Em muitas comunidades moçambicanas, ouvir o canto de uma coruja durante a noite continua a causar inquietação. Há quem associe a sua presença a mau-olhado, presságios sombrios ou histórias antigas passadas de geração em geração. O mistério do voo silencioso, os grandes olhos atentos e os hábitos nocturnos ajudaram a construir essa aura de superstição. Mas a verdade é bem diferente.
As corujas são aliadas discretas do equilíbrio natural. Alimentam-se sobretudo de ratos, insectos e pequenos répteis, ajudando a controlar pragas agrícolas e a proteger colheitas, especialmente em zonas rurais. Uma única coruja pode consumir dezenas de roedores numa só noite, um contributo silencioso, mas essencial para a vida humana.
Moçambique acolhe várias espécies de corujas, adaptadas a diferentes habitats, das savanas abertas às florestas, passando por áreas agrícolas e até zonas periurbanas. Entre elas destaca-se a imponente coruja-de-Verreaux, uma das maiores de África, e a coruja-das-torres, frequentemente avistada perto de campos cultivados. A sua presença é, muitas vezes, sinal de um ecossistema saudável.
Curiosamente, em várias culturas africanas, as corujas também simbolizam sabedoria e protecção espiritual. São aves extremamente inteligentes, com uma audição apuradíssima e uma capacidade rara de rodar a cabeça quase por completo, sem mover o corpo. O voo quase invisível, sem ruído, é resultado de penas especiais, uma verdadeira obra-prima da natureza.
Hoje, especialistas em conservação alertam para as ameaças que estas aves enfrentam, desde a destruição do habitat ao envenenamento indirecto causado por pesticidas. O medo e a desinformação levam, por vezes, à perseguição injustificada de uma espécie que só traz benefícios.
Talvez esteja na altura de mudar o olhar. Da próxima vez que ouvir uma coruja na noite moçambicana, lembre-se, não é um sinal de azar, é a natureza a trabalhar em silêncio. Proteger as corujas é proteger o equilíbrio do nosso ambiente e, no fundo, proteger também a nossa própria vida.
