Ainda no ventre da sua mãe, já sentia a arte dominar a sua existência. O quotidiano marcado pela presença de familiares e pessoas próximas que dela faziam um modo de vida transmitia ao novo ser que a sua vida só faria sentido após contacto com o misterioso universo das artes. Mauro Pinto nunca teve dúvidas de que a arte o tinha escolhido para melhor se comunicar com o mundo: “Posso dizer que tudo começou dentro da barriga da minha mãe. Ela tinha uma prima que era esposa de um artista. Além disso, tinha um tio de que talvez já tenham ouvido falar, o Jaimito Machatine, que foi um dos primeiros guitarristas de Moçambique. Comecei a ter esse contacto com a arte dentro da barriga da minha mãe, e isso ficou no meu subconsciente”.

“Sou um pouco introvertido e, por isso, prefiro que as coisas falem por mim.” 

Já no ensino primário, Mauro teve contacto com o fotógrafo Alexandre Júnior, pai de um dos seus colegas de escola e seu vizinho, acontecimento que fez despertar o “bichinho” que já carregava dentro de si. Com o tempo, o chamamento foi ganhando mais vida. Procurando abrigar-se na pintura, cedo percebeu que era na fotografia que encontrava expressão mais completa da sua existência. “Usava a pintura como forma para poder me expressar. Sou um pouco introvertido e, por isso, prefiro que as coisas falem por mim. No entanto, sentia que a pintura não conseguia transmitir aquilo que queria e acabou por encontrar na fotografia tudo o que procurava para se fazer chegar ao mundo. Assim, no final da década de 90, faz um curso de fotografia pela Monitor Internacional School, e, na mesma altura, um estágio com o fotógrafo José Machado. Em 2002 passa a encarar a fotografia de maneira profissional.

“Não se morre de véspera”
No desenvolvimento do seu trabalho, Mauro Pinto procura sempre gerar reflexões sobre a vida social. As suas fotografias são repletas de expressividade e convidam a mente a sair de si e penetrar no outro, para um estado de existência cada vez mais empático. “Parto do princípio de que todos nós temos o dever de cidadania e ética profissional. Eu olho sempre para as pessoas mais desfavorecidas e penso que devemos olhar mais para o outro de forma a melhoramos a saúde social e pública. É importante haver discussão para melhorarmos o nosso bem-estar como indivíduos. Estamos neste mundo de passagem e não podemos ter receio de falar. Eu sou um “artivista”, por isso digo, com frequência, esta frase da minha autoria “Não se morre de véspera”.

O fotógrafo e “artivista” (artista e activista) reúne trabalhos ao longo da carreira que convidam a análises e reflexões sociais. Tal é o caso do projecto “Visão desintegrada”, em que Mauro fotografou doentes mentais em ruas e hospitais psiquiátricos, ou até mesmo o projecto “Simplesmente criança”, que envolvia uma série de fotografias sobre crianças de rua. Mauro Pinto não mais parou de militar desde a sua primeira exposição individual, em 2002. Seguiram-se mais 50 participações em exposições colectivas, com destaque para Photography by Ricardo Rangel and Mauro Pinto, Mgnin-A Gallery (2011), The Past, The Present and the Between, na bienal de Veneza, em Itália (2019).
A voz de Mauro Pinto ecoa um pouco por todo o mundo, por meio das suas fotografias. A sua obra está representada em várias colecções nacionais e internacionais, tais como Musée Du Quai Branly, Paris; Jean Pigozzi Contemporary African Art Collection, Genebra; Colecção Manuel de Brito, Lisboa e College of Arts and Sciences, University of North, Carolina. O fotógrafo moçambicano colecciona prémios nacionais e internacionais ganhos em reconhecimento do seu trabalho de excelência. Tais prémios incluem o prémio Ricardo Rangel (2005), ganho no país, e, em 2012, o prémio BES Photo (Portugal), com o projecto fotográfico “Dá licença” em que, através de 12 fotografias captadas na Mafalala, retratou o interior de casas, paisagens, pessoas e ruas daquele bairro histórico.


Blackmoney, a antiga e sempre nova exposição
Recentemente o público ficou a conhecer Blackmoney, a mais recente exposição fotográfica de Mauro Pinto. Patente no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, a mostra pretende gerar reflexões em torno do Homem e da Terra. Em Blackmoney, Mauro Pinto traz uma visão delicada dos mineiros nas suas rotinas diárias de trabalho, traduzindo por meio de imagens o drama enfrentado nas minas e pelos mineiros em busca de condições para a sua sobrevivência. “Gosto de fotografar coisas que penso serem um pouco fora do normal, pessoas que trabalham em situações difíceis. Foi isso que eu quis trazer para gerar uma reflexão colectiva e, de forma colectiva também, podermos resolver”.

A experiência da exposição vai muito além do visual, é uma exposição que pode ser ouvida e sentida com o coração. Nela o visitante tem a oportunidade de ter uma experiência visual e sonora pois a disposição das fotografias no local imita uma verdadeira mina de carvão mineral. O áudio, que também imita o som das minas, ajuda o visitante a estar mais próximo da realidade retratada pelas fotos. Em dez fotografias, Mauro Pinto fala de cultura, sociedade e economia sem sequer dizer uma palavra. Em Maputo a mostra é inaugurada dois anos depois de ter sido exposta em Portugal e estará patente até o dia 15 de Outubro.

Como qualquer artista, Mauro Pinto tem sonhos profissionais que alimentam as suas esperanças para futuro e olha com alegria o que o presente já lhe permitiu realizar. “O maior sonho de um artista é poder ter o que eu estou a ter com esta exposição: ser surpreendido com a reacção das pessoas a cada dia. Vêm visitar a exposição pessoas que nunca entraram numa galeria, num museu, num centro cultural. Para mim, este é o meu maior ganho, poder ter estas novas pessoas a ver a arte”, concluiu o artista