Adelino Branquinho: um homem nascido para o palco

Escrito por Jaime Álvaro
 

Entre o palco e a tela cinematográfica, Adelino Branquinho, actor moçambicano de 62 anos, já viveu muitas vidas ao longo da sua carreira. Já foi um rei e também um mendigo, já foi feminista e contrabandista, mas nem um dia sequer levou um único personagem para casa, por muito que desejasse ter vivido efectivamente alguma das imensas vidas que interpretou. 
Nasceu em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, mas o teatro fixou-o na capital do país, e levou-o a conhecer o mundo. De mãe moçambicana e pai natural de Trás-os-Montes, Portugal, estudou Electricidade e trabalhou como técnico de refrigeração até ao dia em que subiu ao palco da companhia teatral Mutumbela Gogo, no Teatro Avenida, em Maputo Desde então nunca mais dele desceu, e já se passaram três décadas.
 

Nunca estudei teatro numa academia. A minha Escola, e hoje a minha vida também, é o Mutembela Gogo, que me fez o homem que sou e o profissional em que me tornei

Branquinho vive, literalmente, no palco, mas há quase dois anos que está longe dele. A pandemia da covid-19 parou o mundo e ele parou de viver as vidas de outrem. Dedica-se agora a ser ele próprio, sem luz, sem palco, sem acção e sem público. “Vivemos tempos difíceis. A pandemia afectou todos nós, e mais particularmente a nós, os artistas. Já estou há muito tempo a descansar e estou ansioso por voltar aos palcos e ter a minha vida normal de volta. Para além de ser benéfico para mim, também é bom para as pessoas. O teatro é muito importante, tanto para o equilíbrio social como emocional das pessoas.”

Entre as peças em que já actuou, Adelino Branquinho destaca Amor Vem, de 1992, adaptação de uma comédia grega de Aristófanes denominada Lisístrata. No enredo, a estória de uma imaginária ateniense que chefiou uma greve de sexo. Exaustas com uma guerra civil que se alongava no país, as mulheres das cidades mais atingidas pelos conflitos decidiram agir. Chefiadas por Adelina, personagem a que Branquinho deu corpo, resolveram pôr fim às hostilidades usando uma táctica pouco ortodoxa: uma greve de sexo para forçar um tratado de paz. “O teatro é um veículo rápido para atingir as pessoas e quebrar preconceitos, e aquela peça vinha quebrar o estereotipo que se tinha (e se tem) das mulheres, de que elas são o sexo fraco. 10, 12 dias depois de nós estrearmos a peça, foi assinado o Acordo Geral de Paz em Moçambique. Foi um momento marcante para a história do país e do teatro, um momento que mostrou a força do teatro na sociedade”, conta Branquinho. “Amor Vem categoricamente previa um acto heróico com o objectivo de salvar o país da guerra.”

Além de Amor Vem, Branquinho participou em peças como Governadores do Orvalho, Qual é a Coisa Qual é Ela, Nove Hora, Eu Eduardo Sonhei a Terra, As Mãos dos Pretos, Irmãos de Sangue, Hamlet, Os Meninos de Ninguém, entre outras tantas cujos personagens foram marcantes. “Eu gosto de viver o personagem. Para conseguir produzir um personagem marcante tens que ir ao fundo, viver esse personagem no seu psíquico, vivê-lo nos seus momentos de lazer. É preciso estudar o personagem, sem o interiorizar, para evitar choques psicológicos.”

A ocasião fez o actor

Adelino Branquinho é um caso do acaso. Estudou electricidade e, antes da vida nos palcos, trabalhou como técnico de refrigeração, até aos 30 anos. O primeiro contacto com um palco, onde passaria a ser a sua vida, foi pura casualidade. “No exercício do meu ofício, fui chamado a resolver um problema no ar condicionado no Teatro Avenida. A meio do trabalho, recebi um convite da Manuela Soeiro, directora do Mutumbela Gogo, para subir ao palco e fazer o papel que era representado por um actor faltoso. Foi um momento mágico que mudou para sempre o rumo da minha vida”, revela o actor, que prossegue: “Nunca estudei teatro numa academia. A minha Escola, e hoje a minha vida também, é o Mutembela Gogo, que me fez o homem que sou e o profissional em que me tornei”.

Do frio para o calor dos palcos, assim foi a transição de vida de um actor reconhecido por sua obra e trajectória na dramaturgia nacional, que promete revelações inéditas no seu livro autobiográfico. “Já interpretei muitos personagens ao longo da minha carreira, mas nunca tive oportunidade de fazer de técnico de refrigeração em plena cena. Seria interessante fazê-lo.”

Foram, com efeito, muitos os personagens, de diferentes condições sociais, que Branquinho representou, mas nunca se tornou nenhum deles. “É quase impossível falar de mim sem falar dos personagens, das vidas que vivi no palco. Mas não tenho dificuldade de me definir, porque nunca, em toda a minha carreira, levei um personagem para casa.”

Participações também em cinema

Branquinho também brilha como actor de cinema, e, como conta, a transição “foi natural”. O primeiro filme em que actuou foi O Sucessor, de um realizador norueguês, onde fez o papel de jornalista investigativo. De jornalista a explorador de crianças, na peça Meninos de Ninguém adaptada para cinema, emprestou o seu talento a Hollywood com uma participação em Blood Diamond (Diamantes de Sangue), onde interpretou um contrabandista de diamantes. Nesse filme, parcialmente rodado em Maputo, contracenou com o mundialmente famoso Leonardo Di Caprio. “Sem dúvidas que foi a minha maior experiência na sétima arte. Foi interessante contracenar com um actor como Leonardo Di Caprio. Ele é muito profissional”. Mais recentemente, Branquinho participou em “AvóDezanove e o Segredo do Soviético” (2019), do cineasta moçambicano João Ribeiro. Apesar da aventura cinematográfica, é como actor de teatro que se define e tem mais prazer: “Eu me formei no palco, e é aí que me sinto mais à vontade, por ter um contacto físico com a audiência. Gosto de sentir o calor humano”.

No futuro, que se vai adiando pela situação pandémica que assola o mundo há dois anos, Adelino Branquinho pretende focar-se num projecto de Academia de Teatro, para partilhar a sua experiência e dar a jovens a oportunidade que ele não teve, oferecendo-lhes as ferramentas necessárias para se profissionalizarem. “Se a um talento nato se junta formação técnica específica de teatro, técnica de voz, de dicção, de encenação, técnica de expressão corporal para explorar melhor esse talento, é mais fácil esse indivíduo tornar-se um bom actor ou bom encenador ou dramaturgo”, finaliza Branquinho, sem encenação.