Pulango

Reciclagem de madeira 
Do lixo nascem novos produtos e novas marcas

O reaproveitamento ou reciclagem há muito que deixou de ser moda para se tornar uma tendência sustentável, e exemplos não faltam. Há, no país e no mundo, cada vez mais projectos sociais baseados na preservação dos recursos da natureza, tendo em vista a mitigação dos efeitos negativos das mudanças climáticas.  

A Pulango (palavra que, em tradução literal do changana para o português, significa madeira) transforma em tábuas de corte para diferentes fins, de madeira, aquilo que para a maioria de nós tem um nome, lixo, tornando-o uma fonte de renda. São pedaços ou restos de madeira que, geralmente, vão directos para o aterro sanitário, ou são queimados e convertidos em carvão, mas que aqui se transformam em novos produtos que levam a insígnia da Pulango.  

Criada no ano de 2020, Pulango é uma marca que nasce de uma amizade que liga dois povos e dois países irmãos, unidos pela história, pela cultura e pela língua. Pedro Schünemann Christófaro Silva é um carioca também mineiro: nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Minas Gerais, no Brasil, onde estudou Economia. Fernando Mahade, residente na Matola, é moçambicano, natural de Zandamela, no sul de Moçambique, precisamente na “Terra da Boa Gente”, a província de Inhambane. É marceneiro e há mais de três décadas que desenvolve o mesmo trabalho. É um verdadeiro mestre na arte de esculpir a madeira para produzir uma infinidade de móveis, como mobília para casas, entre outros.  

Fernando e Pedro conhecem-se há pelo menos cinco anos, mas só no ano passado decidiram firmar uma parceria de negócios para criar as tábuas de corte feitas em madeira que ostentam o nome Pulango. Pedro associou design e criatividade para desenvolver a Pulango, que permite reaproveitar os resíduos de madeira para produzir utensílios domésticos.  

“O fabrico artesanal de móveis gera uma grande quantidade de restos de madeira em tamanhos muito pequenos e, tradicionalmente, esses pedaços são queimados e convertidos em carvão. Tal actividade, no entanto, gera pouco retorno para o marceneiro, para além de possíveis riscos para a saúde e riscos de incêndio”. E há um grande desperdício.

Com o conhecimento técnico disponível, a habilidade manual necessária e a matéria-prima (a madeira) acumulada como restos da fabricação de peças, como as de mobiliário, por exemplo, a ideia tomou forma e concretizou-se.

“A produção de tábuas de cozinha com um design diferenciado e uma qualidade de acabamento excelente foi tecnicamente simples de se adaptar para marceneiros experientes”, explicou o economista com interesse em projectos de geração de renda com madeira e design.

“Fernando Mahade, o patriarca da família, foi quem me ensinou a trabalhar a madeira, a dar vida a esse material tão precioso na forma de móveis com história para contar. Desde 2016 que a família vem produzindo lindos móveis para mim e para amigos. Assim, foi uma transição orgânica a da nossa relação cliente-amigo para a de parceiros na Pulango” – assim ficámos a saber como nasceu a parceria.

O minucioso processo de produção  

O processo de produção das tábuas de corte de madeira “Pulango” acontece em quatro fases, começando pela selecção da madeira. Depois, a madeira é cortada e preparada para montagem. A segunda etapa consiste na colagem, com cola à prova de água, e as tábuas secam em 24 horas. Já na terceira fase, as tábuas são novamente aplainadas, e as extremidades aparadas, para garantir a sua consistência e uniformidade. Na quarta e última etapa, as tábuas, já aplainadas, são lixadas, marcadas e finalizadas com óleo especial para tábuas de corte.

A Pulango produz principalmente tábuas de corte de madeira para diversos fins. As Pulango tradicionais são grandes e pesadas, com 60x30x4 cm e 4-5kg. As tábuas lisas são comummente usadas para cortar alimentos secos e servir à mesa; as tábuas com canal, por sua vez, são mais para quem gosta de um bom churrasco, pois são ideais para segurar aquele sumo que sai das carnes no momento do corte. “Adições recentes à colecção são as Pulanguinho, com 30x20x4 cm, perfeitas para servir um sushi, e as tábuas de queijo, com 45x15x2 cm, mais finas e leves, boas para servir queijos e embutidos. A opção pela mistura de madeiras é feita em todos os produtos por uma questão de identidade da marca e para reaproveitar a maior quantidade possível de resíduos”, dizem-nos.

Todas as tábuas são feitas de madeiras maciças moçambicanas, tais como Umbila, Chanfuta e Jambirre. A técnica possibilita aos carpinteiros utilizarem a madeira ao máximo e complementarem a renda das suas famílias.

“A Pulango surge como opção para aumentar a renda da família Mahade sem grandes investimentos, impossíveis na actual situação. A marca foi criada para resolver um  problema social, mas queríamos igualmente ser um projecto amigo do ambiente”


Um projecto “verde” baseado na família

A extracção ilegal e o descarte indevido de madeira geram impactos negativos no meio ambiente. Para evitar o desmatamento e minimizar os danos causados à natureza, a reciclagem da madeira é uma das melhores soluções.

Foi pensando em soluções ambientais sustentáveis que nasceu a Pulango, mas o desperdício de madeira não era o único problema que Pedro queria resolver. Havia outro propósito para si mais premente. “A ideia Pulango surge como opção para aumentar a renda da família Mahade sem grandes investimentos, impossíveis na actual situação. A marca foi criada para resolver um problema social, mas queríamos igualmente ser um projecto amigo do ambiente. A produção de tábuas de corte de alta qualidade aparece como solução para ambos os problemas, criando uma fonte de renda extra sustentável e com baixo risco para a família.”

“Pedro é um homem fantástico nos ideais e excelente no marketing. Ele é responsável por promover a Pulango, mas não se limita a esse papel. Ele ajuda também a promover a venda de diversos móveis que fabrico com a ajuda dos meus filhos e outros jovens aprendizes”, assim salientou o marceneiro a importância do seu amigo e parceiro de negócios. “A Pulango é um projecto que veio melhorar sobremaneira a renda familiar. Pedro veio transformar a madeira que considerávamos lixo em um novo produto de valor agregado. Estou muito feliz com esta parceria. Espero que as encomendas não parem de chegar”.

Segundo Pedro, a resposta do mercado foi muito acima do esperado. “Lançámos as Pulango no momento certo e aproveitámos a época festiva para vender muito mais do que havíamos previsto. Mesmo agora, já no novo ano, a demanda e o interesse continuam altos. Para além das vendas directas através dos canais online, firmámos também parcerias com 3 lojas em Maputo, nas quais acreditamos bastante, e as Pulango podem ser apreciadas e adquiridas no Café 3D, no Bairro Bistrô e na Mobi.” As redes sociais, principalmente o Instagram e o Facebook, são os principais veículos para promover os produtos da Pulango, que também podem ser encontrados no site www.pulango.co.mz.  

A médio prazo, a Pulango pretende expandir-se através de uma gama de produtos para móveis e ampliar parcerias com lojas locais e em outros países, como forma de alcançar a internacionalização enquanto busca consolidar-se internamente. 

Texto de Jaime Álvaro