A gigante mundial de tecnologia expande o seu programa de recrutamento de talentos africanos para Moçambique. É a primeira vez, na sua história, que a Microsoft recruta talento no país para integrar a sua força de trabalho como Software Engineer’s, em mais de 30 anos da sua presença em África. Claúdio da Silva, consultor sénior de dados e inteligência artificial da Microsoft, por sinal moçambicano, falou em exclusivo à revista Xonguila, tendo explicado o processo de selecção dos candidatos à sonhada vaga.
Há exactamente 47 anos, no mesmo ano em que Moçambique declarou a sua independência nacional (1975), nascia a Microsoft (Nasdaq:MSFT), empresa líder mundial em software, serviços e soluções que ajudam as pessoas e empresas a atingirem seu pleno potencial.
“É com orgulho que lidero a iniciativa, e seria uma satisfação enorme poder trazer talentos moçambicanos para trabalharem na sede da Microsoft em Redmond.”
– Cláudio Da Silva, responsável pela implementação do programa em Moçambique
A multinacional norte-americana está presente em África há pelo menos três décadas, com grandes investimentos nas áreas de ciência e tecnologia e áreas afins que têm impactado o crescimento económico do continente. No ano passado, a empresa criou a divisão Escritório de Transformação de África (ATO, sigla em inglês) para impulsionar o investimento e acelerar o crescimento digital sustentável de África “movida por africanos para África”. “A Microsoft estabeleceu no ano passado o Africa Transformation Office com a missão de actuar na estratégia de crescimento digital de África, focando-se em cinco áreas principais: Infra-estrutura Digital, Capacitação, PMEs, Start-ups e Parcerias Estratégicas. Mais recentemente, foi criada uma nova subsidiária, o Africa Regional Cluster (ARC) que será responsável pelas iniciativas estratégicas em todo o continente”, disse Claúdio Da Silva, consultor sénior da companhia. Segundo Da Silva, mestrado com especialização na área de Data Mining e Data Warehousing, a Microsoft tem planos para apoiar mais de 10.000 start-ups africanas nos próximos 5 anos. A ideia é criar uma série de programas no continente, através de parcerias estratégicas com aceleradores e incubadoras de startups. “Prevê-se, ao longo dos próximos anos, que a companhia apoie a capacitação de cerca de 10 milhões de PMEs em África através de tecnologia, infra-estruturas, capacitação e parcerias estratégicas que visam impulsionar a criação de emprego e riqueza no continente. Como também se prevêem vários apoios para a aceleração do crescimento de cerca de 10.000 startups africanas e investimentos no ecossistema de startups do continente”, explicou o especialista, natural da cidade da Beira. A Microsoft Garage é mais um exemplo alinhado às estratégias digitais para melhor atender às necessidades de África. “Estes centros de incubação fazem parte dos esforços para acelerar a inovação tecnológica no continente. Finalmente, a expansão de cloud data centers do Azure para regiões de África (em Joanesburgo e Cidade Cabo) em 2019 representou um milestone significativo para o continente, permitindo atrair novas oportunidades de negócios e investimentos globais, assim como melhorar o acesso a internet e serviços de cloud por toda a África”, argumentou Da Silva quanto às perspectivas que se abrem aos africanos com as iniciativas da Microsoft em curso no continente.
A “vez” de Moçambique
O sonho de muitos jovens africanos, em particular moçambicanos, entusiastas da tecnologia, de trabalhar numa das maiores empresas do mundo desse ramo tecnológico está perto de se tornar realidade. A Microsoft procura recrutar em Moçambique talento para integrar a sua força de trabalho. A iniciativa surge no âmbito de um programa continental da iniciativa da Microsoft que pretende alcançar e recrutar talentos africanos para fazerem parte da sua força de trabalho como Software Engineers para as equipas de Redmond, nos Estados Unidos, e Vancouver, no Canadá. “Para esta vaga, a Microsoft procura recém-graduados ou estudantes finalistas de um curso de bacharelado ou mestrado em engenharias, ciência da computação ou áreas afins. Com capacidade de demonstrar conhecimento dos fundamentos da ciência da computação, incluindo estrutura de dados e algoritmos. E também que tenham experiência em programação numa das linguagens orientada a objectos (C#, C++, Java, Python, etc.)”, explicou o responsável pela implementação do programa em Moçambique. Claúdio Da Silva não podia estar mais honrado e orgulhoso de si próprio por liderar o programa transformador no país que o viu nascer: “Quando surgiu esta oportunidade dentro da companhia, senti ser um dever meu, como moçambicano que sou, incluir o nome do nosso país na lista de potenciais países para a procura de talentos para integrar a força de trabalho da Microsoft nos EUA. É com orgulho que lidero a iniciativa, e seria uma satisfação enorme poder trazer talentos moçambicanos para trabalharem na sede da Microsoft em Redmond”.
O processo de candidaturas arrancou em Agosto e abrange todo o território nacional, sem limites de idade e género. Encorajam-se interessados de todas as províncias e com perfil diversificado a se candidatarem. Os candidatos que forem seleccionados serão convidados para a primeira fase das entrevistas. As vagas fecham assim que forem preenchidas após as entrevistas finais. “De momento, já estou a colaborar com as maiores universidades de Moçambique na divulgação do programa, na preparação e apoio aos candidatos, e também a dar a conhecer a cultura, as competências e os valores que a Microsoft procura, de modo a potencializar os skills dos estudantes e assim permitir que estes tenham preparação adequada que lhes permita chegarem à recta final no processo de recrutamento”. Este é o processo, que decorre em paralelo em outros países africanos. Os líderes de cada país, que lideram a iniciativa do programa, colaboram directamente com as universidades e dão assistência e acompanhamento na preparação dos candidatos. Mas esta relação não termina por aí, o acompanhamento será continuo. Mesmo depois de fazerem parte da companhia, estarão a receber apoio sobre a cultura da Microsoft, mentoria, onboarding, on-the-job training e, além do mais, entram para o track do Microsoft Aspire Experience, que é uma experiência de dois anos de aprendizagem e desenvolvimento profissional para recém-graduados. “Esperemos ter mais programas semelhantes que beneficiem a comunidade africana e, em especial, Moçambique, pela Microsoft como também por outras tecnológicas da mesma dimensão”, disse Da Silva, com optimismo em relação ao futuro.
Mas porquê África?
África é um continente em ascensão para capacidades científicas e tecnológicas, e existe uma abundância de oportunidades por explorar. Quase 60% da população do continente tem menos de 25 anos de idade. De acordo com o African Youth Survey (Inquérito à Juventude Africana) de 2020, 78% dos jovens estão interessados em seguir uma carreira em tecnologia. Os gigantes mundiais, como a Microsoft, estão interessados em potenciar e capitalizar estes talentos e fizeram muito investimento em África, recentemente. Em 2019, a Microsoft e o Banco Africano de Desenvolvimento lançaram o Coding for Employment (Programa de Codificação para o Emprego), para equipar os jovens africanos com competências em tecnologias de informação e comunicação orientadas para a procura, de modo a posicioná-los de forma competitiva para o mercado de trabalho global.
“A Microsoft já vem investindo em Africa há algum tempo. comprometendo-se com o desenvolvimento de talento no continente. Uma das apostas da companhia é a capacitação digital de estudantes, desenvolvedores de start-ups, PMEs, desempregados e comunidades mais desfavorecidas onde se prevê que sejam abrangidos cerca de 30 milhões de africanos num futuro próximo”, revelou Da Silva. O programa Coding for Employment do Banco Africano de Desenvolvimento estabeleceu centros de tecnologias de informação e comunicação com universidades parceiras em todos os países onde opera e proporcionou formação de competências digitais a mais de 150.000 jovens. O objectivo é ampliar o programa para 130 centros de excelência em todo o continente por um período de 10 anos e criar milhões de empregos, criando sinergias com o sector público e privado em todo o mundo, para fornecer habilidades ágeis e colaborativas, orientadas pela demanda, para capacitar os jovens a se tornarem verdadeiros players inovadores na economia digital.
Os centros de desenvolvimento de Africa (ADC, sigla em inglês) da Microsoft que estão situados em Lagos e Nairobi são também um exemplo de uma história de sucesso para a companhia no continente. "Em Nairobi, por exemplo, a Microsoft já conta com mais de 450 trabalhadores a tempo integral, e em tendência crescente, actuando em áreas como engenharia de software, machine learning, ciência de dados, pesquisa de mercado, infra-estrutura, além de outros", disse, acrescentando que os projectos da Microsoft em África vão potenciar o talento dos africanos. “Acredito que este tipo de iniciativas vai ajudar na visibilidade do talento africano nas áreas de tecnologias e a estabelecer a África como um hub de inovação, uma vez que a Microsoft tem apostado fortemente no mercado tecnológico africano, reforçando parcerias estratégicas e o seu compromisso de capacitação de talento”, concluiu Da Silva.
Com estes investimentos a longo prazo, que traduzem uma aposta forte da Microsoft em África, espera-se que a próxima grande descoberta científica ou tecnológica do Séc. XXI venha a ocorrer em solo africano.
