Da vida nas ruas da capital moçambicana (então Lourenço Marques), em meados da década de 60, às celas de uma prisão do regime colonial português, antes de conhecer o internato onde se formou homem e se veio a fazer um músico que, através da sua arte, conheceu meio mundo. Assim se descreve o inconfundível Chico António, que, antes de tudo isso, foi pastor de gado. Tem 64 anos, mais de metade dos quais dedicados à música.
Parece ficção, mas não é. São capítulos dramáticos de uma narrativa real vivida pelo moçambicano Chico António, que falou à Xonguila sobre o seu reconhecido percurso artístico, abordando igualmente o próximo projecto musical em manga com a banda austríaca The Next.
A vida de Chico António começa com um incidente incitante, como nos filmes. Com seis anos de idade, o menino que era pastor de gado decidiu fugir de casa, sem nenhum destino, com medo de encarrar o pai, porque perdera metade da manada (20 ovelhas e cabritos) por que era responsável. Este evento traumático na vida do compositor e intérprete natural de Magude, na província de Maputo, e autor de canções populares nas décadas 80 e 90, data de 1964. Chico viveu dois anos na rua antes de ser recolhido às celas pela polícia colonial. No mesmo ano, foi levado para um orfanato em Chihango e, mais tarde, entregue à adopção, devido à sua rebeldia. Os seus pais adoptivos, um casal de portugueses, mandaram-no para um internato religioso, São José de Lhanguene, onde fez o ensino primário e secundário. Formou-se em Química, na Escola Industrial de Maputo. Em paralelo, aprendeu a arte da qual hoje vive, a música. Frequentou aulas de trompete, aprendeu a ler a pauta e solfejo. Aos nove anos, já era corista, num coro de 70 pessoas, na Missão São José, onde se fez homem e artista. Em 1978 integra a banda ABC 78, a convite do também músico Costa Neto.
Trabalhar com o Chico é sempre um grande prazer. Ele é uma pessoa humilde, um profissional exemplar e um compositor muito bem estruturado. Trabalha muito bem em estúdio, tem uma visão interessante e, em palco, é impressionante a forma como ele improvisa. Faz parecer fácil.– Roland Pick Mudungaze, da banda The Next
Chico António cresceu numa atmosfera artística, rodeado dos melhores artistas do país. Andou de grupo em grupo, sempre como trompetista, até se juntar ao Grupo RM, em 1983, com grandes referências da música ligeira moçambicana, como Wazimbo, Sox, José Guimarães, Mingas, Alípio Cruz, Zeca Tcheco, Alexandre Langa, Zevo, entre outros. O grupo fora criado para apoiar músicos nacionais de reconhecido valor e alimentar as emissões de música moçambicana na Rádio Moçambique. Em 1992, Chico decide seguir carreira a solo.
A ligação com as raízes
Igual a si mesmo! A autenticidade de Chico António não está só na destacada aparência do seu cabelo cor de prata ou na sua simplicidade. Está exactamente no que ele melhor faz, a música, fortemente influenciada pela realidade social e cultural moçambicana. "Procuro sempre explorar ritmos tradicionais nacionais, de que o país é rico, para ser autêntico nas minhas composições. Não sou muito fã de música ou instrumentos computorizados ou digitalizados, pois falta-lhes o feeling, que só um músico é capaz de dar", justificou o compositor e intérprete, dono de sucessos como "Mercandonga", "Negra macua", Cachangage" e "Hantlissa Maria". "Os ritmos nacionais são vastos e é praticamente impossível fazer fusão de todos. Mas procuro explorar, sempre que possível, um pouco de tudo o que há nas regiões de todo o país. Entretanto, a minha vibe é mapiko, ngalanga, nganda, tufo e chigubo”, completou o artista.
Em 1990, Chico vence o prémio do concurso Descobertas, da Rádio França Internacional (RFI), com a música "Baila Maria", interpretada em dueto com Mingas, quando ainda integrava o Grupo RM. "O Grupo RM foi uma verdadeira academia. Foram dez anos de muito aprendizado. Tive a sorte de trabalhar rodeado de grandes músicos do país. Isso foi determinante para o meu crescimento artístico. Vivi, no Grupo, os meus melhores anos da [minha] carreira", frisou. "Baila Maria" destacou-se das demais três mil músicas concorrentes avaliadas pelo júri. Em consequência do prémio, Chico foi para a capital francesa (Paris), estudar música, e especializou-se em técnicas de base de piano, arranjos musicais, composição e gravação musical. "Durante a minha formação em Paris, o meu tutor Manu Dibango aconselhou-me a concluir os estudos e regressar para Moçambique, para pesquisar os ritmos tradicionais e incentivar outros artistas nacionais a primar pelas raízes. Isso ajudou-me a construir o meu tom artístico, que se foi consolidando com as experiências que bebi de respeitados artistas do continente e não só", argumentou.
Em França, conviveu e dividiu o palco em festivais de música com personalidades como Miriam Makeba, Salif Keita, Hugh Masekela, Youssou N'Dour, Peter Gabriel, Mori Kanté, Pierre Bianchi, entre outros. Em 1991, Chico António grava o seu primeiro disco a solo e o segundo, intitulado 'Memórias', editado em 2014. O primeiro ('Cineta', de 1991) gravou em Paris, com o Grupo RM, no âmbito do prémio do concurso Descobertas, que além da bolsa de estudos incluía a gravação de um disco. Com a sua música, o ex-menino de rua conheceu meio mundo. Rússia, Jugoslávia, RDA, Roménia, Hungria, Bulgária, Holanda, Itália, Inglaterra, França, Finlândia, Noruega e Suécia são alguns países europeus e ocidentais onde já levou ao palco a cultura moçambicana. Em Africa, já viajou para Angola, Zimbabué, África do Sul, Cabo Verde, Mali, entre outros países.
The Next... o próximo, não o último passo
``Chico António e os The Next´´ é o projecto musical no qual trabalha o artista actualmente. Iniciado há dois anos, este projecto conjunto do músico e esse grupo musical austríaco está a ser executado na província de Inhambane, no Studio Bom Dia, sob a direcção e co-produção de Roland Pickl, um austríaco radicado em Moçambique também integrante da banda.
Seguem-se os principais nomes do projecto: Chico António (Vocalista, guitarra e flauta), Kurt Toncar (baixo), Bernd BB Kong Bogensberger (Bateria), Roland Pickl Mudungaze (Guitarra), Pierre Dufloo (Saxofone), Mahu Mucamisa (Saxofone tenor), Mario Avasani (Trompete), Nobina Morimoto (Violino), Pietro Barone (Guitarra), Mark Mulholland (Guitarra) e Nico M'Sagarra (percussão). "A ideia do Chico e dos The Next é juntar diferentes estilos de música e experiências de diferentes artistas nacionais e estrangeiros para produzir um duplo álbum composto por músicas inéditas do Chico e da banda", explica o CEO do Studio Bom Dia, na província de Inhambane, e produtor responsável do projecto, iniciado em 2020. Durante o confinamento, por conta da covid-19, Chico gravou 20 músicas inéditas (com algumas recriações) com participação de artistas locais e músicos estrangeiros com quem mantém contacto e consultas profissionais.
Em termos de género, pode-se encontrar a sua marca, mas há também influências da banda. "As composições do Chico são uma fusão de vários ritmos. Têm elementos de música africana, com mbira, flauta, kora (instrumento do Mali), timbila daqui de Moçambique; outros elementos são o violino, guitarras, blues, o jazz, guitarras saturadas, guitarras de rock, que também é uma paixão do Chico e a minha também", disse Roland, o produtor executivo responsável do projecto, sem data ainda para publicação.
"A pressa é inimiga da perfeição. Este é um projecto que envolve muitos músicos, e isso demanda muito tempo em estúdio. Além disso, gravar música ao vivo é caro. São muitos profissionais envolvidos, cada um com sua especialidade, disse Chico. "Nenhuma música do projecto foi publicada porque precisamos de mais tempo para elaborar as últimas misturas. Isso leva três a quatro semanas. De momento, estamos à procura de parcerias para financiar o trabalho discográfico", salientou Roland, rasgando depois elogios a Chico, colega de profissão e amigo de longa data. "Trabalhar com o Chico é sempre um grande prazer. Ele é uma pessoa humilde, um profissional exemplar e um compositor muito bem estruturado. Trabalha muito bem em estúdio, tem uma visão interessante e, em palco, é impressionante a forma como ele improvisa. Faz parecer fácil", assim reconheceu Roland - o primeiro da banda a vê-lo actuar – o seu enorme talento.
Enquanto não se editam as músicas, Chico e a banda The Next estiveram em concerto no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em finais de Maio, apresentando aos fãs a síntese do projecto, que culminará com o duplo álbum de 20 músicas interpretadas por Chico António.
A banda The Next foi fundada em 1998, e, no mesmo ano, lançou o seu primeiro álbum, intitulado Unreal (‘Irreal’), que se pode ouvir em plataformas digitais tais como Spotify, Amazon e Beatcamp, ou através do site www.studiobomdia.com. Em 2004, a banda conheceu um momento de interregno, os integrantes separaram-se e foram viver em outros estados, mantendo-se, porém, sempre em contacto e dedicados à música, segundo o produtor radicado em Moçambique. A banda voltou a reunir-se e a fazer novas músicas em 2009, em Moçambique. Em 2021, lançou o segundo álbum, Antagônica, que pretende promover, através do trabalho colaborativo com Chico António, que também vai editar o seu segundo trabalho discográfico, sucedendo o Memórias, editado em 2014. "O projecto com a banda The Next de certeza que não será o derradeiro projecto da minha carreira artística. Enquanto houver saúde, vou continuar a fazer música, a minha vida. Sou um artista de projectos e sempre aberto a novas colaborações", disse o músico, que também integra o grupo Trânsito, com Chude Mondlane, Edmundo e Nico Sandala.
