Chamo-me Yara Benedito Chidiamassamba. Nasci em Maputo e sou a mais velha de três irmãs. Cresci a ouvir que, por não haver rapazes, deveria ser “o homem da família” e que o sobrenome do meu avô terminaria connosco. Em vez de me prender, essas palavras despertaram em mim uma determinação silenciosa: a de provar que não existe fragilidade em sermos mulheres — apenas força, coragem e visão.

Formei-me em Arquitectura e Planeamento Físico, mas descobri cedo que a minha verdadeira missão ia muito além dos projectos e das pranchetas. Hoje, como Gestora de Performance Social na Fundação para o Desenvolvimento de Palma, encontro-me diariamente no terreno, lado a lado com comunidades que enfrentam desafios imensos, mas que carregam um potencial extraordinário.

Desde cedo acreditei que o progresso de Moçambique passa pela valorização das suas zonas rurais, pela educação das raparigas, pelo acesso à água potável e pela melhoria das condições de saúde. É aí que vejo nascer um futuro resiliente, sustentável e justo. Pauto-me por valores que herdei e cultivo: honestidade, trabalho árduo, paixão e liberdade. São eles que sustentam o meu compromisso de inspirar mudanças e criar oportunidades reais.

Durante cinco anos em Maputo, trabalhei na área de arquitectura, desenvolvendo projectos e supervisionando obras. Foi nesse período que fundei a Maquetheia, uma marca criada para apoiar estudantes e profissionais de arquitectura com ferramentas criativas e de aprendizagem. Organizei workshops para crianças e jovens, convidando-os a repensar a cidade e a descobrir o seu potencial criativo.

Em 2020, segui para Nampula, determinada a apoiar jovens mulheres que abandonavam a escola. Com elas, aprendi que persistir é também um acto de resistência. Foi nesse percurso que colaborei com a Girl Move Academy, integrando acções de mentoria e capacitação que ampliaram o impacto junto de raparigas e jovens mulheres, reforçando o seu caminho académico e de liderança. Mais tarde, assumi a coordenação de uma plataforma de apoio a comunidades deslocadas pelo conflito em Cabo Delgado, liderando acções de distribuição de alimentos, insumos agrícolas e apoio ao reassentamento. Hoje, conduzo o Projecto Bambu do Rovuma, que transforma o bambu em produtos sustentáveis e cria emprego para agricultores locais, construindo não só uma economia verde, mas também dignidade e futuro.
Carrego comigo uma conquista especial: tornei-me Campeã Mundial de Tang Soo Do, erguendo a bandeira de Moçambique em palcos internacionais. Nesse momento, percebi que o meu sobrenome não terminaria comigo — ele seria um símbolo de resistência e de identidade.

Recentemente, concluí formações em Arquitectura e Infraestrutura Humanitária, Habitação para Crises e Planificação e Gestão de Projectos de Desenvolvimento Social. O próximo passo é um mestrado em Paz, Conflito e Desenvolvimento, para ampliar o meu impacto e aprofundar a minha capacidade de transformar realidades.

Ao longo do caminho, aprendi que o desenvolvimento verdadeiro nasce da proximidade: conhecer as comunidades, ouvir as suas histórias e trabalhar ombro a ombro na construção de soluções sustentáveis. Trago na memória a mudança de Maputo para Chimoio, os seis anos de simplicidade que nos permitiram comprar o primeiro carro, e as amizades que guardo até hoje.

Sou filha de Etevaldo Boca e profundamente marcada pela força da minha mãe e da minha madrinha Edite. No desporto, encontrei disciplina e espírito de equipa: joguei voleibol, basquetebol e futsal, e fundei a primeira equipa feminina de voleibol da Faculdade de Arquitectura.

O meu sonho é ver um Moçambique mais pacífico, com menos desemprego e comunidades rurais fortes, com acesso a infra-estruturas sociais essenciais. Porque acredito que a esperança está no conhecimento, na participação e na capacidade de transformar — mesmo quando o caminho é difícil.