O Ricardo já esteve alguma vez em Moçambique? 
Eu não estive em Moçambique ainda. Tenho família de Moçambique e já estive várias vezes para fazer essa viagem e, inclusive, será uma das próximas, porque tenho, além de família, muitos amigos que hoje moram em Moçambique. Então quero muito visitar, conhecer, porque todo o mundo fala maravilhas e eu quero muito conhecer.

Como se sente recebido pelos moçambicanos?
Eu posso falar a respeito de todos os moçambicanos que eu conheço e com quem tenho amizade. Sempre fui muito acarinhado por eles. Obviamente que, quando eu for a Moçambique pela primeira vez, vou ter também essa experiência com certeza maravilhosa. Estou muito ansioso por ir.
 

Fico muito feliz que os trabalhos que eu tenho feito ao longo da minha carreira consigam chegar a vários lugares, nomeadamente aos países lusófonos, a que chegam muito, a que chegam numa forma total

Na verdade, existe um grande carinho por si por parte da população moçambicana, devido principalmente ao grande consumo de novelas portuguesas e brasileiras. Como olha a ligação que a língua portuguesa permite entre os diversos países lusófonos?
Em resposta à pergunta, eu até vou responder um pouquinho com sotaque do Brasil – português do Brasil e português de Portugal é, sem dúvida. Eu sei que os trabalhos que a gente vai fazendo em televisão, seja em Portugal ou no Brasil, têm essa possibilidade de atravessar fronteiras e, ao mesmo tempo, de nos aproximar. Eu acho que isso é fantástico. Eu fico muito feliz porque, obviamente, um artista gosta sempre de ter público e que os seus trabalhos sejam vistos por um maior número de pessoas, que alcancem lugares distantes, e pessoas de outros lugares, que os trabalhos toquem nessas pessoas com uma representação, com uma actuação, pelo texto, pela história em si, e fico muito feliz que os trabalhos que eu tenho feito ao longo da minha carreira consigam chegar a vários lugares, nomeadamente aos países lusófonos, a que chegam muito, a que chegam numa forma total, mas também outros cantos do mundo. Acho que isso nos aproxima, a nós dos países lusófonos, que nos faz sentir pertença de um grupo, uma família comum. E quando vai para outras geografias, para outros países, faz também as pessoas olharem para nós e verem como nós actuamos, representamos e vivemos a arte, e isso é bom. Seja um filme, um teatro, um cinema, ele tem esse propósito de viajar e de ir tocando as pessoas por onde passa. É tudo o que nós queremos como artistas.
 

Conquistou rapidamente o Brasil, onde tem actuado principalmente em novelas da Rede Globo. É difícil replicar o sotaque brasileiro durante longas horas de gravação?
Hoje em dia – bom, olha eu já respondendo com sotaque do português do Brasil –, são muitos anos de Brasil, muitos anos trabalhando aqui, e eu acho que a língua e o sotaque têm a ver com exercício, não é? É a mesma coisa que você passar um tempo nos EUA, na Inglaterra, e falar o inglês, ou passar um tempo na França ou num país que fale a língua francesa e falar o francês. Eu acho que tem muito a ver com isso, não é? Eu acho que a gente acaba se adaptando e ganhando mais uma língua, não é? Aqui [no Brasil], na verdade, é o português, mas é um português com um sotaque diferente, assim como é o português de Moçambique, como é o português de Angola, o português de Cabo Verde, o português de Portugal, e isso é a magia da língua. Ela se espalhou e ela é diferente em cada lugar. Hoje em dia é supernatural em mim eu ter esse sotaque, porque o meu português, quando eu estou no Brasil, é um português do Brasil e, quando eu estou em Portugal, é um português de Portugal. Mas sem dúvida que ele próprio já está bastante misturado, e também isso é a beleza da língua. Mas eu tenho tido a oportunidade de trabalhar e de fazer trabalho em francês, em inglês, em italiano, e eu gosto muito desses desafios de a gente procurar se aperfeiçoar nos sotaques, na capacidade de actuar em línguas diferentes.


Que peso acarreta ser considerado um galã das telenovelas?
Zero peso. Eu acho que, além dos galãs que eu fui fazendo, dos protagonistas que eu fui fazendo ao longo da minha carreira, existe uma carreira muito consistente, com trabalhos diversos, que navega de uma forma muito tranquila e muito orgânica entre os galãs que eu fui fazendo, entre os vilões que eu fui fazendo, entre as pessoas também mais diferentes, mais intensas fisicamente, com visual mais carregado fisicamente. Então, para mim, zero peso, são todas viagens da minha carreira artística que eu amo, cada uma delas. Adoro fazer um galã, adoro viver uma história romântica, do mesmo jeito que eu adoro fazer um vilão, faz parte do nosso exercício de trabalho, da nossa construção, da nossa oportunidade de mostrar diferentes perfis, diferentes abordagens de construção e de interpretação de uma personagem. E eu acho isso fantástico, eu quero é ser diferente em cada trabalho, quero é ser diferente até mesmo fazendo vários galãs, como fiz ao longo da minha vida. Nenhum é igual ao outro, nenhum pode ser igual ao outro, então, zero peso. O peso é o peso da gente sempre desejar entregar um trabalho bonito e de sempre a gente ter esse medo inicial, que ao mesmo tempo funciona como um gatilho, no bom sentido de a gente procurar chegar no personagem. Então, para isso, a gente tem que trabalhar, se dedicar, assistir e ver muita coisa, e observar, para a gente construir principalmente um personagem rico, com raízes, seja ele um galã, seja ele um vilão, seja ele outro tipo de personagem. Eu gosto é de desafio, e gosto do peso também que as coisas trazem, o peso é bom, faz a gente ter o pé no chão e a gente ter noção da responsabilidade que é essa nossa área, esse nosso trabalho, esse nosso ofício, e isso é muito bonito.
 

Considera que o romantismo é uma base obrigatória para o sucesso de uma novela?
Eu considero muito o romantismo como sendo sempre um dos factores principais da história de uma novela. O amor, não é? Eu acho que o amor, inclusive, faz parte da história da vida. Sem amor nada acontece, o amor... o amor é tudo, então, acho que, sem dúvida, tem sempre que ter história de amor por trás de uma história de novela. E o amor pode ser vivido de várias formas. Isso é beleza, e aí os criadores, os autores, tem essa possibilidade de mostrar várias formas de passar esse amor, o que é fantástico.
 

Gostaria de ver uma maior presença de actores dos PALOP nas grandes novelas?
Eu acho que seria muito bacana, eu tive a felicidade de já ter feito vários projectos com actores de vários lugares diferentes, de vários PALOP, de várias nacionalidades. Eu tenho tido essa oportunidade, mas eu acho que a gente deve, sim, pensar, criar, sugerir produções que envolvam mais actores de todos os países de língua portuguesa, pois a gente só tem a ganhar com isso. A gente vai contar com uma história mais rica, uma história mais forte, que nos representa mais esse grupo de países que falam a mesma língua, então acho que sim. Eu adoraria fazer parte desses projectos, fossem teatros, cinema ou televisão.


Qual o futuro das telenovelas num mundo cada vez mais fascinado com plataformas como a Netflix e HBO? Acredita que esse formato poderá ser adoptado pelas plataformas streaming?
Novela tem um público muito fiel, um público que ama o formato, que ama o produto, e tem esse público no mundo inteiro. As novelas que são feitas em vários lugares do mundo, não só no Brasil mas também em outros lugares, como Portugal e outros, são vistas no mundo inteiro e são muito seguidas, muito amadas. Então sim, sem dúvida, novela tem muito futuro, tem muita história para ser contada. A gente já assiste ao movimento dos streamings em determinadas regiões fazendo produtos novela, às vezes uma novela mais. Eu acho que a gente vai acabar tendo esse formato também em algumas outras plataformas, no futuro, sem dúvida. Novela é um produto que vai continuar a existir, tem uma força muito bonita, é uma forma muito bonita de contar uma história, então é isso, um futuro muito bom para as novelas.

Quais são as suas referências de Moçambique no que toca a cinema, literatura, música ou teatro?  
Eu fui descobrindo e tendo muito interesse. Tentei acompanhar muito a obra do artista Malangatana Na verdade, a sua obra como artista vai além da pintura, não é? Um artista multifacetado e uma obra muito interessante. Na literatura eu vou falar do Mia Couto, porque fui conhecendo ao longo dos anos a sua obra, a sua obra também muito rica, muito diversa e muito interessante. Sou muito fã.

Qual a sua opinião em relação ao cinema africano? África continua esquecida nos Óscares de Hollywood?
Eu acho que hoje o mundo está muito atento ao cinema de vários lugares, e sem dúvida atento ao cinema que se faz em África, ao cinema africano, atento a todas as geografias. Hollywood - como a pergunta se coloca, não é? –  hoje em dia, mais do que nunca, está atento ao cinema que a gente faz no mundo inteiro. Então eu acho que é bom a gente ter uma representatividade diversa desse mundo grande e que tem formas de fazer cinema diferentes, e que tem histórias diferentes que têm que ser olhadas, e têm que ser vistas, e têm que ter obviamente os grandes palcos para serem mostradas ao maior número de público possível. E quero acreditar, e torço muito por isso, que o cinema seja cada vez e sempre mais diverso, atento a todos os lugares onde ele é feito, e mostrado ao maior número de pessoas cinema de todo o lado.

Que conselhos daria a um jovem actor moçambicano?
Essa é uma pergunta que sempre me colocam, principalmente quando eu vou falar, dar alguma palestra ou parte de alguma conferência, e me perguntam sobre a arte, o ofício de ser actor. Eu levo muito a sério a profissão, eu dou muito valor a ela, e exijo muito de mim para entregar sempre o melhor, mas quando você me coloca essa pergunta de um jovem actor moçambicano ou até mesmo de um outro lugar do mundo, de um outro país, é: se ele realmente ama essa profissão, ele tem que seguir esse sonho, e seguir esse sonho é, em primeiro lugar, saber observar, é fundamental para a nossa arte, e, depois, saber escutar, porque tem sempre um actor mais novo ou mais velho pronto para ensinar a gente, e a gente deve aprender com todo o mundo. E depois procurar, sim, digamos, se exercitar com isso, e com isso é procurar conhecimento nessa área para poder estar melhor preparado, e depois ter humildade e saber reconhecer que a vida é um processo e que a gente vai evoluindo ao longo da vida. Querer e ter vontade de aprender, ter disciplina e ter rigor no seu trabalho, e depois trabalhar muito. E trabalhar muito é se dedicar muito a esse ofício e a essa profissão. Eu acho que são dicas essenciais para o trabalho ir acontecendo e chegar num lugar que essa pessoa, esse actor, essa actriz, deseja, sonhou e, de facto, quis. É isso, passo a passo construindo algo com raiz, com conteúdo.
 

Planos para o futuro?
Eu estou gravando agora “Cara e Coragem”, uma nova novela da Globo a que logo-logo vocês vão poder assistir aí. Tenho um filme que vai estrear também, que se chama Revolta, um filme feito em Portugal em plena pandemia, um filme muito bacana, com a Margarida Vila Nova, o Cristóvão Campos, a Teresa Tavares, rostos que vocês também conhecem das novelas e do teatro e do cinema, e uma novela muito bacana, uma nova novela das 7, da Globo também, e estou lendo vários textos, tenho um outro filme de que não posso falar muito ainda. Mas estou lendo outros textos de teatro, e tenho uma ideia mesmo de fazer uma peça que passe um pouquinho por vários países de língua portuguesa. Então, quem sabe logo-logo eu não estou aí num palco para me apresentar para vocês e poder contar uma história para vocês.

Gostaria de deixar alguma mensagem aos moçambicanos?
Para a galera de Moçambique, aquilo que eu quero deixar realmente é que eu espero um dia que seja tipo amanhã – agora não vai dar porque eu estou gravando todo o dia – mas que seja assim muito breve, em que eu possa visitar esse país de que eu escuto sempre que é um lugar lindo, com umas pessoas maravilhosas, eu quero sentir essa energia. Então, a mensagem que eu vou deixar aqui é um abraço muito grande, mesmo que seja à distância agora, e que eu possa ser também abraçado e abraçar, assim que eu pisar um dia – e que seja para breve – o solo moçambicano. Um beijo muito grande no coração de vocês todos, e até já!