O percurso que tracei ao longo destes anos caracterizou-se por ser repleto de desafios.
No início, o panorama era radicalmente distinto do actual – existia somente a TVE, posteriormente TVM. As opções de escolha eram escassas, os comunicadores eram poucos, e eu encontrava-me a comunicar com o país inteiro sem conseguir obter retorno imediato dos telespectadores – apenas o obtinha através de cartas. As exigências centravam-se sobretudo na dicção e pronúncia.
Contudo, com o passar do tempo, emergiram importantes transformações: a transição da TVE Televisão Experimental, para a TVM, o surgimento de novos canais e a globalização, que permitiu o consumo de conteúdo internacional, valorizando simultaneamente o que é produzido internamente. Recordo-me das primeiras eleições presidenciais, da união da SADC e da oportunidade que tive de ser pioneira em programas musicais de televisão, onde abri caminho com uma nova forma de expressão e interacção.
A comunicação no nosso país vivenciou uma evolução estrondosa, agora com inúmeros meios à disposição, desde a escrita à rádio, à televisão, às revistas de showbiz e às redes sociais. Estas têm-se mostrado uma forma poderosa de conectar directamente com o público e estar presente a qualquer momento.
Enfrentei desafios por ser uma mulher jovem, extrovertida e amistosa. Muitas vezes fui mal interpretada, vista como ousada e destemida, o que criou obstáculos. Felizmente, tive grandes mentores, como Calane da Silva, Victor José e João Ribeiro. Um episódio que me marcou aconteceu quando participei num debate sobre cultura, onde falei sobre globalização. Dias depois, fui criticada na secção Carta do Leitor do jornal Notícias. Na altura, o Calane assegurou-me que estava no caminho certo, afirmando: “Se ninguém fala de ti, então algo estás a fazer de errado”.
Em comparação com o início da minha carreira, a mulher na comunicação em Moçambique está agora mais audaz, com mais espaço e voz. No entanto, algumas estão a seguir um caminho inadequado. Aconselho-as a sempre perseguir os seus sonhos, mantendo a sua essência, a ler muito e a cuidar da escolha dos seus modelos.
As marcas institucionais vêem-me como uma pessoa do povo que transmite credibilidade e confiança. Com o passar do tempo, consegui consolidar a minha marca pessoal associando a minha imagem e voz a várias empresas. A publicidade tem um impacto significativo na nossa cultura e sociedade, mas algumas marcas demoraram a entender a sua importância. Estamos numa nova era, onde quem não se posiciona bem no mundo digital acaba por perder.
Ser uma figura pública traz muitas responsabilidades. Represento o meu país e a minha amada pátria sem nunca esquecer a menina do Bairro 9 no Xai-Xai. Levo comigo a voz do povo, da juventude, sabendo sempre de onde venho, onde estou e para onde quero ir. Durante o meu percurso, houve momentos que me marcaram, como o projecto Moçambique Dá Sorte, onde tive a oportunidade de conhecer o meu país a fundo, ou quando fui mestre de cerimónias na inauguração do Aeroporto Internacional Zona A. Também recordo o trabalho social na cadeia feminina de Ndlavela, a minha viagem à Zâmbia em 2019 para receber o prémio The Most Influential Woman on Business and Government on Media sector SADC North, e em 2020, quando fui considerada The Most Influential Woman on Business and Government on Media sector Africa Continent. Ambos os prémios foram reconhecimentos gratificantes do trabalho que venho desenvolvendo a nível do continente africano.
Hoje, enquanto Embaixadora da Boa Vontade e Bem Estar da Criança e membro do Conselho Consultivo da Visão Mundial, tenho a oportunidade de visitar áreas recônditas e trabalhar com comunidades, o que acredito ter-me feito uma pessoa melhor.
A minha vida deu uma volta incrível quando juntei a comunicação à política, revolucionando a visão da juventude, e das "mamanas" dos mercados. Quero poder contribuir para o povo que me moldou enquanto Eunice Andrade. Chegou o tempo de encarar este desafio e mostrar que, juntos, somos mais fortes - unidos somos imbatíveis.
