Passos munidos de liberdade ao ritmo contagiante do tambor anunciam, em meio a cânticos de combate, uma dança carregada de significados para o povo moçambicano. O Xigubo é uma das maiores formas de expressão cultural do país, uma dança tradicional moçambicana que representa a resistência colonial sobretudo na região sul. Maioritariamente praticada no interior das províncias de Gaza e Maputo, a dança pode também ser encontrada em outros países vizinhos, como a África do Sul e eSwatini (Suazilândia até 2018).
O Xigubo é uma dança tradicional moçambicana que representa a resistência à penetração colonial
“O Xigubo é uma dança guerreira. Era uma forma de resistência contra a ocupação colonial. Os nossos antepassados não tinham as armas convencionais que temos hoje. Usavam lanças e escudos para se defender, por isso durante a execução da dança é possível notarem-se alguns desses elementos”, afirmou Alex Coana, bailarino e professor da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD). Acredita-se que o nome da dança esteja associado a um dos principais instrumentos usados para a sua execução, o tambor. Com efeito, o principal tambor desta prática cultural chama-se xigubo, nome que, de acordo com algumas fontes orais e escritas, está vinculado ao som intenso e abrangente (de longo alcance) que é capaz de produzir ao ser executado individual ou colectivamente, som esse representado pela expressão onomatopaica gubu-gubu-gubu.
O Xigubo é o falar da dança para a liberdade, o poder da cultura em favor da paz. Durante a sua vida, o poeta José Craveirinha mostrou a sua admiração por esta dança guerreira. Exemplo claro é a sua primeira obra publicada, intitulada “Xigubo”. O poeta definiu a dança como sendo “uma prática cultural e tradicional que simboliza a resistência colonial do país, sobretudo na região sul de Moçambique”, tendo servido “de preparação ou chamamento para a guerra de defesa ou de ataque”.
Passos de combate em tempos de liberdade
O Xigubo era dançado para festejar as vitórias militares e também como forma de preparar os guerreiros, física e militarmente, daí que fosse, na altura, exclusivamente praticada por homens. Consiste no alinhamento em uma ou duas filas de um determinado número de homens (dançarinos), devidamente adornados com objectos de fibras, sementes e peles, ao pescoço, nos braços e nas pernas. Trazem saiotes confeccionados com pele de animais, fazendo-se acompanhar de um instrumento de defesa denominado xitlhango ou azagaia. “Os dançarinos do Xigubo vestem-se como os nossos antepassados. No grupo de dançarinos existe um líder que dá comando, a última palavra, o grito de avanço. Há um momento na coreografia em que dois dançarinos ficam frente a frente. Através de uma coreografia própria, os dois se enfrentam e simulam, através da dança, uma luta”, explicou Alex Coana, professor.
Em relação aos instrumentos usados para a produção do som, para além do referido xigubo, dois outros tambores ajudam a dar vida a esta dança guerreira: o Ngoma e Ngulula, cada um produzindo um som específico. Enquanto os tambores são tocados, são entoados cânticos exaltando a força e a coragem dos dançarinos. “Quando os dançarinos executam a dança não sorriem. É uma dança que não se faz com alegria, porque se trata de combate e preparação para a guerra. Os soldados não sorriem”, acresceu o professor.
Actualmente esta dança tem sido executada em diversas ocasiões da vida dos moçambicanos e não se restringe aos homens. Novos passos são introduzidos, unindo o moderno ao tradicional, o que torna a dança ainda mais bela. “Passados anos, o Xigubo continua a ter o seu lugar reservado na cultura moçambicana. Os acréscimos que são feitos ajudam a dar-lhe cada vez mais vida. Como professor e amante da dança, fico bastante feliz porque sinto esta necessidade de se manter vivo o Xigubo, que muito representa para a cultura moçambicana”, concluiu Alex Coana.
