Qual seria o anúncio perfeito para caracterizar a vida de uma moçambicana em Paris? Um figurino de blusa branca às riscas azuis-escuras, uma boina vermelha e, em vez de um cappuccino, uma cerveja bem gelada? Como a nossa personagem principal é Farha Abdula, juntemos-lhe uma forte gargalhada e um sorriso bem largo. Directamente de Paris, esta publicitária conta-nos a mais recente campanha da sua vida. 


Curiosidade ou não, Abdula nasceu no Dia da Bastilha e, ao fazer 34 anos, já passou pelo Brasil, por Angola e agora por França. A primeira vez para estudar, a segunda para trabalhar, e agora em família. Ambientes e contextos muito diferentes que exigiram uma mistura de criatividade e coragem para que tudo corresse bem. Percebe-se, pelas palavras trocadas via correio electrónico, que Farha Abdula vive o agora: neste momento, ela e a família vivem na capital francesa e procuram, todos os dias, aproveitar o melhor que a terra de Edith Piaf tem para oferecer. Farha embarcou nesta aventura francesa há cerca e dois anos, estando actualmente a frequentar um Executive MBA na HEC, uma das mais prestigiadas escolas de altos estudos comerciais de Paris. “Por um lado, é o buscar outras oportunidades – e por isso fazer um MBA Executivo, fazer crescer a network, trabalhar em outros projectos, mas, por outro lado, é também o poder ganhar o mundo e em família podermos ver e conhecer outras coisas. E é exactamente isso que tem acontecido”, conta Farha.

“Foi preciso correr muito para entender a língua, entender o sistema de transportes, entender como funcionam os serviços básicos e perceber a cultura como um todo. - Farha Abdula”

No entanto, a jornada não se fez somente à luz de coisas boas. A jovem moçambicana partilha o que experienciou: “Viemos para França num momento bastante peculiar. O mundo atravessava as primeiras ondas da pandemia da covid-19, e só por isso a nossa adaptação se deu de forma bem diferente daquilo que esperávamos. Enfrentámos um lockdown europeu, restrições para circular e pouco espaço ao ar livre. Fora isso, o primeiro choque de realidade foi realizar que não somos ninguém. Que o mundo é muito grande, muito cheio de pessoas, e nós somos muito pequenos comparados a tudo isso. Em Moçambique, acho que, por natureza, somos um povo muito amigo e acolhedor, e não é assim em todos os lugares do mundo. Foi preciso correr muito para entender a língua, entender o sistema de transportes, entender como funcionam os serviços básicos e perceber a cultura como um todo”.

Um processo que até hoje está em desenvolvimento, pelas diferenças culturais e linguísticas e pelas descobertas pessoais. Esta descoberta e aprendizagem diária alarga-se à vontade de Farha de conhecer constantemente coisas novas: sempre que pode, faz pequenos cursos online, entra em grupos de debate online ou acompanha o trabalho de antigos professores universitários. O seu espírito crítico é ainda influenciado pela vida que a rodeia: “Não estou todos os dias intencionalmente à caça de tendências. São as tendências que vêm até mim através de redes sociais, conversas de bar, rodas de amigos, música. Gosto particularmente de acompanhar a música popular, a moda das ruas (street style) e a inovação em tecnologia. Acho que tudo isso diz muito sobre o momento que estamos a passar e consegue ser uma boa fonte de insights e inspiração”, comenta.

Sob o cliché que é ser uma cidadã do mundo, Farha Abdula é uma intérprete do comportamento de consumo das pessoas, com o humor e a energia que lhe são tão característicos. Com um misto de ambição e persistência, a publicitária sabe o que quer: “Garantir que a publicidade se torne cada vez mais inclusiva e livre de estereótipos que nos levam a reforçar maus hábitos. Para isso é necessário que tanto as agências de publicidade quanto os departamentos de marketing sejam espaços verdadeiramente diversos e plurais, para que, em conjunto, possamos ter um senso mais crítico e responsável sobre a comunicação que se produz. Ainda temos um caminho a percorrer”, conta-nos, adivinhamos nós, com um sorriso nos lábios pintados com uma marca de batom inovadora e uma cerveja moçambicana ao lado.