A terra foi a sua primeira tela. Quando criança, com a imaginação a dominar os seus pensamentos, procurou alternativas para desenhar o mundo à sua volta. Gilberto Muzilene Macane, ou simplesmente Muzilene, como é conhecido no meio artístico, foi desde pequeno intimado a viver no universo das artes. Com apenas sete anos de idade, sem tela, nem papel, usou e abusou da criatividade para se comunicar com mundo. Fazia cuidadosamente os seus desenhos na areia e, apesar da pouca idade, conseguia arrancar vários elogios, fazendo da terra um novo lugar para ser contemplado, uma galeria natural que diariamente era preenchida por diferentes desenhos repletos de expressividade.
“Gosto de usar técnica mista e gosto mais ainda de fazer a fusão de diversas técnicas que eu mesmo crio”
“Tudo começou quando eu era miúdo, sempre gostei de desenhar. Comecei por desenhar na areia. Na altura, não tinha material e, por isso, fazia os meus desenhos na areia. As pessoas sempre os apreciavam, ficavam admiradas”, afirmou Muzilene. A sua inclinação para o desenho era notória. Quando fazia a sexta classe, foi classificado como um dos melhores alunos na disciplina de educação estética. Descobrindo o seu talento, um dos seus professores aconselhou-o a matricular-se na escola de artes visuais. “Quando concluí o ensino primário, entrei para a Escola Nacional de Artes Visuais, onde fiz a minha formação. Sou designer gráfico, mas a arte pesou mais do que a formação. O que faço é design, mas não uso o computador, uso a mão. Faço design manualmente”, disse alegremente.
Enquanto se formava na Escola Nacional de Artes (ENAV), Muzilene dava também os seus primeiros passos na carreira artística. Em 2000 começou a encarar a sua arte de forma mais profissional, o desenho e a pintura já dominavam o seu ser. A sua primeira obra pinta a sua memória de coloridas lembranças. Muzilene não se esquece do trabalho que o fez acreditar que estava no caminho certo. “Foi uma obra contemporânea onde usei técnica mista. Recortei primeiro um desenho de uma revista, o desenho de uma criança chorando triste, caída no chão. Colei num quadro. Em seguida, peguei em palitos de fósforo e colei-os também na tela. Acendi os palitos. As chamas produziram um efeito bonito na tela. Desenhei um pássaro ao lado, pintei a tela e fiz um fundo meio avermelhado. Usei uma diversidade de técnicas numa única obra, e o resultado foi surpreendente”, afirmou o artista.
De 37 anos de idade, Muzilene procura sempre formas de dar um toque diferenciado ao seu trabalho, quer através das emoções que procura transmitir, quer por meio das técnicas que ele próprio tem criado para alcançar mais expressividade. “Gosto de usar técnica mista e gosto mais ainda de fazer a fusão de diversas técnicas que eu mesmo crio”. Tal é o caso das técnicas “molhado” e batique sobre tela, esta inspirada nas técnicas de tingimento têxtil.
As mãos que fazem a arte falar
No início de carreira, Muzilene vendia as suas obras na rua, por intermédio de jovens revendedores que se fixavam na Praça da Independência e ao longo da cidade de Maputo. A sua ousadia e criatividade tornam-no a cada dia mais forte, colorindo a sua trajectória de importantes conquistas. Actualmente a sua inconfundível presença no Baía Mall, na cidade de Maputo, não só se adiciona ao leque de suas conquistas como também presenteia com uma dose de arte quem frequenta aquele estabelecimento comercial. Muzilene pinta à vista de todos os que caminham pelos corredores daquele centro comercial. Pinta de tudo um pouco, contudo, o calor humano e o vai e vem das pessoas que cruzam o seu dia-a-dia no local, fizeram-no apostar mais no retrato. “Consegui convencer a direcção do centro a apresentar-me ao vivo, algo que nenhum artista tinha feito neste local. Senti-me tentado a desenhar pessoas. Especializei-me em retratos, algo que gosto imenso de fazer, e sinto que as pessoas também gostam”, afirmou Muzilene, o artista que busca inspiração no quotidiano e apresenta a sua arte por meio de retratos, paisagens e abstracto. A expressão e naturalidade das obras fazem o seu trabalho ir além de simples retratos, transformando-o em imagens que falam sem mesmo dizer uma única palavra. Os rostos por si desenhados intimam quem quer que seja num momento de contemplação. “O que eu faço é difícil de definir. Não é só retrato. É retrato e mais alguma coisa.”
Há mais de vinte anos no universo artístico, Muzilene procura sempre formas de deixar a sua marca cada vez mais presente. Já participou em três exposições individuais e algumas colectivas. A sua primeira aparição aconteceu em 2012, numa colaboração com João Timane, na exposição intitulada “Despertando olhares”, que esteve patente na mediateca do BCI, em 2012. A partir daí, não mais parou. Três anos depois lançou a sua primeira exposição individual, intitulada “Hlhavutelo”, termo em changana que significa “revelação”. Após ter ficado alguns anos sem pintar regularmente e afastado das artes, decidiu retornar colocando à disposição do público uma exposição intitulada “Massungulo”, ou seja, “Recomeço”, mostrando o seu renascimento. A sua última exposição individual, “Nós e o futuro sustentável”, teve lugar em 2017. Retratava o dia-a-dia dos moçambicanos, reflectindo sobre a reutilização de matérias e objectos por meio de reciclagem para um futuro mais seguro do planeta.
E porque o céu é o limite, Muzilene quer ir longe e continuar a voar. Quer espalhar a sua arte pelos quatro cantos do mundo. “Quero lutar para desafiar o mercado internacional. Estou a fazer esforço para começar a apostar em novos mercados. Não sei como farei isso, mas acredito que a vontade de querer já é um passo”. Enquanto prepara a vigem para o futuro, Muzilene constrói o presente com bases firmes. “Quero que um dia saibam que um moçambicano, com a sua força e vontade, conseguiu atingir o mercado fora. Esse é um dos meus objectivos. Enquanto isso procuro dar o meu melhor no trabalho que faço”. Muzilene tem metas e sonhos muito bem definidos, e um sonho em especial não sai dos seus pensamentos. “Sonho em ter uma galeria, um espaço em que as pessoas possam entrar e apreciar a minha arte, a Muzilene Arts. Este é meu maior sonho”, concluiu.
