artista moçambicano Butcheca, na Katembe, espaço onde desenvolve os seus quadros e trabalhos de escultura. Conversando no quintal, pudemos verificar que a pandemia também afectou a sua vida, no entanto de forma diferente da que seria de esperar: pudemos constatar que, ao longo dos últimos meses, recorreu ao cultivo de couves, alfaces e outros legumes, para evitar sair de casa, acabando por se tornar auto-suficiente no que toca a estes produtos.
Foi um regresso às memórias do passado, quando, bem pequenino, vivia no “campo”, na Machava-Socimol. Aos cinco anos de idade, foi viver para a cidade, no bairro da Malhangalhene, numa altura em que já manifestava interesse por se expressar artisticamente através do barro e do lápis de carvão, e em criar manualmente brinquedos com arame de vedações que já não cumpriam a sua função. Os tempos de então não permitiam a disponibilidade de papel a que muitas crianças hoje em dia têm acesso, pelo que, para dar asas à sua imaginação, brandia o lápis nas paredes do quarto para desenhar, porquinhos, principalmente. Para o papel, reservava apenas os assuntos da escola, porque gostava de manter o caderno organizado. “Eu era muito bom a desenhar porquinhos, era mesmo a minha cena...”, assim definiu Butcheca, entre uma larga gargalhada, o rigor do traço que já o caracterizava em tenra idade.
Já jovem, em inícios da década de 90, começou a interessar-se pela pintura, ao ver trabalhos de artistas moçambicanos em revistas. Destacava-se na altura Malangatana. Em 1994, as suas capacidades para o desenho permitiram-lhe trabalhar numa empresa de publicidade, onde desenvolvia e pintava painéis publicitários. As tintas que sobravam usava-as nas experiências de pintura que fazia em casa: “Não eram tintas próprias para pintar telas, eram esmalte e tintas plásticas, mas serviram de ensaio para o que viria a ser a minha verdadeira paixão.”
Pintou durante algum tempo sem que os seus quadros vissem a luz do dia, reservando-os ao confinamento num dos cantos do quarto. Em 1996, nutrindo outra paixão, a ginástica, que partilhava com o artista plástico Kester, este acabou por conhecer os seus trabalhos e incentivou-o a inscrever-se no Núcleo de Arte, onde se desenvolveu na pintura, junto a outros artistas de renome da época. As primeiras participações em exposições, ainda colectivas, acabaram por se revelar um desafio: uma, em 1997, na UNICEF, seguida de outra, em 1998, no Núcleo de Arte. “Havia um movimento crítico que era bastante importante para o desenvolvimento dos artistas. Sem a crítica, as pessoas só pintam, e uma pintura tem de ser criada com tudo o que as artes plásticas pedem. Não era fácil fazermos exposições porque a crítica era muito incisiva”.
Desde então vem fazendo investigações no campo da pintura, tendo criado um estilo particular cuja definição ainda não encontrou um rumo muito claro, na sua perspectiva: “A minha pintura encaixa-se no surrealismo, mas depois tenta escapar desse modelo – é um estilo próprio, e ainda estou a investigar qual o campo mais adequado para se encaixar. O meu trabalho está bem definido, mas ainda não bem classificado.”
Visitámos o atelier onde Butcheca mantém algumas obras, e ali pudemos observar e apreciar o estilo de que nos falou. Como seria de esperar, a conversa rumou para o processo criativo que utiliza. Para si, os quadros seguem geralmente um caminho já planeado e estruturado, no entanto, por vezes, “gosto de pintar livremente, de ter a tela num canto, disponível para eu poder sujar, criar texturas e algumas coisas que não se sabe bem de onde surgem. É bom teres uma tela livre, seres livre.
Quando se segue um plano bem definido para a criação de uma tela, pode acontecer que o resultado final seja estático”. Nas séries que cria, geralmente segue as ideias originais nas primeiras telas, que compõem a base do tema, mas, a partir da quarta ou quinta tela, gosta de criar livremente, para fugir à rigidez de movimentos, criando variações sobre as iniciais. “Quem vê uma série minha, verá que as primeiras duas ou três telas estão muito ligadas entre si, são portas que abrem o caminho para as restantes, onde tento obter aquilo que não consegui obter nas telas base”.
O artista moçambicano reserva a noite para finalizar as suas obras, altura em que se pode abstrair de tudo o que o rodeia. Com um pequeno foco sobre a tela, isola-se do espaço envolvente, anulando informações visuais que inevitavelmente o influenciariam durante uma pintura feita ao longo do dia. Consegue assim transportar para o pincel as suas inquietações de uma forma mais dirigida, garantido os melhores resultados finais.
“Entre 2000 e 2006, o meu traço representou frequentemente o quotidiano. Queria perceber o mundo que me rodeava. Representava a luta diária que era trazer o sustento para casa. Hoje em dia o quotidiano ainda aparece nas minhas telas, embora de forma mais dissimulada e esporádica. A minha base são o movimento e os gestos. Quando assisto a um espectáculo de dança contemporânea, absorvo muito da fluidez e dinâmica dos corpos em palco.”
“Corremos o risco de se perder a essência do que é sentir o cheiro das tintas e a textura do barro. Mais cedo ou mais tarde, haverá necessidade de se dar um passo atrás, para que a arte dos trabalhos manuais não morra no esquecimento. Caso percamos para sempre as artes plásticas, será como amputarmo-nos dos nossos sentidos”
Actualmente, Butcheca aprecia fazer experiências com touros. A poeira que se levanta entre as patas serve de inspiração para criar a base das suas obras. Os ensaios dos desenhos surgem frequentemente com traços taurinos, em sua opinião, talvez também inspirados pelo signo que o viu nascer. São experiências que gosta sempre de fazer. Por vezes desloca-se a reservas naturais, para observar búfalos. O movimento das hastes e dos pêlos do focinho influenciam fortemente a fluidez do traço ao longo da tela.
Como em tudo na vida, há que ter um escape. A pintura é um processo criativo muito absorvente, pelo que requer, por vezes, um afastamento para rejuvenescer a mente. Recorre à escultura como que a um “tira-gosto”, para se libertar da pintura quando esta se torna tendenciosa e a criatividade não lhe traça o caminho pretendido. O arame, o barro e, principalmente, a madeira, canalizam a inspiração para outros rumos, que o hão-de fazer retornar à pintura de uma forma purificada. Tais esculturas podem ser vistas no seu atelier na Katembe, uma colecção privada que raramente traz a público.
As aulas de artes plásticas que lecciona na Escola Francesa de Maputo têm sido uma oportunidade muito construtiva. Segundo o artista, para além de ensinar, vai para aprender da fonte mais crua e
neutra: “As crianças são muito espontâneas no que toca a finalizar uma tela, algo que os adultos já não têm, pois estes procuram muito para chegar a um resultado. As crianças finalizam as telas com resultados surpreendentes”.
Ainda no campo das experiências e vivências, Butcheca partilhou connosco como a participação no festival Sukiyaky Meets the World, no Japão, com o Grupo de Marionetas Gigantes de Moçambique, lhe revelou um desfecho inesperado. Para além de ter sido uma oportunidade única de representar o nosso país num festival daquela envergadura, pôde apresentar uma exposição individual de pintura, que foi muito apreciada pelo povo japonês. A sua presença foi de tal forma inspiradora e influenciadora que, no regresso, foram-lhe oferecidos pequenos bonecos “Butcheca”, que os alunos dos workshops de marionetas desenvolveram, em casa, como forma de gratidão pela troca de experiências com o artista moçambicano.
Já quase a terminar a nossa visita, falámos um pouco sobre o mundo e a forma versátil como a tecnologia actual permite a divulgação global do trabalho dos artistas, e a tendência de hoje em dia cada vez mais artistas recorrerem exclusivamente a arte digital. Butcheca salientou aquilo que a tecnologia nos pode retirar aos poucos, sem que nos apercebamos: a dádiva que nos foi oferecida pela criação, o poder de criar com as mãos. “Corremos o risco de se perder a essência do que é sentir o cheiro das tintas e a textura do barro. Mais cedo ou mais tarde, haverá necessidade de se dar um passo atrás, para que se recupere a arte dos trabalhos manuais, para que ela não morra no esquecimento. Caso percamos para sempre as artes plásticas, será como amputarmo-nos dos nossos sentidos”.
