No norte de Moçambique, onde a instabilidade e as adversidades naturais se impõem como desafios diários, uma iniciativa inovadora tem provado que a resiliência e o desenvolvimento podem caminhar lado a lado. Liderado pela organização iDE (International Development Enterprises), um projecto agrícola baseado no mercado conseguiu não só melhorar a segurança alimentar, como também aumentar os rendimentos dos pequenos agricultores e facilitar o acesso a mercados. Os resultados são expressivos: uma redução significativa da pobreza entre os beneficiários da iniciativa, mesmo num cenário de insegurança e condições climáticas adversas. A Farmer Resilience and Rebuilding Initiative (FRRI), financiada pela USAID e implementada ao longo de três anos, contou com um investimento de 8,1 milhões de dólares. O programa, desenvolvido na província de Cabo Delgado, teve como objectivo central combater a fome, impulsionar a produtividade agrícola e fortalecer a economia local, beneficiando directamente 11.250 pessoas. A avaliação final do projecto revelou melhorias consideráveis na qualidade de vida dos participantes, demonstrando que o desenvolvimento sustentável é possível mesmo em regiões afectadas por crises.
Transformação em tempos de crise
A província de Cabo Delgado tem sido duramente atingida por ciclones e um conflito armado que já deslocou cerca de 732.000 pessoas. Muitos destes deslocados internos procuram refúgio nos distritos do sul, onde encontram comunidades anfitriãs igualmente vulneráveis e com poucos recursos para os acolher. Apesar deste cenário desolador, a iniciativa da iDE provou ser uma ferramenta eficaz na construção de resiliência e na promoção da estabilidade económica. Segundo Deepak Khadka, director da iDE Moçambique, a iniciativa foi estruturada para responder às necessidades imediatas dos agricultores e deslocados internos, enquanto criava bases sólidas para o crescimento a longo prazo. “Cabo Delgado enfrenta desafios imensos, desde fenómenos climáticos extremos até à deslocação forçada de milhares de famílias. As comunidades precisam de mais do que apenas ajuda emergencial – necessitam de ferramentas e conhecimentos para se reerguerem de forma sustentável. Este projecto demonstrou que, com os investimentos certos, é possível transformar realidades e criar oportunidades onde antes só havia incerteza”, afirmou Khadka.
No início da iniciativa, 60,8% dos participantes viviam abaixo da linha internacional de pobreza, fixada em 1,90 dólares por dia. No final do programa, esse número reduziu-se para 45,9%, evidenciando um progresso substancial. A análise dos resultados revelou que tal avanço foi impulsionado pelo aumento da produtividade agrícola e pela melhoria do acesso ao mercado.
Segurança alimentar e crescimento agrícola
O impacto do projecto na segurança alimentar foi notável. A insegurança alimentar severa, que afectava 66,1% das famílias no início do programa, caiu para 53,1%. Ao mesmo tempo, a insegurança alimentar moderada subiu de 17,3% para 37%, o que indica que muitas famílias deixaram de enfrentar situações extremas de fome. Outro dado relevante foi a melhoria da diversidade alimentar, com um maior número de agregados familiares a consumir seis ou mais tipos de alimentos regularmente.
A aposta na adopção de práticas agrícolas melhoradas e na popularização da produção de vegetais na época fresca foi um dos factores determinantes para este avanço. Antes da iniciativa, apenas 64% dos agricultores utilizavam técnicas agrícolas adaptadas ao clima; no final, essa percentagem aumentou para 99%, o que também se reflectiu na produção de vegetais, Hoje 100% dos produtores têm acesso a alimentos mais nutritivos através da horticultura. Este salto resultou num crescimento de 82% no rendimento médio agrícola por família. A produção de culturas de alto valor, como a do sésamo, teve um impacto directo no aumento da renda dos agricultores. Só as receitas provenientes deste produto registaram um crescimento superior a 160% ao longo do projecto. O fortalecimento do comércio local e o melhoramento das cadeias de distribuição foram igualmente essenciais para essa transformação.
Mercados acessíveis e integração económica
A capacidade de escoar a produção agrícola para mercados mais amplos foi outro dos êxitos do programa. No início, apenas 36% dos agricultores tinham acesso facilitado aos mercados; no final, essa percentagem subiu para 63%. Esta evolução foi impulsionada pela realização de 16 feiras comerciais de insumos e tecnologia, onde os agricultores tiveram a oportunidade de adquirir ferramentas e insumos agrícolas com subsídios. Cada feira reuniu, em média, 2.000 participantes, dinamizando o comércio local e fomentando relações comerciais sustentáveis. A estratégia das feiras, organizada durante a principal época de plantio e novamente na estação mais fria para o cultivo de hortícolas, permitiu que os agricultores não só reforçassem as suas práticas, como também estabelecessem contactos directos com fornecedores de insumos, fortalecendo a cadeia produtiva. Adicionalmente, a iDE criou e apoiou uma rede de empreendedores locais com formação, acompanhamento do desenvolvimento empresarial, ligações ao mercado e crédito. Só na última época de culturas de sequeiro os empreendedores rurais formados pela iDE compraram mais de 5 mil toneladas de cereais injectando cerca de 4 milhões de dólares americanos directamente nas comunidades rurais.
Impacto duradouro e perspectivas para o futuro
A avaliação do impacto do programa, conduzida através de um método misto de análise quantitativa e qualitativa, revelou que os participantes sentiram melhorias concretas nas suas vidas. Os dados indicam que a iniciativa não apenas aliviou as dificuldades imediatas, como também criou um caminho sustentável para o desenvolvimento económico a longo prazo. A abordagem participativa permitiu que os beneficiários expressassem as mudanças mais significativas que experienciaram. Entre os pontos destacados, ressaltam-se o aumento da produtividade, o fortalecimento da segurança alimentar e a maior autonomia económica das famílias agricultoras. Cabo Delgado enfrenta desafios múltiplos, desde desastres naturais até conflitos armados. No entanto, esta iniciativa demonstrou que, com uma abordagem focada e baseada no mercado, é possível criar soluções eficazes que tragam resultados concretos e duradouros. O sucesso deste projecto é um testemunho do potencial de Moçambique para superar adversidades e traçar um caminho de crescimento e resiliência. O futuro da província dependerá de investimentos contínuos e de estratégias inovadoras que não apenas respondam às necessidades imediatas, mas que promovam uma transformação estrutural sustentável. Os resultados desta iniciativa deixam um recado claro: com as ferramentas certas, as comunidades podem não só sobreviver, mas prosperar.
