No passado mês de Maio, a vibrante cidade de Maputo foi palco da esperada 10ª Edição do Festival AZGO, considerado por muitos como a manifestação mais completa e diversificada das artes em Moçambique. Depois de um interregno de três anos, o festival regressou com uma dinâmica refrescante e um programa abrangente que decorreu de 19 a 21 de Maio. A noite inaugural deu-se no prestigiado Centro Cultural Franco-Moçambicano, enchendo de expectativa e ansiedade o ar da capital moçambicana. O segundo dia marcou presença no Campus Principal da UEM, onde artistas, gestores, produtores e, claro, o público apaixonado pela cultura e música se juntaram para celebrar o regresso do AZGO. Finalmente, no terceiro dia, foi realizado o encerramento do festival no campinho da Mafalala, numa colaboração entre a Khuzula e a Associação IVERCA. Com nomes consagrados como Stewart Sukuma, Mark Exodus, Elvira Viegas, Eduardo Paim, Helio Beatz, Radjha Ally, entre tantos outros, a 10ª Edição do Festival AZGO prometeu – e entregou – um ressurgimento triunfal da música e da cultura moçambicanas. Sobre esta edição falou-nos Paulo Chibanga, fundador do festival.
Para iniciar, poderias partilhar algo da trajectória do Azgo e da forma como o festival evoluiu nestas últimas dez edições?
Para começar, gostaríamos de expressar o nosso agradecimento por esta oportunidade de estarmos presentes numa publicação de renome, que tem sido uma referência na história da cultura e criatividade nacional e que carrega uma designação que não só expõe, como nos transporta ao universo do belo!
Respondendo à vossa pergunta, o Festival Azgo tem-se afirmado como a principal plataforma de exposição das artes em toda a sua diversidade, contribuindo activamente para o crescimento artístico e cultural ao incitar uma maior consciência relativamente a questões culturais em Moçambique e na África Austral. O festival congrega públicos distintos e variados artistas emergentes e já consolidados de diversos géneros, fomentando o património cultural moçambicano e a vida artística ao posicionar Moçambique como um destino incontornável para os apreciadores das artes e, particularmente, da música. Ao longo destes 10 anos, o festival gerou múltiplas oportunidades de profissionalização na indústria da música, promoveu o envolvimento das comunidades locais e gerou emprego, associado à criação de uma plataforma destinada a incentivar intercâmbios musicais entre artistas locais e internacionais, estabelecendo uma rede de eventos musicais e iniciativas na África Austral, no continente africano e além-continente. Em termos estatísticos, o festival mobiliza anualmente cerca de 13.500 pessoas, incluindo participantes e equipa de trabalho.
No que se refere ao cartaz deste ano, quais foram os destaques e como decorreu a selecção dos artistas que participaram?
Cada festival é um festival único! Todos os anos reunimos uma equipa de curadoria que nos auxilia na definição do conceito, na escolha do line-up, na determinação das actividades pré e pós-festival e nos eventos paralelos aos principais três dias do festival. Para exemplificar, quando fomos forçados a cancelar o festival devido à pandemia, já tínhamos um conceito desenvolvido para ele. Contudo, ao retornarmos, decidimos criar um contexto actualizado, que respondesse às necessidades actuais. Os destaques incluíram a promoção e internacionalização dos artistas nacionais e a criação de um festival muito intimista – com uma atmosfera mais familiar – e com uma perspectiva futurista que contempla a moda, a gastronomia e o lifestyle.
Qual o papel desempenhado pelo Azgo na promoção da cultura e do turismo no país?
Como mencionei anteriormente, o Azgo é um autêntico aglutinador de artes e, já que o turismo também pode ser considerado uma arte, o Azgo é a principal plataforma nacional e de referência na promoção e internacionalização das criações artísticas nacionais, fomentando o melhor ambiente para intercâmbios com artistas internacionais.
Considerando que esta é a primeira edição após a pandemia, quais foram os principais desafios na organização do evento?
Na realidade, o regresso é sempre um desafio! Conseguir reiniciar toda a maquinaria que esteve activa para a realização da 10ª edição foi tarefa relativamente simples, uma vez que contamos com uma equipa que conhece muito bem a sua função dentro do festival. O verdadeiro desafio, segundo o nosso entendimento, foi captar a atenção de todos. Foi assim que surgiu o seguimento Azgo Profuturo e Afro Futurístico. Este conceito, desenhado com a perspectiva de alavancar ainda mais a moçambicanidade, destacou-se particularmente pela identidade visual desta edição, assinada pelo artista plástico Psiconautah.
O tema deste ano foi o "Afro Futurismo". Poderias explicar um pouco o significado deste tema e como se reflectiu no festival?
Na verdade, o termo Afro Futurismo tornou-se bastante popular. Contudo, o lema desta 10ª edição é Diversidade Cultural e Paz. Este lema foi escolhido com o intuito de exaltar um dos pilares fundamentais do Azgo, que é a união de várias culturas num mesmo espaço, em ambiente de convívio e de harmonia. Estes valores são difundidos pelo festival através de uma programação que inclui iniciativas de solidariedade, fóruns de debate de ideias e de convergência das diferenças entre os intervenientes, programas de colaborações, promoção e divulgação dos artistas e das suas obras e a valorização da cidade de Maputo como um território cosmopolita. Sobretudo, o propósito é posicionar o Festival Azgo como um símbolo artístico e turístico da Cidade das Acácias.
Houve algum momento particularmente marcante nesta edição que gostarias de partilhar?
Todo o festival foi marcante! Vejamos, tivemos o anúncio do regresso do festival, o primeiro post nas redes sociais, que deixou todos em suspense sobre o movimento. Na segunda fase, começámos a anunciar os artistas, a realização do primeiro flashmob na cidade de Maputo e a realização do festival no CCFM, na UEM e na Mafalala. Destaca-se ainda, no principal dia, a celebração da diversidade cultural e paz através da exaltação do lifestyle, que mereceu um prémio de 50 mil meticais, atribuído a Valter Mudanisse.
Como foi a reacção do público e dos patrocinadores?
Até ao momento, nós, enquanto equipa, estamos extremamente satisfeitos com o nível de contentamento que colhemos diariamente por parte do público, que se sente particularmente agraciado pelo regresso do Azgo, e com especial enfoque nas inovações que o festival trouxe, na limpeza no festival, na feira de gastronomia, no sistema de gestão financeira, na iniciativa inclusiva que proporcionou aos deficientes físicos a possibilidade de acompanharem as principais actuações sem nenhuma restrição, e no seguimento Afro Futurístico, que introduziu um conceito bastante inovador na cultura e, particularmente, na moda.
O que podemos antecipar para o futuro, em particular nas próximas edições?
O nosso objectivo anual é sempre apresentar novidades para superar e manter as inovações já introduzidas nas edições anteriores.
