Hip Hop Moz
Escrito por: Jaime Álvaro
Reza a história que a primeira música de Hip Hop a ser gravada no nosso solo pátrio terá sido do músico zambeziano Eduardo Carimo, cujo título, “Temos que ir à escola”, nos remete para um dos (nove) elementos do Hip Hop, o “Conhecimento”, que hoje em dia é pouco explorado para influenciar decisões e mudanças sociais profundas de forma generalizada. O que aconteceu para que o Hip Hop deixasse de ter essa poderosa expressão? Já lá vamos.
O Hip Hop é definido como um movimento cultural surgido no Bronx, gueto nova-iorquino, na década de 1970. A sua sonoridade carrega influências de diversos estilos musicais, na sua maioria de origem negra, como o blues, o funk ou o reggae. Considera-se seu pai o Disc Jokey (DJ) Clive Campbell, mais conhecido por Kool Herc. Outro nome importante na cena do Hip Hop é Afrika Bambataa, também DJ, que em 1974 criou uma organização não-governamental chamada Zulu Nation, que teve um papel crucial no desenvolvimento daquela que é considerada “a arte de rua” como um veículo de intervenção social.
Em Moçambique, o provável timoneiro do género musical Hip Hop não era um rapper nem um MC, cujas diferenças estão mais adiante. Eduardo Carimo era um multi-instrumentista zambeziano, da música ligeira moçambicana, que simplesmente queria transmitir aos jovens uma mensagem positiva. Para tal, usou uma linguagem que os jovens pudessem perceber facilmente, o RAP (Ritmo, Arte e Poesia), género que influenciou o estilo de vida de muitos jovens nos finais da década de 80.
Por essa via, “ele acabou sendo um pioneiro, no sentido de que foi o primeiro a gravar oficialmente num estúdio com uma qualidade boa, que é o estúdio da Rádio Moçambique, uma música que mais tarde se acabou designando RAP”, afirma o investigador moçambicano Emídio Cossa, autor do livro “Ritmo, Alma e Poesia: A História e as Estórias do Hip Hop em Moçambique”. A obra, de 239 páginas, descreve o percurso do Hip Hop moçambicano, aliás, feito em Moçambique, como o autor esclarece, desde os seus primórdios até aos dias da data de publicação (2019).
“Se quisermos falar do Hip Hop moçambicano, tal significa que estaríamos a falar de um Hip Hop com características identitárias de Moçambique. O Hip Hop moçambicano ainda está a tentar se encontrar, ou seja, ainda tem características muito típicas do Hip Hop feito no seu local de origem, que é os Estados Unidos. Portanto, temos um Hip Hop feito em Moçambique, mas ainda não temos um Hip Hop moçambicano, no sentido de nos identificar”, sublinha o pesquisador, que entrevistou mais de cinquenta intervenientes da cultura Hip Hop no país, entre rappers, Mc’s, produtores, bailarinos, produtores de espectáculos, Djs, grafiteiros e jornalistas.
Entretanto, o fundador da Associação Siderurgia – Núcleo de Hip Hop reconhece existirem, no país, alguns artistas e grupos que procuram autenticidade nas suas obras artísticas, através da valorização da cultura local. “Existem muitos grupos que estão a construir música nesse sentido (identitário). Músicos que usam instrumentos típicos moçambicanos e músicos que usam as línguas nacionais para se expressarem, músicos que também misturam as coisas, tanto ritmo quanto a poesia que fazem, é característica nossa, como é o caso do Xitiku Ni Mbawula, Timbone ta Jah, Big L, Homoplata, Thayman Wakopenga na Ndzero, Infernal Família, assim por diante. Mas ainda são poucos para se falar de Hip Hop tipicamente moçambicano.”
Existem muitos grupos que estão a construir música no sentido identitário, mas ainda são poucos para se falar de Hip Hop tipicamente moçambicano
Influências da globalização no Hip Hop moçambicano
Ao contrário desta corrente, que procura uma identidade original, há também rappers da nova geração cuja tendência, mais do que parecer, é ser cada vez mais estrangeiro (entenda-se americano) no estilo de música que fazem, em conteúdo e até na forma de ser e estar. É chamado Hip Hop de exibicionismo, Hip de Hop ostentação, que tanto atrai quanto faz divergir muitas opiniões.
DJ Sydney, fundador da GM Records, editora de Hip Hop, apoia os fazedores desse tipo de música e argumenta. “Eu, pessoalmente, apoio muito a Nova Escola. Fui uma das pessoas que lançou o álbum de Bander, Trap Boys, o Shabba. Se calhar é o momento de nós olharmos para os rappers da nova escola e apoiá-los naquilo que fazem. É preciso respeitar e apoiar o que eles estão a fazer. Nós gostamos de apontar o dedo ao produto local, mas somos os primeiros a consumir muito “lixo” importado, alegadamente por não entender o teor das músicas”, retorquiu.
A Revista Xonguila conversou também com Rei Bravo, um novo fenómeno do Rap interventivo nacional, natural de Lichinga, província nortenha do país. Bravo, que começou a sua carreira na música em 2006, influenciado por Azagaia, Dama do Bling e Young Lobengula e SSP, defende a liberdade de criação: “Eu olho para o Rap feito pela minha geração como uma cultura aberta. Abandonamos muito as raízes, mas já não temos controlo disso. Hoje cada um tem a liberdade de fazer o estilo de Rap que lhe convier fazer. Eu escolhi o de intervenção social. A internet democratizou o mundo. Graças a ela temos a liberdade de apresentar os nossos trabalhos na hora que quisermos, com a possibilidade de alcançar grandes e diferentes audiências pelo mundo. Seria muito difícil se ainda dependêssemos apenas das rádios e TVs”, assim critica o jovem rapper o monopólio de oportunidades que se verifica nos media tradicionais.
O empresário musical DJ Sydney defende que é preciso pautar pela quantidade para depois pensar na qualidade. E a Nova Geração de Rap, muitas vezes criticada pela falta de mensagem construtiva em suas músicas, tem sabido interpretar a tese. “Nós, como GM Records, sempre olhamos para a quantidade como um passo para se chegar a qualidade. Eu sempre defendi essa questão. Se tu tiveres muita quantidade, a qualidade será automática. Muita gente, no início, criticou muito a produção de CDs vulgo maquetes duplicados, mas é importante perceber que nós não criámos a GM Records para perder dinheiro, porque nós podemos produzir CDs na África do Sul, mas a questão é: quem nos garante que esses CDs vão ser vendidos?”
Desde a sua fundação, em 2017, a GM Records já editou 61 álbuns de Hip Hop nacional. “A ideia da GM Record surge para responder à necessidade de edição e reprodução de CDs e assim contribuir para o desenvolvimento do Hip Hop nacional. Infelizmente, ainda não editámos nenhum álbum de uma female rapper, devido às dificuldades de negociação que enfrentamos com os managers de tais rappers, que muitas vezes não facilitam, não compreendem a nossa forma de trabalhar. A maior dificuldade é fazer perceber, primeiro, aos fazedores do Rap, e à sociedade em geral, que fazer música é negócio”.
Um dos mais recentes álbuns a ser editado pela discográfica foi de Danilo Malele, conhecido por Kloro, no panorama musical. O álbum de estreia deste rapper, ex-integrante do extinto grupo de Hip Hop Trio Fam, chama-se “Revolução Cultural” e tem 12 faixas. A direcção de produção esteve a cargo do renomado produtor Ellputo.
Por que razão o Hip Hop é cada vez mais usado para ostentar em vez de educar?
O que aconteceu, ao longo dos anos, para que o Hip Hop perdesse a sua principal característica, de questionar, criticar, reivindicar e educar? Hélder Leonel, apresentador do Clássico Hip Hop Time há exactamente 25 anos, da Rádio Cidade, na RM, tem uma resposta. “A falta de visão crítica e o declínio de valores morais que caracterizam o mundo. Actualmente a música Rap também é levada nessa direcção. De facto, há estudos que revelam que o Rap que debate política, governação e tem abordagem de participação democrática diminuiu nos últimos dez anos. Para mim, isso é acompanhado pela dificuldade que o jornalismo, a massa crítica e a sociedade civil têm de intervir nesse sentido”, continuou. “Há muitos bons, que estão a representar-nos muito bem. Azagaia, Kloro, Allan, Teknik, Duas Caras, Xitiku Ni Mbawula, K Real, Gee Fly, Iveth, Jazz P, Filady, Someblood, Ngoma e Poesia, Konfuzo, Y Not, Killa Loya, Stupa Serious, Nino Fella, 4 Ases. Mas as influências estrangeiras fazem-nos também produzir músicas medíocres, e o povo não tem capacidade de interpelação, não consome com olhar crítico, simplesmente aceita o que os media lhe fornecem ou impõem. É o sistema, como está organizado”, aditou. O radialista, também MC, um dos maiores precursores da cultura Hip Hop em Moçambique, é duro nas suas críticas. “Há muita música (não só RAP) que atingiu uma qualidade universal. Os beats, a performance e conteúdos, em termos de letra, estão num outro nível, mas também temos pessoas que não deviam fazer música. O Hip Hop music é uma ferramenta de educação, cidadania, entretenimento, etc. Mas se nós nos basearmos nos princípios da cultura Hip Hop, de acordo com os seus fundadores, uma coisa é ser rapper, outra é ser MC. O rapper é apenas alguém que faz rap e não está comprometido com a cultura, apenas gosta de repar/cantar, pode gravar e até “prostituir” a música. O MC tem responsabilidades para com o público, com as massas, ele se compromete com uma abordagem crítica, educativa, intervém de forma socialmente responsável na formação e influência sobre a sociedade”, esclarece o radialista.
“Há um crescente ‘adormecimento’ da consciência social para com aquilo que importa realmente. Os hábitos culturais tendem cada vez mais a ir para aspectos de aparência e promoção de futilidade. Na procura desenfreada de números, a arte está a ser extremamente banalizada”, acrescenta o rapper Kloro.
Desafios que se colocam ao Hip Hop moçambicano
A profissionalização e a industrialização são desafios que se colocam ao Hip Hop em Moçambique, tendo os principais intervenientes de fazer igualmente face às consequências da pandemia do novo coronavírus, que colocou muitas economias em recessão. No entanto, os disseminadores desta arte estão optimistas quanto ao futuro. “Olhar para como esta cultura foi sempre marginalizada, mas mesmo assim cresceu para cultura de grande influência no universo actualmente mostra a sua capacidade de resiliência. Localmente, os fazedores de Hip Hop foram obrigados a desenvolver outras formas de sobrevivência e também a resgatar algumas formas antigas que sempre foram negligenciadas como venda de produtos relacionados com cultura. Por outras palavras, voltaremos mais fortes”, diz Kloro, ansioso por um retorno à normalidade.
“Talento e conhecimento são necessários porque o nosso mercado, estando inserido num contexto também agressivo, que é o capitalismo, é actualmente agressivo. É preciso que se dominem as manobras de gestão artística num contexto de sociedade de informação”. Assim propõe Hélder Leonel a reinvenção dos artistas fazedores do Hip Hop, de modo a reduzirem-se os impactos negativos da Covid-19 nas suas carreiras.
