Pouco ou nada sabe certamente o leitor sobre a foto da mulher com rosto pintado à macua, lenço de capulana e um belo sorriso tímido que é amplamente utilizada, sobretudo em datas comemorativas relacionadas com a mulher, em Moçambique e outros cantos do mundo. Com efeito, essa imagem que muito rapidamente se tornou uma referência da mulher moçambicana, e é por todos conhecida, popularizou-se sem qualquer indicação de autor nem da mulher fotografada. Pois a Xonguila traz hoje a sua história, revelada pelo próprio autor, que pela primeira vez leva créditos pela sua obra.


A foto é da autoria de Moisés Oliveira, redactor publicitário e fotógrafo brasileiro de 37 anos de idade. Nasceu numa família humilde, na zona leste de São Paulo, na favela Jardim Sinhá. De resto, a sua infância foi dura e passada na periferia, entre a favela Zilah Spósito, em Minas Gerais, e a favela Da Baronesa, em Belo Horizonte. Formou-se em Propaganda e Marketing e especializou-se em Redacção Criativa. Em 2009, com apenas 23 anos, aventurou-se para Maputo, acompanhado de um amigo que o incentivou, para trabalhar como redactor publicitário na Agência DDB Moçambique. O contrato era curto, de apenas um ano, mas acabou apaixonando-se pelo país e aqui viveu durante cinco anos. A sua vinda a África significou o começo de uma nova vida e uma projecção profissional de sonho. É casado, aliás conheceu a mulher em Moçambique, e tem dois filhos. Actualmente vive em Portugal, mas sonha um dia conhecer o Japão, e o seu livro preferido é a Bíblia. “A minha experiência em Maputo foi fabulosa. Eu era muito novo quando cheguei. Tinha apenas 23 anos. Mas ainda assim, consegui aproveitar ao máximo essa experiência e conhecer uma cultura diferente, um povo diferente, com costumes diferentes. Para mim, foi uma das melhores experiências da minha vida e eu tenho imensas saudades daquele tempo”.

Apesar dos desafios que teve que enfrentar, Moisés diz que foi muito bem acolhido em Moçambique e que a simplicidade e a alegria do povo moçambicano, mesmo diante de dificuldades, facilitaram a sua adaptação e, por isso, sentiu-se sempre em casa, reconhecendo o papel dos amigos na sua adaptação: “Depois do Vasco Rocha, o Director da DDB, eu tinha ali um colega, o nosso grande amigo Azagaia, que, infelizmente, veio a falecer. Mas ele, no caso, foi uma pessoa que me ajudou imenso nessa adaptação, sobretudo com a língua portuguesa em Moçambique. Porque além de músico, ele também era redactor publicitário na mesma empresa. Olhava para os meus textos, me dava dicas, me ajudou a escrever de uma forma que chegasse mais perto daquilo que é o linguajar moçambicano”.

A cereja no topo do bolo
É assim que Moisés descreve a sua passagem por uma das maiores agências de publicidade em Moçambique: “Nos meus sete anos a trabalhar em agências de publicidade, a DDB foi realmente a cereja no topo do bolo. Porque foi onde, de facto, consegui construir com solidez um trabalho mais consistente”. Moisés entrou na DDB Moçambique como redactor sénior e, pouco tempo depois, começou a actuar como supervisor de criação, tendo sido, seguidamente, promovido a Director criativo da empresa, cargo que ocupou até à sua saída da empresa, em 2014. “Foi uma experiência maravilhosa, ainda mais porque eu era extremamente novo, tinha apenas 26 anos e geria uma equipa de quase 20 criativos. Esta experiência agregou muito valor na minha profissão. Nós ganhámos imensos prémios”, acrescentou. Sob o seu comando, a DDB foi laureada em diversos festivais internacionais, com destaque para uma menção honrosa na maior premiação mundial de publicidade, o festival de Cannes.

No ano de 2014, Moisés viajou para Portugal, onde gere o seu próprio estúdio de comunicação digital. “Antes de iniciar a minha jornada empreendedora, o meu próprio negócio, a DDB Moçambique foi uma grande escola, tinha mais de 60 colaboradores. Tenho muito carinho e respeito pelo Vasco Rocha, que me deu essa grande oportunidade, que me trouxe para Moçambique e me ajudou em tudo o que precisei para me adaptar ali naquele país. Portanto, a DDB está num lugar muito especial no meu coração. De todo o valor que me foi agregado durante a minha carreira nessa profissão de publicitário em agências, a DDB foi responsável pela maior parte, com certeza”, destacou.

Foi na DDB que o redactor publicitário desenvolveu as suas habilidades em fotografia. De amador, transformou-se num fotógrafo profissional. “A fotografia não transformou só a minha vida profissional, transformou a minha vida como um todo, porque desde criança eu gostava de ver quem tinha uma câmara na mão, eu não tive a oportunidade de ter tão cedo, mas eu gostava de ver pessoas com aquele aparelho a tirarem fotos e gostava de ver fotografias também”, explicou o fotógrafo documental e jornalístico. Durante a sua estadia em Moçambique, Moisés escalou várias províncias nas três regiões do país, onde registou várias imagens da vida quotidiana. Imagens de eventos de todo o tipo, imagens de artistas, de políticos, imagens de profissionais de diversas áreas de actuação, imagens de rua, imagem de qualquer coisa, de qualquer cena e até de pessoas desconhecidas. E, curiosamente, a sua obra-prima mais famosa é de uma mulher desconhecida a quem chama musa e que abençoou como “Mulher moçambicana”. Mas onde, como e quando foi tirada a fotografia?

A reconstrução da cena
Moisés é um daqueles fotógrafos que não sai de casa sem a sua máquina na mochila. E não volta para casa sem imagens novas. Procura explorar ao máximo todas as oportunidades que surgem para congelar um momento para a posteridade. Foi com esse espírito embutido que conseguiu fazer uma foto que, depois de ser publicada pela primeira vez num blog, viralizou na internet, passando a ser um símbolo do dia 7 de Abril – Dia da Mulher da Mulher Moçambicana.

A fotografia intitulada “Mulher Moçambicana” foi tirada há precisamente 12 anos. “Naquele dia, 19 de Outubro de 2011, inaugurariam a estátua de Samora Machel, em frente do Conselho Municipal de Maputo, e ali estariam presentes personalidades como Graça Machel e o presidente da altura, Armando Guebuza. Eu precisava ir lá e fotografar qualquer coisa. Queria documentar aquela ocasião e, quem sabe, conseguir umas boas imagens do Presidente”. Moisés conseguiu muito mais que uma boa imagem, Moisés conseguiu captar uma história, um momento ímpar que marcou para sempre a sua vida profissional. “Naquele dia, avistei um grupo de dança de mulheres que estavam ali, entre outros grupos, para enfeitar aquele momento especial, vestidas com cores alaranjadas, e decidi fotografá-las. Elas viram-me e ficaram subtilmente envergonhadas, porém sorridentes. Não tirei mais do que 20 fotografias daquele grupo, mas uma delas marcou para sempre este dia. Nem mesmo as fotografias de Guebuza ou de Graça Machel, que também consegui fazer, me deixaram tão feliz quanto ver aquele retrato, daquela senhora com a capulana na cabeça, a pintura à volta dos olhos e um sorriso meigo no rosto”, descreveu. Para Moisés, a foto “Mulher Moçambicana” representa um esforço de aproximação com o povo moçambicano, por quem nutre um carinho especial. “Aquela fotografia, para mim, ficou marcada como uma imagem que me deu um passaporte, essa proximidade com a cultura, essa amizade com o povo moçambicano”.

“O pior desse uso indevido para fins comerciais e publicitários não é pra mim, é para ela, porque é a imagem dela que está a ser utilizada, e ela merecia, de facto, receber por essa utilização. Qualquer ganho que se podia ter era para ela e não para mim.” - Moisés Oliveira, fotógrafo

Fama sem créditos 
O fotógrafo brasileiro reivindica a autoria da foto que rapidamente se espalhou pela internet e misteriosamente se tornou uma referência, uma imagem representativa da mulher moçambicana. “É uma fotografia de que eu perdi a mão, ela espalhou-se pela internet com bastante rapidez e eu nunca mais consegui ter um tipo de controle sobre essa fotografia, também não tentei controlar, deixei a imagem vagar por aí”. Moisés afirma que nunca recebeu créditos pela foto, que hoje é amplamente usada para vários fins, inclusive publicitários, sem nenhuma autorização e sem nenhuma compensação, violando desta forma os direitos autorais deliberadamente. “Já vi uma pintura de uma mulher num mural na Namaacha inspirada nessa foto. Isso até me deixou ainda mais feliz, honrado e orgulhoso do que as diversas partilhas na internet; a utilização da imagem como publicidade não me deixou assim tão feliz”. Moisés lamenta e condena o uso indevido da imagem, principalmente em datas comemorativas associadas à mulher, como o dia 7 de Abril – Dia da Mulher Moçambicana – e dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher. “Eu nunca autorizei o uso comercial dessa imagem, até porque sequer tenho a autorização da própria pessoa na fotografia. Portanto, nunca vendi essa fotografia, nunca recebi absolutamente nenhum valor pelo uso comercial dela.  Todas as pessoas que a usaram comercialmente, usaram indevidamente”.

Moisés não espera nenhuma indemnização pela fotografia. Mas espera que este artigo chegue à “Mulher Moçambicana” e que sirva de instrumento para reivindicar os seus direitos pelo uso da sua imagem para fins comerciais e publicitários. “O pior desse uso indevido para fins comerciais e publicitários não é pra mim, é para ela, porque é a imagem dela que está a ser utilizada, e ela merecia, de facto, receber por essa utilização. Qualquer ganho que se podia ter era para ela e não para mim”.

Mesmo não sabendo absolutamente nada sobre aquela mulher, que virou a sua musa, Moisés sonha com um possível reencontro.