As vacinas tradicionais seculares em Moçambique

Num momento em que tanto se fala de vacinas para prevenir a covid 19, achamos oportuno trazer para esta rubrica as chamadas vacinas tradicionais em Moçambique. Não aquelas que se tomam nos hospitais e centros de saúde públicos e privados, como as que protegem contra o sarampo, o tétano, o cancro do colo do útero e outras do género, mas as que são aplicadas pelos chamados médicos tradicionais ou curandeiros. Tais vacinas são utilizadas por inúmeras pessoas, sobretudo rurais, como arma de defesa contra possíveis males ou para obter outros benefícios.

Para ministrar estas vacinas, são feitos pequenos cortes, com uma lâmina ou um pedaço de vidro, em alguma região do corpo. Quando o sangue começar a escorrer, é aplicado um remédio tradicional, em pó ou pasta, na zona do corte, para que se misture com o sangue. Normalmente feito à base de ervas, raízes ou ossos esmagados, esse remédio é utilizado para tratar algumas doenças, como a asma e enxaquecas, entre outras que possam estar a incomodar o paciente, mas também problemas psicológicos e preocupações espirituais ou materiais. Por se acreditar que o coração é o principal órgão a ser protegido contra o mal, o peito é a região mais comum para a aplicação, mas são também usadas outras partes do corpo, consoante o objectivo pretendido. Recomendam os médicos tradicionais que não se tome banho após a toma, para assegurar que o medicamento se una ao sangue devidamente.

Esta é uma antiga prática tradicional que continua a ter lugar nos dias de hoje, sendo facilmente visível no corpo de quem a ela foi submetido: cicatrizes com o formato de pequenos riscos, os famosos “onzes”, numa tradução dos termos locais para português.

Por curiosidade se diga que, nos anos oitenta do século passado, durante a guerra dos 16 anos em Moçambique, existiu na zona centro-norte um grupo constituído por milhares de pessoas que, utilizando armas tradicionais como arcos, flechas, lanças e catanas, se atribuíra a missão de ajudar a população a defender-se dos ataques armados. Eram os chamados naparamas, cuja suposta invencibilidade resultava de um ritual de vacinação do género da que aqui referimos, que os protegia contra balas.

Nas últimas décadas, as autoridades governamentais têm vindo a trabalhar com os médicos tradicionais, analisando a sua actividade e tentando aproveitar a influência que detêm para conduzir as populações no sentido de boas práticas de saúde e higiene.