A ARTE DE CAMINHAR & PHOTOMATON
Breves notas sobre a fotografia de Mariano Silva

As imagens que Mariano Silva nos apresenta pretendem pouco ou nada dizer sobre os rostos dos sujeitos fotografados, mas dizem muito sobre os caminhos atravessados pelo homem, animal laborans dos tempos modernos. São homens e mulheres que, miniaturizados em fotografia, empreendem movimentos vários, em avanços e recuos, em cruzamentos e desdobramentos, soltando os seus corpos e, lançando sobre os caminhos, as suas vitórias e derrotas. São homens e mulheres que, com leveza e desenvoltura, calcorreiam caminhos e atalhos, num andar de quem sai à rua, não apenas para atravessar, mas também para nela se perder.

Diante da objectiva do fotógrafo, que itinerários então se nos aduzem? Serão breves ou longos, tais caminhos? Íngremes ou lineares? Serão novos trajectos ou antigos e gastos? A fotografia de Mariano alerta-nos que são caminhos de amor e perdição, de luz e escuridão, caminhos que se abrem para outros caminhos, mais labirínticos, talvez, mas que nos transportam ao passado e ao futuro. Carreiros que, amiúde, são o único trajecto possível ou, como diria o poeta, o último lugar onde hospedar os pés. Estes que vão e regressam pelo mesmo trilho, trazendo o cheiro quente do asfalto e o perfume do vento.

Até que ponto as ruas e esquinas aqui retratadas podem dizer-nos sobre as mulheres e os homens que as percorrem, passo a passo, tropeço a tropeço, queda a queda? Mariano lembra-nos, através das suas belíssimas representações, que a fotografia é também a descrição dos caminhos que percorremos e tropeçamos e onde nos levantamos para voltarmos a percorrê-los. O que almejam então alcançar esses corpos palmilhando caminho tão vastos e distintos? Caminhos que se entregam ao rumor dos homens que os desbravam, sem deles esperar nada, assumindo-os apenas como se da sua natureza fossem. Eis uma possível reflexão a que Mariano nos convoca. Ou talvez seja o contrário: essas esquinas e ruas percorrem os corpos que as calcam, quase voluptuosamente, abrindo-se firmes, sem qualquer renúncia, sob os pés dos transeuntes?

Seja o que for, Mariano se serve da arte de caminhar para fazer caminhar a sua arte, expondo-a em todo o seu esplendor e descrevendo, docilmente, essa relação íntima e complexa entre o homem e a sua caminhada. São fotografias pensadas, como se determinada imagem já habitasse, meses antes da objectiva a tornar retrato, o nosso imaginário colectivo.

Mbate Pedro