Ivan Barros

O rock, a paixão pela dança e o contar histórias em vídeo

Escrito por: Jaime Álvaro 

Depois de seis anos a fazer televisão, Ivan Barros decide, em 2012, criar a sua própria produtora de vídeos, para atender a uma necessidade tanto profissional quanto pessoal, que era contar, através de vídeos, histórias inspiradoras sobre Moçambique e o que há de melhor no país, os moçambicanos. Antes disso, este videógrafo moçambicano experimentou outras áreas artísticas, primeiro a música, como guitarrista de uma banda de rock, e depois a dança, mas como mero expectador. 
Filho de António Barros, um dos comunicadores mais conhecidos de Moçambique, Ivan Barros não esconde que o legado do pai teve nele influência, desde sempre: "Meu pai é jornalista e cronista de profissão, com mais de 35 anos de experiência. Então, desde pequeno que eu vivo essa coisa de comunicação" - filho de peixe sabe nadar, como diz o provérbio português que justifica o seu DNA. Às narrativas que o pai sempre contou através de uma rubrica da Antena Nacional da Rádio Moçambique (RM), Ivan acrescentou imagens e conseguiu impor a sua própria voz na comunicação.

Aos 12 anos, Ivan já produzia um programa de rádio para o pai. Seleccionava as matérias e as músicas que iam ao ar. O bichinho da comunicação foi crescendo com a exposição à rádio e, sobretudo, aos livros. "Ouvia muito a rádio e o meu pai incentivava-me muito a ler. Não só a mim, como também aos meus irmãos. Ele comprava-me muitas enciclopédias e várias revistas. Eu consumia muitas histórias literárias porque a minha casa era uma autêntica biblioteca. Tínhamos uma colecção de livros que não acabava mais", assim recordou a sua infância e bons hábitos que ainda hoje cultiva.

Embora nascido sob o calor intenso de Tete, em 1979, Ivan passou toda a sua infância na cidade de Quelimane, província da Zambézia, antes de se mudar definitivamente para Maputo, por motivos relacionados com os estudos. Por isso, tem toda a legitimidade ao se considerar um quelimanense de gema. Hoje, com 43 anos de idade, Ivan é formado na área de comunicação, tendo trabalhado, durante alguns anos, como desenvolvedor de websites e criador de conteúdos.

Rock: a primeira paixão antes da dança 
Está comprovado que a música e a criatividade são ingredientes perfeitos para manter a mente focada e produtiva. Durante muitos anos, Ivan era uma coisa a maior parte do seu tempo, e guitarrista de uma banda de rock nos tempos livres. "A banda era composta por mim, na guitarra, um irmão meu, na vocalização, um primo no baixo, e mais um amigo na bateria.” Era a Kaspanatola, fundada em 2002. Começou por tocar um estilo punk, depois experimentou algo mais pesado, agressivo e intenso. Abreviou o nome para Kaspa para rimar com a mudança. Entretanto, o grupo manteve intactos os objectivos pelos quais foi criado, e a diversão estava acima de qualquer outro. Ao longo da curta carreira que teve, essa banda de jovens aventureiros apresentou-se em vários palcos, destacando-se o Estádio da Machava, a Praça da Independência, o Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM), entre outros.
Apesar do sucesso da banda, Ivan sempre manteve os pés assentes na terra. A realidade nunca o deixou sonhar além do que podia. “Desde que integrei a banda, sempre a olhei como um projecto paralelo à minha actividade profissional, porque, estando em Moçambique, tocar rock foi sempre por amor à camisola e um hobbie. Nunca tive a ilusão de que poderia fazer daquilo a minha vida", disse, admitindo, contudo, saudades de um palco e de um som alto e agressivo da sua guitarra, arrumada em 2012. No mesmo ano em que o grupo se dissolveu, Ivan abriu a sua própria produtora de vídeos, depois de uma passagem pela televisão. Em 10 anos de estrada a banda Kaspa não chegou a editar nenhum disco original.

A passagem pela televisão 
A trajectória de Ivan Barros pela televisão é notória pelas funções de liderança que ali desempenhou. Mas como foi que um informático e roqueiro amador chegou à televisão? 

Ivan organizava festivais de rock em Quelimane, com fundos próprios, também por amor à camisola, segundo seus relatos. Os festivais tinham por objectivo promover o rock, um estilo marginalizado pelos promotores de espectáculos da época. "Como ninguém nos chamava, tínhamos que organizar os nossos próprios shows, com meios próprios", contou. "João Ribeiro ficou a saber que eu organizava festivais de rock quase não tendo nenhum orçamento, mas que as coisas corriam bem. Penso que ele terá visto em mim alguma capacidade para fazer produção, que nem eu sabia que tinha, e convidou-me a coordenar a produção da STV (Soico Televisão), em 2007."

Passados seis meses, Ivan foi nomeado Director de Programas daquele canal privado. “Percebi muito rapidamente que o vídeo era aquilo de que realmente gostava. Eu tinha que aprovar alguns conteúdos antes de irem para o ar, e comecei a aprender como se fazia televisão observando os colegas a trabalhar.” Entre os programas de entretenimento que liderou são de destacar o Fama Show, o Fest Coros e o Music Box Live.

Após um ano e meio na STV, Ivan é convidado a assumir a direcção de programas na Televisão Independente de Moçambique – TIM, canal que veio a extinguir-se. "Tudo o que eu aprendi na STV, que era uma excelente escola, implementei e aperfeiçoei na TIM durante cerca de cinco anos, e em toda essa trajectória nunca pensei abrir uma empresa, porque, na minha visão como artista, não queria lidar com impostos. Eu pretendia sempre trabalhar para alguém", revelou. Contudo, desiludido com o que encontrara na televisão, Ivan ganhou coragem, enfrentou os seus medos e decidiu abrir a sua própria produtora de vídeos, com a missão de contribuir para o desenvolvimento audiovisual nacional.


Veio a desilusão, depois a auto-realização
Há 10 anos, em 2012, Ivan Barros abriu uma pequena produtora de vídeos, a Ampola Audiovisual, focada em vídeos corporativos e histórias humanizadas. "Deixei de acreditar nos canais de televisão nacionais porque deixaram de ser veículos que contavam histórias sobre Moçambique e sobre moçambicanos para passarem a ser programas de rádio com imagens. A maior parte da grelha era feita de programas de debate ou de conversa. Já não havia reportagens, não havia conteúdos em vídeo que contassem histórias do quotidiano moçambicano. Vi então que, se calhar, era hora de enfrentar os meus receios e abrir a minha produtora de vídeos. Fui também muito influenciado pela minha esposa, que me deu muito suporte nesse momento para eu deixar de ser assalariado e passar a mandar no meu destino profissional.”

Neste papel de videógrafo, Ivan já percorreu todas as províncias do país para contar histórias de sucesso de organizações não governamentais, empresas, projectos e/ou pessoas, o que lhe tem permitido mostrar a todos os moçambicanos um pouco de todo o país. "Sinto-me um profissional realizado porque através das minhas lentes conto um Moçambique pobre, mas um Moçambique de pessoas que acreditam que o amanhã pode ser melhor. Eu acho que contar essas histórias ajuda a mostrar a outros moçambicanos que não podemos perder a esperança.” E o Director Criativo da Ampola Audiovisual exemplifica: "Quando fomos contar histórias de quem sofreu os efeitos do ciclone Idai e todos aqueles ciclones que vieram a seguir na região de Búzi, província de Sofala, vimos pessoas que não desistiram, que continuavam a batalhar, a lutar para dar um futuro melhor aos seus filhos. São histórias que emocionam e que nos fazem perceber que na vida há coisas mais importantes que certas futilidades que temos no ambiente urbano. Acho que isso nos torna mais humanos.”

Sempre entusiasmado, Ivan diz que ama Moçambique, e que não viaja só para cumprir uma agenda de trabalho, mas também para conhecer as realidades locais para além daquilo que foi proposto a fazer. Alguns projectos marcaram, como um programa produzido durante seis anos para o Ministério da Agricultura, o “Moçambique Criando Riqueza”, exibido na Televisão de Moçambique (TVM). Segundo Ivan, foi “um projecto espectacular, que não falava de política, mas de técnicas agrárias". Servia de ponte para vários produtores de vários pontos do país trocarem experiências.

“Cada vídeo que produzo é como um bebé para mim. Tem algo especial porque em todos eles eu tento crescer mais um pouco profissionalmente. Todos me obrigam a alguma pesquisa e isso torna-me um profissional melhor do que era. Então, todos eles têm uma história peculiar.” A qualidade, o profissionalismo e o entusiasmo fizeram de Ivan um profissional cujos serviços são bastante requisitados no mercado nacional. Entre os seus clientes destacam-se o Banco de Moçambique, o WWF, a Higest, a OXFAM e a AGRA, entre outros.

“Sinto-me um profissional realizado porque através das minhas lentes conto um Moçambique pobre, mas um Moçambique de pessoas que acreditam que o amanhã pode ser melhor” - Ivan Barros

Vídeo e dança: um casamento predestinado
Ivan Barros encontrou, na verdade inventou, no vídeo, uma oportunidade para viver e eternizar uma das suas grandes e antigas paixões, a dança contemporânea. “Eu não danço e nem gosto de dançar, mas adoro dança. Já fui desafiado até a aprender a dançar. Mas, para mim, não se trata de uma questão de aprender. Eu não gosto de dançar, mas adoro ver dança", revelou.

A relação de Ivan com esta arte iniciou-se com um encontro com dois pesos pesados da dança contemporânea moçambicana, Edna Jaime e Ídio Chichava. "Os bailarinos contactaram a minha banda para produzir, ao vivo, a trilha sonora para acompanhar uma peça que eles estavam a conceber. Passaram-se 20 anos, e nós, até hoje, somos grades amigos.”
Ivan tornou-se especialista na produção e realização de vídeos e filmes de dança contemporânea em Moçambique. O seu catálogo inclui “Começa a ficar tarde”, Prémio Novos Autores, do Festival de Cinema de Curta-Metragem Kugoma 2020, e “Último berro: Corpo em Estado de Emergência”, ambos filmes interpretados pelo bailarino Ídio Chichava; “Um segundo” interpretado pela bailarina Edna Jaime; “Motus Corporis”, com o coreógrafo e bailarino Lulu Sala; “In-box” interpretado por Pak Ndjamena, exibido no mais antigo festival africano de dança contemporânea, Jomba, em Durban, na África do Sul, e em alguns festivais na Europa. Grande parte das produções foram independentes, tendo outras contado com o apoio material e financeiro do Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), no âmbito de apoio à classe artística, drasticamente afectada pela pandemia da covid-19. "Chamo a esses projectos colaborativos ‘projectos de paixão'; não há nenhum retorno financeiro, mas para mim funcionam como um escape do mundo corporativo, onde tudo é mais controlado. Portanto, quando estou a produzir ou realizar vídeos de dança, estou livre para experimentar técnicas, até para ser politicamente incorrecto do ponto de vista de regras de filmagem", sustentou. “In-box” descreve a situação actual que o mundo vive e discute sobre a resiliência humana e a esperança de que o mundo, e Moçambique, em particular Cabo Delgado, precisam. O filme recebeu uma crítica positiva nos festivais em que passou e foi, igualmente, requisitado por alguns professores universitários de universidades sul-africanas e do Reino Unido para ser usado em aulas de dança. "Isso demostra que, quando fazemos algo bem feito, atravessa fronteiras. Quando a gente quer fazer algo, não pode olhar para o dinheiro como objectivo primordial. O sucesso será uma consequência, seja em termos de dinheiro seja de prestígio", aditou.

Ainda com o bailarino e também realizador Pak, Ivan apresentou, em directo, um espectáculo de dança, via streaming, no TANZAHOi - International Dance and Dance Film Festival, da Alemanha. A performance dos artistas foi gravada em Novembro de 2021 na Fundação Fernando Leite Couto. "Quando estou a produzir os filmes, não penso muito no impacto que poderão ter, mas sim na satisfação que eu e os bailarinos teremos com aquele produto audiovisual. E, se ele for bem recebido pelo público, é claro que, como profissionais, como artistas, ficamos superlisonjeados", justificou.

Os vídeos e filmes de dança referenciados podem ser acessados através do canal do YouTube de Ivan Barros, que afirma que, se ele não fosse um contador de história, quereria ser um pássaro ou um piloto. "Adoro ver os pássaros explanar as asas com toda a liberdade que um ser vivo pode almejar", concluiu. Ivan, que é casado e pai de dois filhos, promete continuar a contar histórias sobre o quotidiano dos moçambicanos, para as partilhar com Moçambique e com o mundo.

Instagram: @ivanrsbarros