Traços de um passado compartilhado: Moçambique em destaque em Berlim
No passado dia 1 de Março, Berlim testemunhou a inauguração de uma exposição impactante no Haus der Kulturen der Welt (HKW). Intitulada "Ecos dos Países Irmãos" (Echos der Bruderländer), esta mostra perdurou até 20 de Maio de 2024, mergulhando profundamente nas complexas tramas de solidariedades e contradições transnacionais que marcaram as relações entre a antiga RDA e países ideologicamente alinhados durante o período de 1949 a 1990.
Patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian – Delegação em França, a exposição foi mais do que uma simples retrospectiva histórica; tratou-se de um ambicioso projecto de investigação que questionou "Qual é o preço da memória e qual é o custo da amnésia?" através de um programa diversificado que incluiu obras visuais, performances e instalações.
O legado das solidariedades anti-imperialistas
Durante décadas, milhares de pessoas migraram para a RDA idas de nações como Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, entre outras, onde floresceram laços políticos, económicos e culturais. Através da arte e do diálogo, a exposição explorou momentos de genuína solidariedade e apoio às lutas anticoloniais e anti-imperialistas, mas também adversidades que surgiram no processo, proporcionando uma plataforma para se reavaliarem e celebrarem estas complexas interacções.
Moçambique em destaque
A presença moçambicana na exposição foi notavelmente significativa, destacando-se artistas como Dito Tembe e Eurídice Zaituna Kala. Tembe, através da sua série "Madgermanes", composta por oito reproduções de pinturas a óleo, trouxe à tona as experiências dos trabalhadores moçambicanos na RDA, enquanto Kala, com a sua instalação de vídeo "Rendition — A moment in between 33 years of protest" e a performance "Ritual as a March as Protest", em colaboração com Pak Ndjamena, questionou as narrativas oficiais e os espaços entre a memória e o esquecimento.
Maimuna Adam, por sua vez, apresentou "Writing (a future with the remnants of the past)", uma instalação que desafiava os visitantes a reconsiderar o que é lembrado e o que é deixado para trás na escrita da história.
Reflexões e repercussões
Ao longo de quase três meses, "Ecos dos Países Irmãos" não só recordou as histórias muitas vezes esquecidas dos migrantes na RDA, mas também provocou uma reflexão mais ampla sobre como essas experiências moldaram – e continuam a moldar – os antigos países irmãos. Este projecto multidisciplinar foi uma meditação sobre os custos da amnésia e o valor da memória, oferecendo uma visão crítica sobre como as histórias interligadas têm influenciado as relações internacionais e as identidades culturais até hoje.
Através de um mosaico de vozes e visões, a Haus der Kulturen der Welt e a Fundação Calouste Gulbenkian proporcionaram um espaço para memória, diálogo e compreensão mútua, sublinhando a importância de olhar para o passado para construir um futuro mais inclusivo e compreensivo.
