O som do batuque que outrora anunciava dor hoje é um tradutor de alegrias que, através de movimentos acompanhados de cânticos, descodificam o falar das almas por meio da dança. Capulanas coloridas em corpos prontos para vibrar introduzem o grupo de homens e mulheres que, organizados em círculo, entram neste aos pares, em movimentos de vaivém, e, como se de uma competição se tratasse, mostram, cada um à sua maneira, os seus passos, ao ritmo de batuques e som de palmas. Assim se vai concretizando o nhambarro, uma dança característica da província da Zambézia originalmente integrada nas cerimónias dedicadas à iniciação da rapariga. Suas origens remetem para a história e tradição locais na tentativa de resposta a problemas de saúde feminina. De acordo com algumas fontes orais e escritas, nhambarro é o nome tradicional de uma doença feminina caracterizada por corrimento vaginal.
“Na altura, quando a mulher tivesse problemas de corrimento que lhe causassem dor, chamava-se uma curandeira. No processo de tratamento, fazia-se uma dança só executada por mulheres que já tivessem passado pelos ritos de iniciação. A curandeira trazia os seus batuques e, na tentativa de curar aquela doença, elas dançavam”, afirmou Júlia Asdrúbal Sede, bailarina da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD). As gingas aliadas aos diversos movimentos na zona pélvica denunciavam a zona da dor e a finalidade que ditara o surgimento da dança. “Quando se executa a dança, movimenta-se muito a cintura pélvica. Pode-se até movimentar os braços, mas usa-se muito a cintura pélvica, talvez por ser nesse local onde as mulheres sentiam mais dor”, prosseguiu a bailarina.
O som do batuque que outrora anunciava dor hoje é um tradutor de alegrias que, através de movimentos acompanhados de cânticos, descodificam o falar das
almas por meio da dança
Uma dança antiga e sempre nova
Com o passar dos tempos, o nhambarro foi-se desenvolvendo, cobrindo mais aspectos da vida social, não se limitando somente à dor feminina. Actualmente, homens e mulheres executam esta dança que, pela alegria e vivacidade que a caracteriza, acompanha a população em diversos momentos da vida.
O nhambarro tem sido frequentemente usado como símbolo de alegria em momentos como a celebração de colheitas, graduações, casamentos, ou até mesmo como forma calorosa de recepção de algum dirigente ou figura importante, em jeito de boas-vindas. “As músicas que acompanham o nhambarro têm muito sentido social. Elas são criadas em resposta a várias situações da vida das comunidades, para chamar a atenção, repudiar, elogiar algum comportamento, ou, simplesmente, para celebrar a alegria”, afirmou a bailarina da CNCD.
Esta dança, de conteúdos e significados profundos, é praticada numa vasta zona da província da Zambézia que compreende os distritos de Quelimane, Namacurra, Inhassunge, Mopeia, Morrumbala, Chinde e uma parte do distrito de Mocuba. Trajados de capulanas coloridas e camisetes, os dançarinos são acompanhados normalmente por três instrumentistas, cada um com um batuque diferente (gogo, mussosso e namirrebele, sendo este alto, de formato cilíndrico e oco. Em cada uma das mãos é possível notar-se uma tábua, tradicionalmente conhecida como madha, palavra da língua chuabo (echuwabo), que significa mão. As tábuas são usadas para ampliar o som das mãos. Elas transformam o toque das mãos em algo mais audível. Um apito sinaliza a entrada e saída dos bailarinos e ajuda a motivá-los, dando-lhes mais força para a dança. “Quando dançamos nhambarro, a intenção é mesmo a de ir para frente. Em certos momentos, esta dança pode ser confundida com a dança utsi, da província de Sofala, mas há algo que as distingue: no nhambarro a intenção dos passos é conduzir quem executa para frente, enquanto no utsi os passos levam o dançarino para trás”, explica a nossa interlocutora.
Aos olhos de Júlia Sede, o nhambarro é uma das mais belas manifestações culturais do povo moçambicano e, apesar das transformações que foi sofrendo ao longo dos tempos, nunca deixou de simbolizar a alegria zambeziana. “Convido sempre as pessoas a conhecerem esta dança, particularmente os zambezianos, de forma a conhecerem melhor a sua cultura. O nhambarro faz parte de nós e deve fazer parte da nossa vida”, concluiu a bailarina.
