Há projectos que nascem de briefings. Outros começam em conversas, na escuta atenta e na vontade de fazer diferente. O Grupo Moonshot Ventures e a MAAT, em Moçambique, posicionam-se claramente neste segundo caminho.
Mais do que apresentar soluções fechadas, trabalham processos, relações e contextos, onde a transformação acontece com as pessoas e não apenas para as pessoas. A história do grupo começa em 2018, em Portugal, com a criação da Chain Reaction, uma consultora de inovação orientada para a transformação estratégica e cultural das organizações. Dois anos depois surge a Mesh Agency, uma boutique criativa que traduz essa transformação em identidade, narrativa e experiência.
Em 2022, o ecossistema chega a Moçambique com a MAAT, um hub que integra estratégia, cultura e criatividade, adaptando o conhecimento do grupo à realidade local. A presença no continente consolida-se com a Moonshot Ventures Africa, focada na identificação e desenvolvimento de iniciativas com impacto. Hoje, o grupo funciona como um sistema integrado onde estratégia, cultura e criatividade não são áreas isoladas, mas partes de uma mesma abordagem orientada para impacto estrutural.
Desporto como ferramenta de transformação
Um dos projectos mais estruturantes em curso é a parceria entre a MAAT e a Fundação Chanaya Pinto. A iniciativa nasce da experiência internacional da própria Chanaya Pinto no basquetebol universitário nos Estados Unidos e da constatação de que talento moçambicano existe, mas carece de estrutura, acompanhamento e oportunidades. Apesar de Moçambique ocupar posições relevantes no basquetebol feminino, 32.º lugar a nível mundial e 4.º em África, persistem desafios na formação e na identificação de atletas fora dos grandes centros urbanos. A Fundação surge para responder a esse vazio, apostando na criação de oportunidades reais através do desporto, da educação e do desenvolvimento pessoal. Com apoio estratégico da MAAT, o projecto está a ser estruturado desde a base, incluindo a criação de um Centro de Alto Rendimento e, numa fase posterior, de uma agência de acompanhamento de atletas. O objectivo é claro, formar jovens entre os 12 e os 18 anos, preparando-as não apenas para a competição, mas para percursos académicos e profissionais sustentáveis. Numa primeira fase, a Fundação prevê acompanhar directamente pelo menos dez atletas, com impacto esperado ao nível do desenvolvimento desportivo, acesso a bolsas de estudo, reforço da participação feminina no desporto e contribuição para futuras selecções nacionais. A médio prazo, a ambição é posicionar o basquetebol como uma via concreta de mobilidade social para jovens moçambicanas. O caminho não está isento de desafios. A confiança das famílias, a identificação de talento fora da capital, a limitação de infra-estruturas e a necessidade de financiamento sustentável são factores críticos. Ainda assim, o projecto avança com uma visão clara e com a convicção de que o desporto pode abrir portas reais. Como resume Chanaya Pinto: “Não deixes que os outros definam aquilo que és capaz de fazer. Somos do tamanho da nossa vontade.”
Pensar antes de agir: o caso Mozambikes
Se na Fundação o impacto se mede em oportunidades criadas, no trabalho desenvolvido com a Mozambikes o foco esteve na mudança interna. A colaboração desta com a Mesh Agency não procurou respostas imediatas, mas criou espaço para algo mais raro, parar para pensar.
Segundo Rui, responsável pelo projecto, o maior impacto não foi uma solução concreta, mas a introdução de perguntas que não faziam parte do dia-a-dia. Questões sobre futuro, ambição e o papel de cada elemento da equipa. Esse exercício trouxe uma nova consciência interna, maior clareza sobre falhas e prioridades. A Mesh não surge aqui como executora, mas como catalisadora. Ao expor fragilidades e provocar desconforto, gerou alinhamento e responsabilidade. Uma das mudanças mais visíveis foi ao nível da liderança. Rui optou por reduzir o controlo directo e testar a autonomia da equipa, criando espaço para decisão e responsabilização. Também a composição da equipa evoluiu, com uma estrutura mais leve, motivada e alinhada com o propósito do projecto. Em paralelo, houve um regresso à essência da Mozambikes, simplificar a mensagem e recentrar o discurso na ideia central, usar a mobilidade como ferramenta de mudança. Essa clareza reflectiu-se igualmente na abordagem ao financiamento e à comunicação. O fundraising passou a ser assumido como parte central da estratégia, enquanto a comunicação se tornou mais directa, emocional e focada em captar atenção antes de explicar. No conjunto, o impacto não se traduz numa viragem imediata, mas numa mudança de consciência. Um processo que não resolve todos os problemas, mas redefine a forma como a organização se vê e se posiciona.
Cultura, educação e posicionamento institucional
A intervenção da MAAT estende-se também ao sector cultural, com a colaboração com a Fundação MUSIARTE e o projecto internacional Música para Todos, activo em Moçambique e Angola. Aqui, o desafio era claro, modernizar a comunicação, reforçar a visibilidade e alinhar a imagem institucional com o impacto real das iniciativas. A resposta passou pelo rebranding da MUSIARTE, melhoria da experiência digital e criação de uma identidade própria para o projecto Música para Todos, incluindo website e presença nas redes sociais.
O resultado foi um posicionamento mais coerente e credível, permitindo que o trabalho desenvolvido junto de crianças, jovens e comunidades vulneráveis seja reconhecido de forma mais justa. Mais do que um exercício visual, o processo foi também um momento de reflexão interna. Como destaca a direcção da MUSIARTE, tratou-se de uma oportunidade para reafirmar a missão da instituição e projectar o futuro com uma linguagem mais contemporânea e inspiradora. A capacidade da MAAT para escutar e traduzir essa essência revelou-se determinante para o resultado final.
Parcerias que constroem transformação
Os diferentes projectos mostram uma linha comum. O impacto não surge de soluções padronizadas, mas de processos construídos em parceria, com escuta, questionamento e adaptação ao contexto. No caso da Fundação Chanaya Pinto, trata-se de criar oportunidades concretas para jovens atletas. Na Mozambikes, de redefinir uma organização a partir de dentro. Na MUSIARTE, de dar visibilidade e consistência a um trabalho já existente, mas pouco comunicado.
A abordagem do Grupo Moonshot Ventures e da MAAT não procura protagonismo, mas relevância. Trabalha menos na superfície e mais na estrutura, menos na resposta imediata e mais na construção de capacidade. Num contexto como o moçambicano, onde coexistem potencial e limitações, este tipo de intervenção ganha particular significado. Não resolve tudo, mas ajuda a criar condições para que mais projectos possam crescer com intenção, clareza e impacto real.
