Há negócios que nascem de um plano e outros que começam simplesmente porque alguém reparou no que faltava. A Nandzika pertence ao segundo grupo. O que começou com plantas introduzidas em casas na Matola transformou-se numa marca que procura aproximar as pessoas da natureza, criar espaços onde apetece ficar e fazer da sustentabilidade uma prática. Por detrás desta visão está Jusaina Violanda, fundadora e CEO, uma empreendedora que quer levar a Nandzika muito além de uma simples loja de plantas.
Tudo começou quando Jusaina trabalhava numa empresa de investimento e construção responsável por moradias de luxo em condomínios fechados na Matola. Cabia-lhe cuidar dos acabamentos e do design final. Quanto mais trabalhava nos espaços, mais sentia que faltava alguma coisa. A resposta estava nas plantas.
Começou a introduzi-las nas casas e percebeu a diferença. “As pessoas sentiam-se mais confortáveis nas casas. Diziam sentir que estavam verdadeiramente em casa.”
Encontrar bons fornecedores, porém, revelou-se difícil. Havia problemas de disponibilidade, qualidade e consistência, além de pouca informação sobre as espécies e os cuidados necessários. Foi para responder a essa necessidade que Jusaina começou a construir as suas próprias estufas.
A Nandzika Lifestyle with Plants ainda não existia. Jusaina estava simplesmente a resolver um problema concreto. Com o tempo, percebeu que podia levar as plantas a outro nível, juntando qualidade, requinte e informação.
A paixão pela natureza já vinha de trás. Anos antes, enquanto pesquisava produtos naturais para o corpo em Moçambique, encontrou um livro de Anita Roddick, fundadora da The Body Shop, e identificou-se com a sua visão de construir um negócio em torno daquilo em que verdadeiramente se acredita.
“Quando criei a NANDZIKA, tinha a visão de que iria ser a Rainha Verde de Moçambique, uma empreendedora apaixonada pela natureza.”
A ambição vai mais longe: “Quero tornar-me uma referência internacional como mulher que teve impacto na sustentabilidade”, afirma.
Um nome para uma sensação
Em changana, Nandzika refere-se a algo agradável, seja de sentir, de ter por perto ou até ao paladar. O nome traduz aquilo que Jusaina pretende criar. “Quero criar ambientes agradáveis de estar e de sentir, através das plantas.”
Mais do que vender plantas e vasos, a Nandzika procura criar espaços onde as pessoas se sintam bem e recuperem uma ligação que Jusaina considera essencial. “Não vendemos apenas plantas ou vasos. Criamos espaços onde as pessoas se sentem bem e tentamos reconectá-las com a sua essência: a natureza.”
É também por isso que o design biofílico ganhou importância na proposta da marca. A ideia não passa simplesmente por colocar plantas num espaço, mas por combinar vegetação, luz natural, ventilação, materiais, texturas e outros elementos capazes de aproximar as pessoas da natureza.
“Não queremos simplesmente colocar uma planta bonita num vaso. Queremos que cada elemento contribua para a experiência e para a sensação que o espaço pretende transmitir.”
Aprender com a natureza
A própria Nandzika teve de aprender com as plantas. Nos primeiros tempos, chegou a trabalhar com cerca de mil espécies, incluindo variedades mais exóticas provenientes de fornecedores locais e de viveiros da África do Sul. A experiência mostrou que muitas não se adaptavam bem ao clima moçambicano e eram mais vulneráveis a pragas e doenças.
Hoje, a empresa dispõe de vários viveiros, produz a maior parte das suas plantas e privilegia espécies adequadas às condições locais. Também produz o seu próprio composto orgânico, recorrendo a resíduos dos condomínios, estrume de criadores locais de galinhas e pó de carvão, sem utilizar químicos ou fertilizantes inorgânicos.
Ao mesmo tempo, Jusaina nota uma transformação entre os consumidores. “Hoje vemos um cliente moçambicano cada vez mais sofisticado. A internet trouxe mais informação, referências e expectativas.”
Os clientes procuram cada vez mais qualidade, apresentação e conceito, mas também demonstram maior interesse pela sustentabilidade e pela presença da natureza em casas, escritórios, conferências e eventos.
Fazer crescer uma ideia
Transformar uma paixão num negócio trouxe também dificuldades. Jusaina resume os principais desafios em três áreas: pessoas, financiamento e conhecimento técnico.
A experiência levou-a a privilegiar jovens com vontade de aprender e a apostar na formação dentro da própria empresa. O acesso ao financiamento continua, por sua vez, a ser um obstáculo para uma pequena empresa que precisa de investir para crescer.
Há ainda uma aprendizagem que considera fundamental: informação e experiência não são a mesma coisa. A internet e as novas tecnologias tornaram o conhecimento muito mais acessível, mas saber encontrar uma solução não significa necessariamente saber executá-la.
“Encontrar as soluções técnicas é a parte fácil. Implementá-las e colocá-las em prática é o verdadeiro desafio. E não há substituto para a experiência.”
Da loja para novos espaços
Um dos projectos que mais marcou o percurso da empresa foi o Nandzika Garden Centre, concebido e construído no Novare Mall, na Matola. Jusaina acredita que o espaço atingiu padrões internacionais e ajudou a tornar a marca rapidamente conhecida.
Mas ser apenas uma loja de plantas já não é o foco. A Nandzika está a conceber Espaços Verdes com diferentes jardins, incluindo áreas dedicadas a orquídeas, antúrios e filodendros.
A ideia é criar lugares onde as pessoas possam caminhar, andar de bicicleta, ler ou simplesmente passar algum tempo em contacto com a natureza.
“Queremos criar algo tão espectacular que as pessoas olhem e pensem: Quero isto em minha casa. Quero um jardim assim.”
Sustentabilidade para além das plantas
É na sustentabilidade que Jusaina vê também uma parte importante do futuro da empresa. “Para mim, sustentabilidade não é simplesmente plantar árvores ou realizar uma única actividade comunitária. É muito mais profundo.”
A ambição é que a Nandzika possa trabalhar cada vez mais com empresas, não apenas na criação e manutenção dos seus espaços verdes, mas também na implementação de práticas sustentáveis, acompanhamento de resultados e, futuramente, no apoio à preparação de relatórios de sustentabilidade.
Jusaina acredita que existe espaço para conhecimento especializado nesta área, da mesma forma que as organizações recorrem a especialistas em tecnologia, segurança ou contabilidade.
“Para mim, esse é o verdadeiro significado da sustentabilidade: não uma acção pontual, mas a criação de uma mudança que passa a fazer parte do funcionamento da empresa.”
Uma ideia que continua a crescer
A ideia inicial era vender plantas. Hoje, a visão é criar espaços onde as pessoas possam passear, aprender, ler e viver uma experiência diferente em contacto com a natureza.
Jusaina quer também aprofundar o trabalho na sustentabilidade e mostrar que Moçambique pode assumir responsabilidade e liderança nesta área.
“Quero criar uma marca que represente uma forma diferente de viver, de pensar os espaços e de nos relacionarmos com a natureza.”
É uma ambição que devolve a história ao lugar onde tudo começou. Primeiro, Jusaina percebeu que faltavam plantas numa casa. Depois percebeu que aquilo que elas traziam não era apenas decoração. Era a sensação de estar verdadeiramente em casa.
