Do bairro da Polana Caniço às passarelas internacionais, da sala de aula à mesa de reuniões, Sílvia Ernesto Linha é o exemplo vivo de como talento e disciplina podem andar de mãos dadas. Aos 26 anos, esta jovem natural de Maputo carrega uma história de coragem, versatilidade e autenticidade. Modelo desde os 12 anos, profissional de marketing, técnica de seguros, e uma das seis finalistas do prestigiado concurso Miss África 2025, Sílvia tem vindo a afirmar-se como uma voz de representação e inspiração para a juventude moçambicana. Com uma postura irrepreensível, uma inteligência marcada pela formação académica em Marketing na Universidade Eduardo Mondlane e uma presença que transcende a moda, Sílvia desafia os rótulos e revela-se como uma mulher de múltiplas dimensões.
Nesta conversa exclusiva com a Revista Xonguila, viajamos pela sua infância, o despertar para o mundo da moda, a experiência nos bastidores dos concursos de beleza e o seu percurso profissional fora dos holofotes.
Cresceste em Maputo e começaste muito cedo a mostrar interesse pela moda e comunicação. Que memórias guardas da tua infância e de como esses interesses começaram a formar-se?
A minha infância foi em Maputo. Através da minha irmã mais velha, que trabalhava na área da moda e também como protocolo, comecei a acompanhar, ocasionalmente, os seus castings. Foi assim que nasceu o meu amor pela moda, pois muitas pessoas, devido à minha fisionomia alta e magra, incentivavam-me a experimentar esta área.
Começaste a tua carreira de modelo aos 12 anos. Como foi esse primeiro contacto com o mundo da moda e quais foram os principais desafios que enfrentaste tão jovem?
O meu primeiro contacto foi no casting da Elite Model, onde, infelizmente, não fui seleccionada por não ter a altura adequada e por não ter a estrutura corporal exigida. Depois disso, optei por ser modelo para um amigo que adorava fotografia. O pai ofereceu-lhe uma câmara fotográfica e ele passou a fazer sessões de rua comigo e com uma amiga. A partir daí, comecei a ganhar visibilidade e fui sendo convidada para diferentes trabalhos, como sessões fotográficas com fotógrafos conceituados da época, campanhas publicitárias e participações em vídeos. Nesta fase inicial, realizava mais trabalhos fotográficos do que de passerelle.
No ensino superior, o que te motivou a escolher o curso de Marketing na Universidade Eduardo Mondlane e de que forma ele se cruza com a tua carreira?
À medida que fui crescendo, decidi fazer o curso de Marketing pois estimula o meu lado criativo e comunicativo, além de ser uma área bastante versátil.
O que significou para ti representar Moçambique no Miss África 2025 e alcançar o Top 6?
Representar Moçambique no Miss África foi uma experiência profundamente emocionante e enriquecedora. O que mais me surpreendeu, ao longo deste percurso, foi a minha capacidade de resolução de problemas, a força que possuía sem sequer ter plena consciência disso, e a forma como consegui gerir as actividades que tinha antes da viagem para Abuja. Durante o concurso, essa mesma força ajudou-me a permanecer determinada até ao final.
Como foi a preparação para o Miss Moçambique e, depois, para o Miss África? O que é que mais te surpreendeu ao longo desses processos?
Foi uma grande satisfação poder representar o meu país e a nossa cultura. Esperava trazer o título para Moçambique e esforcei-me bastante para isso, mas, ainda assim, sinto orgulho por ter conseguido chegar ao Top 6.
Tens uma carreira diversificada que passa pelo marketing, seguros, secretariado executivo e recursos humanos. Como consegues equilibrar tantas funções com a tua vida pessoal e a moda?
Infelizmente, a moda ainda não é devidamente valorizada em África, o que torna difícil depender exclusivamente desta profissão. Compreender esta realidade levou-me a explorar oportunidades no mercado de trabalho e a integrar uma das melhores empresas do país. Graças a Deus, essa experiência contribuiu imensamente para a minha evolução no mundo corporativo. Além disso, a empresa apoia-me ao conceder licenças para trabalhos urgentes de moda. Nos finais de semana, dedico-me a outros projectos, respondendo a mensagens e organizando agendas de actividades relacionadas com moda.
Sentes que és um modelo de inspiração para as jovens moçambicanas?Que mensagem procuras passar com a tua imagem e trajectória?
Sinto que inspiro muitas jovens através da minha persistência na moda e da minha determinação. Com a minha imagem, procuro ser o mais autêntica possível e deixar clara a minha essência enquanto pessoa.
Que importância tem para ti representar a cultura moçambicana em eventos internacionais, tanto na moda como no mundo empresarial?
Representar a cultura moçambicana, tanto na moda como no mundo empresarial, é essencial, pois torna-me um veículo para promover aquilo que temos de melhor. Infelizmente, Moçambique é, muitas vezes, esquecido, e isso entristece-me.
Houve algum momento em que pensaste desistir de tudo? Como superaste esses momentos de dúvida ou cansaço, e o que te motivou a continuar?
O primeiro momento em que pensei em desistir foi quando a produção anunciou oficialmente as participantes do Miss África 2025. Tive receio de não conseguir cumprir a missão devido a várias limitações, principalmente financeiras. Também pensei em desistir um dia antes da gala final, em Abuja, pois fiquei doente e temi não conseguir apresentar-me da melhor forma.
Sentiste que, ao longo do processo, contaste com o apoio do povo moçambicano e de instituições do país para a participação neste evento?
Recebi muito apoio do povo moçambicano, através das redes sociais, ao longo de todo o processo. Também tive o suporte da Emose SA, da Taussy Daniel, do Kamana Félix e de amigos e familiares.
O que ainda ambicionas alcançar, tanto na moda como na tua carreira profissional e académica?
Acredito num mundo cheio de possibilidades infinitas. Quero continuar a levar Moçambique ao mundo, crescer ainda mais na moda e explorar oportunidades internacionais. No futuro próximo, pretendo concluir projectos sustentáveis para apoiar crianças e mulheres, além de aprofundar os meus conhecimentos em Marketing. Quem sabe, talvez faça uma especialização em moda e autoconhecimento.
E, por fim, se tivesses de deixar uma mensagem à pequena Sílvia de 12 anos que sonhava com as passarelas, o que lhe dirias hoje?
Diria: Confia sempre em Deus, controla as emoções, mantém a calma e segue a tua intuição. Tu consegues!
