Os seus lindos olhos castanhos são como uma vitrine da alma, expõem a beleza de uma mulher-menina, ao mesmo que desmistificam a génese da sua arte. Os primeiros segundos de conversa são significativos para perceber o poder e a magia do olhar de Thandi Pinto. Quer pelas suas lentes fotográficas, quer pela observação “natural” das histórias de vida que se cruzam nas suas experiências diárias, esta jovem artista comunica-se com e para o mundo de forma bastante expressiva, tal como o seu olhar. Thandy Lúcia Pinto, ou simplesmente Thandi Pinto, como é conhecida no universo artístico, é uma jovem artista em ascensão que utiliza fotografias em impressionantes obras obtidas por meio da colagem. O DNA da arte fez sempre moradia nela. Às vezes um pouco adormecido e outras vezes mais vivamente, mas sempre mostrando que Thandi nasceu para a arte. “Acho que sou artista desde que nasci. A minha mãe, para além de ser artista plástica, faz muitas outras coisas que têm ligação com a arte. Ela já fez decoração de interiores e moda. Os irmãos da minha mãe também são artistas plásticos, e as minhas irmãs são todas artistas”, explicou. Apesar de viver rodeada de artistas, Thandi precisou de tempo para se encontrar nesse mundo. “As minhas três irmãs estavam ligadas à arte. Eu era única na família que não me enquadrava no desenho, na pintura, no entanto, sempre fazia pequenas coisas: ornamentava as festas de família, por exemplo, e fazia brincos artesanais. Era um pouco frustrante de certa forma, porque eu também queria ser artista, como todos os outros”. A mãe procurou ajudá-la a marcar um encontro com a música, na esperança de ser a modalidade que nela iria brotar. No início da adolescência, matriculou-a na escola de música. No entanto, Thandi acabou por desistir. “Eu até gostava de fazer música, mas não gostava de seguir as regras musicais, seguir a escala. Gosto mais de coisas intuitivas. Acabei desistindo da música.”

“Me inspiro nos meus sonhos. Desde muito pequena, gosto do surrealismo, cenários improváveis, cenários que não existem, mas que são muito prováveis de acontecer. Misturo o que vejo nos meus sonhos com o dia-a-dia” 

A arte de criar narrativas através da colagem 
Ainda no processo de um encontro com o seu eu artístico, Thandi Pinto participou, em 2017, de uma caminhada na cidade de Maputo com um grupo de fotografia denominado “VêSó”, a convite de Neide Tsenane. Esta experiência atiçou o seu amor pela fotografia. “Caminhámos pela Estação de Caminhos de Ferro. Na altura, eu sequer tinha uma máquina fotográfica. Estava a usar o tablet do meu sobrinho. Fizemos as fotos, e gostei muito. Incentivaram-me a comprar uma máquina fotográfica.” 
Dois anos mais tarde, a jovem artista comprou uma máquina fotográfica e começou a colocar a fotografia num lugar mais especial na sua vida. Fez um curso orientado pelo fotógrafo moçambicano Mário Macilau, mas depressa achou que a fotografia, por si só, não conseguia contar as histórias que a sua mente artística queria transmitir. Curiosa, Thandi sempre se preocupou por compreender o trabalho desenvolvido por uma das suas irmãs, desenhadora gráfica profissional. Quando a sua irmã se afastava do computador, Thandi procurava entender melhor o Photoshop e, aos poucos, aprendeu a usar o programa. Num belo dia, enquanto passeava pelas suas redes sociais, Thandi viu uma colagem no Instagram e ficou fascinada. “Quando vi aquilo, notei que tinha cara de Photoshop. Então recorri ao programa para fazer algo semelhante.  E assim fiz a minha primeira colagem, mas não saiu muito bem. Depois tentei mais algumas vezes com fotografias que tirava na internet e vi que tinha uma boa recepção do público nas redes sociais. Mas eu sentia que havia muita gente a fazer aquilo e não achava que fosse extraordinário”.

Em 2020, com a pandemia a dominar o país e o mundo, Thandi passou a sair mais para fotografar, era como uma terapia. A sua participação no Workshop “DemocraSEE”, organizado pela plataforma sul-africana “Phototool” naquele ano, fê-la ter mais confiança relativamente ao seu trabalho fotográfico, e incentivou-a a usar as suas próprias fotos nas colagens, ao invés de fotos retiradas da internet, como fazia anteriormente, para além de lhe ter permitido a validação e reconhecimento efectivo do seu trabalho.

Formada em linguística pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, a jovem artista, de 31 anos de idade, é amante do surrealismo, e não é difícil notar nas suas obras o renegar das imagens padronizadas do real e uma construção de narrativas que ultrapassam os limites da imaginação. “Me inspiro nos meus sonhos. Desde muito pequena gosto do surrealismo, cenários improváveis, cenários que não existem, mas que são muito prováveis de acontecer. Misturo o que vejo nos meus sonhos com o dia-a-dia.” A artista viu na colagem, a melhor forma de contar histórias, unindo um conjunto de fotografias numa única imagem. “As colagens dão mais liberdade. Na colagem eu posso fazer tudo que quiser. Contar uma história completa com uma imagem. A colagem dá-me ainda mais flexibilidade de contar histórias e criar narrativas”.

Frutas, flores e cores alegres contrastam com as fotografias a preto e branco presentes no trabalho da artista. “Eu conto histórias de pessoas, e normalmente essas pessoas carregam histórias sofridas. Como gosto muito de contrastes, as cores, frutas, flores e a natureza ajudam a contrastar esta realidade triste dos personagens”.

Uma artista que já desenha a cores a sua trajetória
Apesar do curto período que regista nas artes, Thandi Pinto já dá passos consideráveis para o seu crescimento profissional. A sua primeira exposição fotográfica aconteceu em 2017 no Centro Cultural Brasil-Moçambique. De lá para cá, vários trabalhos entre individuais e colectivos têm marcado a sua carreira. Recentemente participou da exposição colectiva denominada “Visão do Paraíso” com a obra “I love Maputo”, patente no mesmo centro cultural. Thandi Pinto também tem o seu trabalho exposto na maior plataforma online relacionada as artes visuais, o Artsy, o que é para ela bastante entusiasmante. “Está a ser uma experiência muito boa. Aparentemente estou a ter boa recepção. De seis obras expostas, três foram vendidas para três coleccionadores.” A artista tem uma residência artística no Tofo, em Inhambane, no próximo mês, e vários outros projectos, entre nacionais e internacionais, que a enchem de expectativas sobre o crescimento do seu trabalho. E porque não quer ser a única a crescer no mundo artístico, Thandi Pinto tem sonhos que não se resumem somente a si. “Gostaria muito de, de alguma forma, servir de inspiração a outras artistas mulheres que não tenham coragem de mostrar o seu trabalho ou que de algum modo tenham sido silenciadas. Quero poder ajudar de forma que outras artistas tenham as mesmas oportunidades que eu de poder expor a sua arte”, concluiu.