Saiu de Moçambique no dia 1 de Janeiro de 2015 com a promessa de que esse novo ano lhe daria, sem dúvida, uma nova vida. Quando começou a universidade, um mundo de aromas, ritmos e cheiros se abriu para si, Inês Vieira, chef de cozinha, moçambicana.
A jovialidade de Inês deu-lhe asas. Com licenciatura em artes culinárias e em gestão de negócios e mestrado em cultura alimentar mundial e mobilidade, desde os 20 anos que anda a saltitar de um lado para outro. Agora assentou na margem no Rio Mississippi, em Nova Orleães, Estados Unidos da América
Consciente de que a visão que tinha daquele país era resultado de uma construção mediática, Inês Vieira depressa percebeu que nem tudo era como pensava, já que as mensagens vistas em filmes, televisão ou livros não mostram toda a realidade. “Estar em Nova Iorque é muito diferente de estar em Chicago ou Nova Orleães, mesmo que a distância geográfica seja pouca. O estilo e a qualidade de vida são completamente diferentes”, conta-nos, através de um áudio de WhatsApp, prosseguindo: “Eu acho que tinha mais a ideia de encontrar um certo envolvimento e de que as coisas fossem muito mais funcionais. A verdade é que eu vivo num dos estados mais pobres do país – Louisiana – e surgem algumas questões de que eu não estava à espera e que afectam muito a vida quotidiana.
Do Niassa à Ponta de Ouro, a chef gostaria de eternizar o que de melhor se faz em Moçambique e levar a que toda a gente compreenda a riqueza dos sabores nacionais.
Um dos motivos pelos quais eu escolhi vir para Nova Orleães foi, de facto, a gastronomia, por ter uma referência com muitas referências. Aprendi muito sobre a forma como as pessoas consomem a sua comida, e aqui, no sul do país, encontrei a resposta para compreender isso melhor. O prato do Jambalia, por exemplo, tem ligação com o nosso conhecido arroz malandrinho, ou com o arroz de tomate, com mais ingredientes, como os vegetais”, acrescenta.
A dedicação que Inês tem pela cozinha sentiu o mesmo abalo que a indústria sofreu durante a pandemia da covid-19. O sector da gastronomia foi, aliás, dos mais abalados, com milhares de restaurantes a fecharem as suas portas, o que dificultou bastante a carreira de Inês Vieira. Enquanto a jovem chef repensava a sua carreira, decidiu voltar a estudar, na altura para o mestrado.
Embora tivesse ouvido que esta era uma área dominada por homens, Inês só depois compreendeu que o facto de ser mulher, e jovem, era um dos factores mais desafiantes que encarava ao seguir o seu amor pela cozinha. Preocupada em trabalhar o seu posicionamento e no desenvolvimento da sua carreira, gostaria de implementar um projecto com maior incidência em educação alimentar: “Educar mais pessoas sobre como comer de forma rica e balanceada, com foco nos ingredientes nacionais. Eu gostaria muito de preservar a nossa memória gastronómica.”
Do Niassa à Ponta de Ouro, a chef gostaria de eternizar o que de melhor se faz em Moçambique e levar a que toda a gente compreenda a riqueza dos sabores nacionais. Como? Passar mais tempo com quem cozinha as nossas coisas. “Eu gosto muito de sair da minha zona de conforto para aprender sempre mais coisas. Tento seguir chefs com quem me identifico e restaurantes onde eu possa sempre aprender. Estar entre artigos académicos – especialmente sobre tópicos de que não temos tanto conhecimento – e conversas com outras pessoas, é a melhor forma de me desenvolver. Estar exposta à diferença é a melhor forma de crescer’.
