O nosso começo foi meio que uma brincadeira, um pouco como tudo nestes últimos 14 anos. Sempre fomos grandes apreciadores do stand up comedy e, um determinado dia, enquanto assistíamos a um espectáculo do Kevin Hart, percebemos que em Moçambique não existiam fazedores, que havia espaço no mercado, e que poderia ser uma óptima oportunidade para começar algo novo. Criámos um folheto simples, onde convidávamos o público a participar de um casting, e fomos pessoalmente distribuí-lo nas universidades e pontos de aglomeração de jovens. O casting correu, digamos, lindamente mal. Não vieram assim tantos participantes, e os que vieram não convenceram. Quase no finalzinho, apareceram – bastante atrasados – dois jovens, sentimos em ambos a chama da paixão pela comédia e decidimos apostar neles. Na ausência de fazedores de stand up comedy, tínhamos que formar e capacitar aqueles que já traziam consigo algum talento que haviam adquirido através de anos de experiência em teatro num grupo local. Assim começou o nosso percurso, que, em Novembro deste ano, faz 14 anos. O início foi fraquinho, porque havia muito desconhecimento, por isso tivemos que fazer um trabalho de educar o público, misturando sketches (curtas peças de teatro) durante o nosso espectáculo. Muita coisa mudou desde então, estamos orgulhosos do que fomos conquistando, e hoje em dia podemos dizer que o stand up em Moçambique está no bom caminho. Fazer rir é uma missão que levamos muito a sério. Há muito trabalho de equipa por detrás de cada aparição nos palcos. Gostamos de acreditar que o nosso segredo se remete a dois aspectos principais: o primeiro é que se procura sempre ter um trabalho que é feito com a união de grupo. Cada um de nós tem as suas particularidades e valores, e complementamos o trabalho uns dos outros. O segundo e muito importante motivo é a nossa consistência. Apesar as adversidades, nós procuramos manter-nos consistentemente cómicos em todas as nossas interacções, presenciais ou online.
Gostamos de dizer que trazemos assuntos corriqueiros do quotidiano dos moçambicanos de forma leve e descontraída, sempre com uma dose de humor. Desde aquelas relações amorosas complicadas, os tempos de escola, da nossa infância, até mesmo os melhores (ou piores) anos da universidade. Ao contrário do que muitos pensam, há sempre muita pesquisa associada ao fazer humor. É importante estarmos constantemente atentos ao que se passa no país e no mundo, e sermos capazes de adaptar esses acontecimentos à comédia. Acreditamos que, quanto mais próximos os temas forem do nosso público, mais e melhor eles irão reflectir-se nessas piadas, fazendo rir muito mais. O nosso país é muito vasto, e com povos muito diferentes, mas algo que temos todos em comum é a capacidade de rir, mesmo em situações adversas. É nisso que nos inspiramos para extrair os nossos temas: na tia que cozinha a salada o funeral, nas nossas peripécias da escola, na relação entre casais, nos nossos empregos, e por aí em diante. Felizmente, material não nos falta, o que às vezes nos dificulta é a percepção de quem escuta. Hoje as pessoas estão mais sensíveis e literais, e esquecem o lado engraçado dos que abordamos. Se fizermos piadas de gays, estamos a ser homofóbicos, se fizermos piadas de mulheres, estamos a ser machistas, etc. É por isso que, durante as nossas performances, procuramos acautelar que o nosso público perceba a piada como isso mesmo... uma piada. Não se trata da opinião, ou visão do humorista.
“Fazer rir é uma missão que levamos muito a sério. Há muito trabalho de equipa por detrás de cada aparição nos palcos”
Nos dias que correm já temos no país grandes fazedores da nossa modalidade artística, dentro e fora do grupo. Nomes como Txopito, Borges Makwakwa, Menezes, Rico Biosse, Maira Santos, Mário Mabjaia, já são figuras incontornáveis no panorama nacional, que começaram nos nossos palcos, ou trabalham connosco com alguma regularidade. A nível internacional, inspiramo-nos em Gilmário Vemba, Fernando Rocha, Herman José, Os quatro Amigos, Fábio Porchat, Rodrigo Marques, a nível da lusofonia, e Kevin Hart, Chris Rock, Trevor Noah, no que toca aos falantes de língua inglesa. Já tivemos o prazer de partilhar o palco com algumas dessas referências, em Moçambique, Portugal e Angola.
A pandemia veio afectar o mundo inteiro, e connosco não foi diferente. O recolher obrigatório e os pedidos para que as pessoas se mantivessem em casa afectou-nos tremendamente. O mundo virtual apareceu como uma alternativa viável, mas verdade seja dita: é no contacto interpessoal que existe o je ne sais quois de se fazer a arte, é aí que nos sentimos bem e queremos estar. Foram 2 anos sem podermos estar num palco presencial com plateia, e partilhar bons momentos e gargalhadas. Não podíamos ver a hora de voltar aos palcos, a nossa paixão.
Pensamos que, hoje em dia, não se pode falar em arte sem as redes sociais e o mundo digital. Cada vez mais o mundo está a tornar-se numa aldeia global, e diariamente somos bombardeados com arte (da boa à má) e, por outro lado, podemos fazer a nossa arte chegar mais longe. Desde o nosso surgimento, o universo online foi sempre vital para o nosso trabalho, é através das redes sociais que nós somos capazes de interagir com o nosso público, e de trazê-lo para as salas de espectáculos. Por outro lado, é nas redes sociais que nós acompanhamos as novas tendências do stand up e do humor pelo mundo fora, de uma forma geral, o que nos faz estar constantemente a aprender coisas novas e a desenvolver a qualidade das nossas apresentações. Num mundo tremendamente globalizado, onde o acesso ao nosso trabalho está na distância de um clique, pensamos que devemos olhar para a cultura como um cartão de visita de Moçambique para o mundo. E é importante perceber que, ao fazer comédia, e partilhando-a com o mundo, estamos a partilhar aquilo que nos torna únicos e a afirmar a nossa forma de estar, a nossa moçambicanidade.
Ao caminharmos para o nosso 15º aniversário, gostaríamos de estar mais presentes na vida e no dia-a-dia dos moçambicanos. Este ano conseguimos realizar um dos nossos sonhos, estar na televisão, e esperamos nos próximos tempos poder realizar espectáculos em todas as províncias do país. Porém, o nosso trabalho precisa de mais suporte, quer por parte do público quer das marcas que investem em eventos. Para o futuro? Rádio, mais televisão, podcasts? Tudo pode acontecer. O céu já não é o limite.
Belas histórias vividas pelo Improriso
Uma história emocionante ocorreu quando um dos nossos humoristas teve um incêndio em sua casa, ficando ele e a sua família sem praticamente nada. Imediatamente solicitámos apoio aos nossos amigos e seguidores, e realizámos um espectáculo beneficente, para onde as pessoas traziam bens e roupas. O espectáculo foi um sucesso, e conseguimos ajudar o nosso artista a recomeçar a sua vida.
Uma vez produzimos um espectáculo dedicado ao amor e, algumas horas antes, fomos contactados por um jovem que queria pedir a namorada em casamento em palco. Foi um momento especial para eles, e para nós também. Voltámos a encontrar-nos com o casal há pouco tempo. Estão casados e felizes.
