Um trágico acidente, aos oitos anos de idade, deixou sem os membros inferiores Mariana Tembe, que, resiliente, desde cedo aprendeu a conviver com a fatalidade. Em 2006, desafiou a lógica habitual, decidindo formar-se em dança. Mas… como se dança sem pernas? Mariana, bailarina há 16 anos, explicou-o à Xonguila, a partir da Ilha da Madeira, Portugal. 


Mariana renasceu com o acidente que culminou com a amputação das pernas? Este foi o nosso mote para a entrevista virtual com esta artista de 34 anos nascida e criada em Maputo. "Não diria que renasci com o acidente, mas sim que me descobri. A Mariana de antes ainda existe em mim, mas, depois do acidente, revelou-se a verdadeira Mariana, forte, determinada, destemida e lutadora. O acidente veio despertar o que já existia", respondeu. "A vida, às vezes, puxa-nos por caminhos cheios de espinhos apenas para nos testar e dar a saber o quão fortes somos", afirmou.

Para perceber esta afirmação, é preciso recuar-se no tempo. Há três anos (em 2019), Mariana recebeu um convite para integrar a Companhia Dançando com a Diferença, durante uma apresentação num Festival de dança na Suíça. "Antes de aceitar a proposta, disseram-me para ir conhecer a Ilha da Madeira de modo a avaliar questões de acessibilidade. Quando cheguei lá, fiquei chocada, porque o nível de acessibilidade é de zero por cento. Não é acessível, sobretudo para quem anda de cadeira de rodas. Tem muitas subidas e descidas, e as inclinações são mesmo para matar", contou.

Mariana estava disposta a tudo para crescer profissionalmente e não queria desperdiçar a oportunidade de aprender o mundo e aprender novas coisas, por isso, disse que sim ao convite do director artístico da Companhia, Henrique Amoedo. "A vida é feita de desafios e mais uma vez eu tinha um desafio. Olhei para o lado bom – profissionalmente ia crescer, ia ser muito bom para mim sair das minhas raízes, tentar furar o mundo e aprender novas coisas – e era uma boa oportunidade para sair das asas do papá", disse, com risos. "A Companhia criou-me condições para ter o máximo de conforto que lhes era possível proporcionar-me", prosseguiu. Criada há 22 anos com objectivo de promover a inclusão social e cultural através da dança, a Companhia Dançando com a Diferença conta com cerca de cem pessoas, entre jovens e adultos.

Esta é uma história de sucesso que a maioria das pessoas desejaria ter vivido. Mas houve lutas, lágrimas e sacrifícios para Mariana chegar onde está hoje. É uma história que trazemos propositadamente neste mês especial da mulher, Abril, para homenagear as mulheres moçambicanas, e, em particular, as milhares de “Marianas”, do Zumbo ao Índico, do norte ao sul do país, que nunca desistem dos seus sonhos, mesmo depois de golpeadas pelas circunstâncias adversas da vida.

O inesperado encontro com a dança 
Completamente diferente de muitos artistas que ainda em tenra idade tiveram contacto com a arte de que vivem não foi o que se passou com Mariana. O primeiro encontro com a dança contemporânea chegou-lhe já quando maior. Na verdade, não foi ela que escolheu a dança, foi a dança que a escolheu.

Mariana sofreu um trágico acidente aos oito anos de idade, quando brincava na rua de sua casa com outras crianças. Foi atropelada por um camião militar, tendo os seus membros inferiores sido amputados devido à gravidade das lesões que sofreu. Apesar disso, sua infância não foi tão difícil como à primeira vista se pode imaginar. "Mesmo depois de eu ter sofrido o acidente, a minha infância foi supertranquila e muito divertida, ao lado de pessoas que sempre me apoiaram, a minha família. Sempre tive amor e carinho dos meus pais e irmãos". Quanto à dança, foi um mero acaso, uma obra do destino. “Nunca nos meus sonhos quis tornar-me uma bailarina de dança contemporânea profissional. Eu entrei tarde na dança, em 2006, a convite de uma amiga, até então desconhecida, que me falou de um projecto de inclusão de dança para pessoas com deficiência”, contou, sublinhando que não tinha sido um amor à primeira vista. “Não me interessei muito a princípio. Mas ela insistiu que deveria ir assistir aos ensaios e, caso gostasse, poderia ficar, caso não, deveria seguir a minha vida”. Depois de alguns dias a matutar no assunto, Mariana decidiu aprender dança e aprendeu igualmente a superar os seus limites.
Tinha 18 anos, o que significava que já era responsável pelos seus actos, que incluíam decidir “namorar” ou não com o que acabou redefinindo a sua vida por completo. “Apesar de não me ter empolgado com a dança no primeiro contacto efectivo que tive, eu não parava de ir assistir a pessoas com limitações de mobilidade como eu a dançarem”. E porque as coisas mais valiosas da vida levam seu tempo... "À medida que eu ia assistindo aos ensaios, acabei me apaixonando e acabei gostando. Hoje não posso respirar sem a dança”, confessou. Fez-se difícil, mas a união já estava escrita. Mariana seria uma bailarina profissional sem membros inferiores.

O projecto de inclusão de pessoas com deficiência e sem deficiência na área cultural que redefiniu a vida de Mariana era dirigido por Panaibra Gabriel Canda, coreógrafo e director artístico moçambicano fundador da companhia CulturArte. “Quando se fala de dança, as pessoas pensam logo nas pernas. Mas a dança não são só as pernas, não são só os braços, as costas, a cabeça. A dança é o corpo, o corpo por inteiro”, esclareceu Mariana. “Eu não me considero um milagre por dançar sem pernas. Isso é resultado de um desafio muito grande que encarei com todas as minhas forças. Foram anos de formação, dedicação e muito sacrifício para quebrar limitações. Eu quis fazer isso, doendo ou não, eu quis quebrar tabus”. Diz que os braços se tornaram suas pernas, que já não sabe o que é a sensação de ter as pernas.  “Eu não sinto falta das pernas porque eu aprendi a fazer tudo com os meus braços. Os meus braços são as minhas pernas. Os meus braços fazem mais coisas que as pernas. Quando danço, as pessoas nem sentem falta das minhas pernas. As pessoas vêem ali uma criatura perfeita tal como é a dançar”, disse a nossa bailarina que evolui em terras lusas.

A estreia (tardia) nos palcos
Mariana formou-se em dança contemporânea adaptada a pessoas com deficiência entre 2006 - 2008 e estreou-se no palco, com público, há uma década e meia, mais precisamente há 16 anos. Tinha 18 anos.

“Depois da minha primeira apresentação em palco, nunca mais parei. Na verdade, foi nessa actuação que, quando terminámos o espectáculo, eu senti aquela gente toda a aplaudir e fiquei espantada, de queixo caído, e disse a mim mesma que era isso que queria fazer na minha vida. Quero fazer as pessoas levantarem-se e ovacionarem-me”, revelou. “Naquela altura eu decidi, era aquilo que pretendia fazer. Não queria fazer algo que as pessoas ficassem a lamentar. Eu não quero que as pessoas olhem para mim e sintam pena de mim. É o que geralmente as pessoas fazem quando vêem uma pessoa com deficiência rua. Lamentam ou falam mal, cochicham nas costas. Falam mal porque infelizmente há muitas pessoas com deficiência na rua a passar necessidades, a pedir esmola”, lamentou. “Sempre olhei para a mendicidade como algo terrível que pode acontecer na vida de um ser humano e prometi a mim mesma que não ia permitir que a vida me puxasse para a rua para viver de mão estendida”.

Era preciso travar uma luta para ter algo diferente, que veio do inesperado ou imprevisível para a sua condição física. Chama-o de milagre da vida. “Quando descobri a dança, eu disse: esta é a minha paixão, eu quero fazer isto, eu quero viver disto. A dança para mim representa... Eu não sei como explicar, não sei que palavras usar, mas a dança é como se fosse...” – assim mostrou Mariana a dificuldade que tem em descrever com palavras o sentimento que tem pela dança. “Quando eu danço, sinto-me livre, sinto que estou num momento mágico, momento esse que nunca se repete e, quando eu estou a dançar no palco, não sou a Mariana que todos conhecem, sou mais um corpo para partilhar com o mundo as experiências da vida, as reflexões, os pensamentos, os sentimentos. Aquele é um momento único e não tenho limites. É o único momento em que me sinto num lugar incomum, inacessível, a que eu consegui chegar, e é uma sensação incrível”, frisou. “Uma das coisas que me motiva a continuar a dançar é que, depois de todas as minhas apresentações, vejo pessoas a chorarem de emoção. Com a dança consigo tocar o coração, a alma das pessoas. As pessoas olham para mim e acreditam que a vida não parou por ali. É essa magia que me motiva e faz com que me levante todos os dias.”

Mariana, que se orgulha de iluminar a vida das pessoas, pretende dançar até não poder mais, e à dança quer juntar o curso de Psicologia Educacional focada nas pessoas com necessidades educativas especiais, partilha-nos, assim revelando o seu lado mais sensível e humanista. "Fui forçada a interromper o curso ainda em Moçambique, por dificuldades financeiras. Na verdade, isso sempre me comoveu. Quero saber como comunicar com essas pessoas, como lidar com elas, como perceber as suas preocupações, os seus pensamentos. Afinal de contas, elas são como nós, têm sentimentos, têm sonhos."