A música lusófona tem a capacidade única de atravessar fronteiras e unir os PALOP através da língua e da cultura. Como vês essa ligação e de que forma é que ela contribui para que as tuas músicas cheguem a tantos países, como acontece?
Sim, é uma grande verdade. Eu acho essa ligação superimportante e, sem dúvida, ajuda bastante a levar a minha música aos quatro cantos do mundo. Aliás, vou dar um pequeno exemplo disso: no YouTube, o segundo país que mais consome as minhas músicas é Timor-Leste, que, se não me engano, tem cerca de 1 milhão e quatrocentos mil habitantes e fica na Ásia. Para mim, saber que a minha música é ouvida em cerca de 180 países é um enorme orgulho. Mas também deixo um apelo para que haja ainda mais união na nossa indústria musical, pois, se houvesse, poderíamos estar ainda melhor.
As tuas músicas têm uma energia muito própria, seja para dançar, seja para sentir emoções mais profundas. Quando estás a compor, pensas mais no impacto que a música terá no público ou deixas que a melodia e a letra te guiem sem pensar nisso?
Em quase todas as músicas, começo por criar o refrão, pois acho que é uma das partes mais importantes – talvez mesmo a mais importante. Para ser sincero, muitas vezes acabo por não pensar no impacto, e quem pensa nisso é o meu produtor executivo e manager, Ricardo Nóbrega.
Muitos artistas falam sobre a pressão da indústria musical. Já sentiste que precisaste de te reinventar para acompanhar as mudanças no mercado?
Esse é um tema bastante interessante, pois, de facto, é uma indústria onde existe imensa pressão. Mas, para ser sincero, desde o início que tento reinventar-me todos os dias. Gosto de aprender, de produzir novos estilos, de criar novas sonoridades e de misturar estilos nas minhas produções e composições.
O que mais mudou na tua forma de criar música desde o início da tua carreira até agora? Há algo que fazias antes e que já não faz sentido para ti hoje?
Há sempre coisas que mudam, porque, quanto mais experiência e maturidade temos, mais tentamos evoluir – sem nunca perder a nossa identidade musical.
A kizomba já passou por várias fases e evoluções ao longo dos anos. Ainda há espaço para inovação no género ou acreditas que ele atingiu o seu auge?
Acho que, enquanto houver imaginação, existirá sempre algo para inovar ou para fazer fusões de estilos. No entanto, nem sempre essa inovação pode ser benéfica para o género musical. Mas devemos sempre respeitar as regras-base de um estilo.
Muitos conhecem as tuas músicas de sucesso, mas há alguma canção tua que consideres especial e que achas não ter ainda recebido a atenção que merece?
Para mim, todas as minhas músicas são especiais. Eu digo sempre que a música mais especial que tenho é o "Tá-me Esperare". Mas, respondendo à tua pergunta, por vezes fazemos músicas para tentar abordar temas que consideramos importantes, mas nem sempre são valorizadas como gostaríamos. Destaco um tema meu chamado "Ninocolocolo", que fala sobre bullying. Esse tema faz parte do meu segundo álbum, Memórias, e talvez não tenha tido a atenção merecida.
Sabemos que muitas músicas nascem de histórias pessoais. Alguma vez lançaste uma canção de que, mais tarde, te tenhas arrependido de partilhar por ser demasiado íntima?
Muitas das minhas músicas foram criadas com base em histórias pessoais – minhas ou de outras pessoas. Mas não tenho nenhuma de que me tenha arrependido por ser demasiado íntima.
Há algum estilo musical inesperado que gostarias de experimentar? Algo que os teus fãs jamais imaginariam ouvir na tua voz?
Sim, há imensos estilos. Aliás, quem me conhece sabe que sou bastante versátil. Se um dia fosses ao estúdio comigo, ouvirias muita música em estilos diferentes – ideias que foram criadas, mas que nunca foram lançadas.
A nova geração de artistas está a trazer novas influências para a música lusófona. Se tivesses de escolher um jovem talento para apadrinhar na indústria, quem seria e porquê?
É difícil precisar apenas um jovem talento, porque neste momento existem dezenas, ou até mesmo centenas de jovens com imenso talento no panorama da música lusófona. Isso dá-me imenso gosto de ver, pois é esta nova geração de artistas que continuará a levar e elevar a música lusófona pelos quatro cantos do mundo.
E em Moçambique há algum nome que te tenha chamado a atenção ou com quem gostasses de vir a colaborar?
Moçambique tem um tesouro cultural enorme e muitos artistas de grande qualidade com quem, um dia, não teria problema em colaborar. Seria injusto da minha parte citar apenas alguns, pois há imensos artistas moçambicanos cujo trabalho aprecio.
Faz anos que actuaste em Moçambique. Será que podemos esperar para breve algum novo concerto teu?
Fui ver a data da última vez que estive em Moçambique e percebi que foi a 5 de Março de 2016 – já fez nove anos. Ao longo destes anos, têm surgido diversos convites, mas acabam por não se concretizar. Mas sim, podem contar que pretendo imenso voltar a Moçambique para fazer um grande concerto ao vivo com a minha banda. Tenho imensas saudades de Moçambique e deixei aí muitas boas amizades.
Gostarias de deixar alguma mensagem aos teus fãs moçambicanos?
A todos os meus fãs moçambicanos e a todo o povo de Moçambique, quero agradecer pela forma como, ao longo destes anos, me têm apoiado, incentivado e dado o vosso carinho e amor. Amo esse povo e essa cultura. Quero dizer-vos que vou continuar a dar-vos boa música, com todo o meu respeito e carinho. Obrigado a todos vocês! Ah, e quando voltar a Moçambique, irei gravar mais um ou dois videoclipes nesse magnífico país.
