A cidade de Maputo recebeu, no início de Março, um espectáculo teatral que colocou no centro do debate temas sensíveis como a violência de género, a equidade no sistema judicial e os direitos das mulheres. A peça Prima Facie, da dramaturga australiana Suzie Miller, com direcção de Expedito Araújo, regressou ao auditório Vinícius de Moraes, no Instituto Guimarães Rosa, entre os dias 5 e 8 e, novamente, a 10 de Março, integrada nas actividades da Semana da Mulher promovidas pelo programa ÍNTEGRA.

A reposição da obra aconteceu depois de uma primeira apresentação com lotação esgotada em Dezembro de 2025. Na ocasião, o espectáculo integrou a Semana de Combate à Corrupção e reuniu magistrados, advogados, estudantes e representantes da sociedade civil, abrindo espaço para uma reflexão pública sobre integridade, justiça e igualdade de género.

No palco, a narrativa acompanha Tessa, uma advogada de sucesso habituada a defender acusados em casos de violência sexual. A aparente solidez da sua carreira e das convicções jurídicas que a sustentam começa, porém, a ruir quando enfrenta uma experiência pessoal que a leva a questionar o funcionamento do sistema judicial, as relações de poder e a própria condição feminina. O texto expõe, de forma directa, as fragilidades de um modelo jurídico que, muitas vezes, não consegue responder de forma adequada às vítimas.

A encenação apresentada em Maputo trouxe uma abordagem inédita. A personagem central foi interpretada por onze actrizes, de quatro nacionalidades, numa sucessão de presenças em palco que reforçou a dimensão universal da história. O elenco reuniu artistas de Moçambique, Portugal, Itália e Espanha: Ana Fernandes, Ana Mesquita, Carmen Alcobio, Catarina Caetano, Gina Montserrat, Giselda de Castro, Inês Santos, Mar Correia, Neira Gafur, Tânia Nobre e Tina Lorizzo.

A direcção ficou a cargo do actor, encenador e pedagogo teatral brasileiro Expedito Araújo, cuja carreira completou três décadas. A tradução do texto para esta montagem foi realizada por Ana Mesquita.

A obra que deu origem à produção tem vindo a ganhar destaque no panorama internacional. Escrita por Suzie Miller, que antes de se dedicar à dramaturgia exerceu advocacia, Prima Facie foi traduzida para mais de trinta idiomas e apresentada em mais de quarenta países. O texto também ganhou adaptação literária em vários mercados. Entre as produções mais reconhecidas, destaca-se a versão protagonizada por Jodie Comer e dirigida por Justin Martin, distinguida com prémios como o Tony Award de Melhor Actriz e os Olivier Awards de Melhor Peça Nova e Melhor Actriz.

Em Maputo, a reapresentação do espectáculo integrou a campanha da Semana da Mulher promovida pelo programa ÍNTEGRA, iniciativa financiada pela União Europeia e co-financiada pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID). O projecto procura fortalecer a integridade no sector judicial e incentivar uma abordagem mais sensível às questões de género.

A experiência anterior demonstrou o interesse do público por este tipo de propostas. Em Dezembro de 2025, as sessões reuniram mais de 480 espectadores em apenas quatro dias, evidenciando a capacidade do teatro para estimular debate e consciência social.

Devido ao sucesso da série de apresentações, a peça regressará aos palcos em Abril, com novas datas a anunciar.

A programação de Março ganhou ainda um momento institucional relevante. No dia 10 foi lançado o Guião de Boas Práticas para o Processamento e Julgamento com Perspectiva de Género no Judiciário Moçambicano, elaborado pelo Centro de Formação Jurídica e Judiciária. A data coincidiu com o Dia Internacional da Juíza e sublinhou o papel das magistradas na promoção da igualdade dentro do sistema judicial.

O documento apresenta orientações práticas destinadas a apoiar decisões judiciais mais sensíveis às desigualdades de género, propondo recomendações que procuram tornar os processos mais equitativos. O seu lançamento reforçou o compromisso de diferentes actores institucionais com uma justiça mais consciente das assimetrias presentes na sociedade.

Entre teatro e debate público, Prima Facie voltou assim a ocupar o palco em Maputo como um espaço de reflexão colectiva. A encenação mostrou que a arte pode ultrapassar o campo da representação e tornar-se instrumento de questionamento, convocando o público a olhar de forma crítica para o funcionamento da justiça e para os desafios que persistem na defesa dos direitos das mulheres.