No norte de Moçambique, no distrito de Alto Molocué, na província da Zambézia, ergue-se o Monte Lico, uma montanha singular que, durante séculos, permaneceu praticamente inacessível. Vista de longe, não parece muito diferente de outras elevações isoladas da região, mas esconde um segredo extraordinário. Com cerca de 1.100 metros de altitude, destaca-se pelas suas paredes de rocha abruptas, que se elevam até cerca de 700 metros acima da paisagem envolvente, formando uma verdadeira fortaleza natural que praticamente impediu a presença humana ao longo do tempo.
No topo desta montanha encontra-se algo ainda mais surpreendente: uma pequena floresta tropical primária, isolada dentro de uma depressão natural semelhante a uma cratera. Esta floresta ocupa apenas cerca de 30 hectares, mas manteve-se protegida durante séculos graças às falésias que rodeiam o monte. Durante muito tempo, acreditou-se que ninguém alguma vez tinha conseguido penetrar naquele espaço. Foi apenas em 2012 que o biólogo Julian Bayliss, da Universidade Oxford Brookes, identificou o Monte Lico através de imagens do Google Earth e percebeu que aquele topo poderia esconder um ecossistema completamente intacto.
Seis anos mais tarde, em Maio de 2018, uma expedição científica conseguiu finalmente escalar as paredes do monte e alcançar a floresta isolada. O que encontraram ali surpreendeu os investigadores. A vegetação revelava sinais de grande antiguidade e de um equilíbrio ecológico raro, possivelmente preservado durante milhares, ou até milhões, de anos. O solo da floresta revelou uma profundidade invulgar, um indício de que aquele ecossistema poderá ser muito mais antigo do que se imaginava.
Entre as árvores e a vegetação densa começaram também a surgir criaturas inesperadas. Foram registadas espécies raras de borboletas, anfíbios, répteis e pequenos mamíferos, algumas possivelmente novas para a ciência. Um dos achados mais curiosos foi um anfíbio subterrâneo semelhante a uma cobra, conhecido como cecília, encontrado perto do acampamento dos investigadores. Também foram observados pequenos camaleões, sapos de expressão quase rabugenta e uma impressionante diversidade de insectos.
Curiosamente, apesar de se pensar que aquele topo nunca tinha sido visitado, os cientistas encontraram vasos de cerâmica junto à nascente de um pequeno riacho. Ninguém sabe exactamente quem os deixou ali nem quando. Talvez tenham sido colocados por alguém que, há muito tempo, conseguiu chegar àquele lugar isolado.
O certo é que, enquanto muitos recantos do planeta já foram explorados ao detalhe, no topo desta montanha moçambicana continua a existir uma pequena floresta quase secreta. Um pedaço de natureza suspenso no tempo, onde cada passo ainda pode revelar uma espécie desconhecida, ou uma história antiga escondida entre as árvores.
