Irene Boane, mais que uma sapateira
Escrito por: Jaime Álvaro
Irene Boane aprendeu a arte de consertar sapatos com seu pai, quando atingiu a maioridade (18 anos). É, muito provavelmente, a única mulher, pelo menos na cidade de Maputo, a trabalhar neste ramo, dominado pelos homens, o que a torna especial. Mais que uma sapateira, Irene é um símbolo da luta pela igualdade de género e é uma prova inequívoca de que muitas profissões estereotipadas também podem se ditas no feminino.
A jovem, de 23 anos de idade, é estudante universitária e frequenta o segundo ano do curso de Agropecuária, na Universidade Pedagógica de Maputo (UP). O dinheiro que ganha na rua, a consertar e a engraxar sapatos, investe, quase na totalidade, nos seus estudos. A sua renda mensal varia entre dois e três mil meticais.
“Faço essa actividade como forma de me apoiar para terminar os meus estudos. Sinto-me muito honrada por estar a exercê-la, muito especial, ainda ao lado do meu pai. Foi ele quem me ensinou o trabalho do qual hoje me orgulho, depois que concluí o ensino secundário. Não podia esperar mais dele. Ele ensinou-me uma arte para toda a vida. É a melhor lição que um filho pode receber do pai”, explicou a jovem sapateira onde busca forças para continuar firme com o seu o trabalho, mesmo debaixo do sol, da chuva e preconceitos.
Há cinco anos que Irene exerce a actividade de sapataria. Conta que já teve dias difíceis, e, na verdade, continua a ter. E, vezes sem conta, já pensou em desistir e arranjar uma outra ocupação. Mas o seu mentor, o pai, sempre a apoiou a fazer o que para muitos continua a ser um trabalho exclusivamente para homens.
Irene é um símbolo da luta pela igualdade de género e é uma prova inequívoca de que muitas profissões estereotipadas também podem ser ditas no feminino
“Não é fácil, e nunca foi. Existem muitos preconceitos relacionados com a sapataria. Mas tenho conseguido superá-los graças ao apoio que alguns clientes me dão. Já fui desprezada várias vezes, pelos mesmos clientes que hoje me apoiam. Aquilo tirava-me o moral de vir trabalhar, mas meu pai sempre dizia para mim: “Filha, foca-te. Tu não estás ali pelas pessoas, tu estás ali por ti”. Então, foi isso que me fortaleceu para estar aqui até hoje.” – assim destacou Irene as palavras de incentivo do pai em momentos de indecisão.
“Já chegaram muitos clientes à procura de um sapateiro, e, quando eu me apresentava como sapateira, ficavam espantados. Alguns admiravam-se e outros não. Então eu faço sempre perceber, àqueles que não gostam, que sigam em frente”, atirou Irene, com pesar, antes de prosseguir. “É errado medir a capacidade das pessoas através do género. Eu gostaria de incentivar todas as mulheres que neste momento não estão a fazer nada a fazerem qualquer actividade honesta para gerar algum rendimento. Não existe profissão para homens ou mulheres. Não se pode ter vergonha de um trabalho honesto, porque nos dignifica. Do que se tem que ter vergonha é de roubar ou de se prostituir.”
Mesmo gostando de estar na rua, o que lhe permite um contacto mais próximo e humano com os clientes, a futura engenheira agrónoma não quer ali continuar por muito mais tempo. “Até agora, o meu foco é terminar os meus estudos. Após a minha graduação, quero desenvolver o meu projecto de fábrica de calçado, com a minha marca “IS” (Irene Shoes) estampada em cada artigo. Quero calçar Moçambique”, perspectivou a jovem um futuro risonho para si, revelando depois a paixão que sente pelo trabalho que faz, que, segundo ela, é mais do que consertar sapatos.
“Quando o meu pai me convidou a exercer esta actividade, eu fiquei muito chocada, porque nunca tinha visto nenhuma mulher nesta área. Não foi fácil aceitar. Mas, passado algum tempo, acostumei-me à ideia, e hoje amo o que faço. Sou uma “médica de sapatos” que, além de recuperar os sapatos dos clientes, ajuda-os a recuperar a sua auto-estima, porque ninguém, na verdade, gosta de andar com um sapato descolado. Não é nada confortável”, grifou.
Nunca sabemos quando vamos precisar dos serviços de um sapateiro. Portanto, saber onde encontrar um consertador de sapatos é uma informação profícua. Por isso, anote o endereço de Irene, a médica de sapatos: “Quem quiser os meus serviços que venha até aqui ao bairro do Alto-Maé, na Avenida da Zâmbia, esquina com a Avenida 24 de Julho, na Pastelaria Versalhes. Venham porque é um trabalho de qualidade e, atenção, feito por uma mulher”, concluiu.
