Quais são as principais influências literárias e culturais que se reflectem nas suas obras?
Devo confessar que sou um produto de diversas influências no campo da arte, especialmente da literatura, embora esta não seja a única fonte que contribuiu para o meu desenvolvimento artístico. Posso citar, por exemplo, a fotografia, o cinema, a pintura, a escultura e, principalmente, a música, que ampliaram minha percepção e meu apreço pelo belo e pela sensibilidade artística. No entanto, ao falar de literatura, nomes como Rui Knopfli, Luís Carlos Patraquim, Eduardo White e outros, tanto nacionais quanto estrangeiros, como Jorge Luís Borges, Carlos Drummond de Andrade, Al Berto e Herberto Hélder, exerceram uma forte influência sobre mim desde a minha juventude. Com o passar dos anos, a minha geografia literária expandiu-se, e hoje acompanho com grande entusiasmo os poetas brasileiros contemporâneos, os poetas poloneses e húngaros das décadas de 1950 a 1970, a poesia grega e espanhola, além da literatura africana, especialmente a de expressão francesa, que apresenta uma conexão profunda com a oralidade e os pequenos dramas quotidianos do nosso continente e da nossa experiência de vida.

A sua participação no Movimento Literário Kuphaluxa influenciou a sua visão artística e a sua interacção com outros escritores moçambicanos?
O Movimento Literário Kuphaluxa foi uma parte fundamental de minha jornada como escritor, forneceu-me um espaço de colaboração e troca de ideias com outros escritores moçambicanos. Essa experiência influenciou muito a minha visão artística e fortaleceu a minha conexão com a comunidade literária local, além do facto de que ganhei irmãos, no verdadeiro sentido da palavra. Gosto da irreverência que tivemos na altura, no sentido de sermos altruístas, participativos e na adopção da literatura ou do fazer literário como uma acção ou uma palavra de ordem. Hoje orgulho-me dos companheiros e dos escritores que são os membros desse grupo.

Em que medida a sua formação académica em sociologia e antropologia influencia a sua abordagem literária?
Tanto a sociologia quanto a antropologia são duas ciências de extrema importância, pois possibilitam a leitura do mundo e a compreensão plena do ser humano. Para mim, como poeta, trabalhar com essas disciplinas é natural, já que o objecto de estudo, se assim quisermos dizer, se alinha. Assim como essas ciências, a poesia também nos permite ler o mundo, tanto o visível quanto o invisível. No meu caso, apenas me considero uma pessoa curiosa, e ter tido a oportunidade ou possibilidade de beber dessas epistemologias e adoptar os seus métodos para compreender o mundo ao meu redor é crucial para mim, para formular não apenas teorias, mas também poemas. No entanto, não me vejo como um poeta melhor, mais interessante ou mais sortudo por ter tido acesso a essas disciplinas. Acredito que qualquer pessoa sensível, que compreenda que a poesia serve principalmente para buscar a subversão da linguagem, se pode tornar um excelente poeta. Essa é minha busca diária.

Quais são os principais temas abordados na sua poesia?
Tenho um fascínio pelos grandes temas universais, mas os meus poemas exploram uma variedade de assuntos, desde questões existenciais e culturais até crítica social e política. O amor, a morte, a noite e a nossa identidade moçambicana são alguns dos temas recorrentes em minha poesia. Utilizo tudo aquilo que sinto que pode ser explorado como matéria poética. Para mim, não há limites em termos de temas a serem abordados; cada experiência, cada sentimento, cada reflexão pode-se tornar fonte de inspiração para dar forma à minha expressão artística.

Como interpreta a evolução temática e estilística na sua poesia, culminando em "Criação do Fogo"?
Ao longo da minha carreira, tenho buscado evoluir tanto temática quanto estilisticamente na minha poesia, e é natural que isso aconteça, pois vamos crescendo e adquirindo certa maturidade e, se calhar, mais sensibilidade e apuração na forma como vemos e interpretamos certos fenómenos. Eu sempre procuro desafiar-me a mim mesmo para encontrar melhores perspectivas e formas de lidar com a linguagem e não me repetir. Ou seja, é necessário dominar a técnica, mas também possuir uma base cultural alargada, e isso tem que ver com o que nós consumimos artisticamente, mas não só, é preciso compreender a própria língua e a forma de manipulá-la. Portanto, agora me sinto cada vez mais apto e a poesia não é algo que me ocorra como um mero acidente, é sim uma escolha que suporto com muita responsabilidade e com muito treino, até surgir o texto pretendido, porque só este estudo contínuo, a aprendizagem, a exposição e o contacto com diversas culturas, literaturas e pessoas permitem esse salto constante, sempre em busca de algo que surpreenda e crie um impacto nos leitores. 

E o que nos pode dizer do uso da poesia como uma ferramenta de crítica social e política nas suas obras, especialmente considerando o contexto moçambicano actual?
Para começar, tenho a dizer que isto não é algo inédito na história da nossa literatura moçambicana. José Craveirinha, Noémia de Sousa, Patraquim ou Eduardo White, sem falar de muitos mais, inauguraram esta forma do fazer poesia como arma ou como um instrumento de arremesso. A minha poesia também sempre foi uma forma de expressar as minhas preocupações e críticas em relação aos vícios pessoais e da sociedade, mas não gosto de me limitar por aí. Certamente há quem só me interprete por essa via, mas tenho outras perspectivas mais festivas, mais de celebração da palavra e da nossa língua, que é bela, e da nossa gente, que é heróica e capaz de realizar milagres mesmo com recursos escassos. Somos um dos povos mais bonitos do mundo, com pessoas que, apesar de tudo, acreditam no trabalho e na força dos seus sonhos e das suas mãos, e isso também merece ser celebrado. No entanto, não sou alheio às injustiças. Acredito cada vez mais que a função da poesia no nosso tempo é criar empatia entre os seres humanos, uns com os outros e também com a natureza.

Qual é a importância do Prémio BCI de Literatura e do Prémio Internacional Pena de Ouro na consolidação da sua carreira e na promoção da literatura moçambicana?
Os prémios são uma parte integrante de um processo de reconhecimento, mas, na nossa realidade particular, é necessário proceder com cautela, para não estender demasiadamente as asas. É, antes de tudo, necessário perceber que qualquer prémio é apenas resultado de um trabalho que corresponde a uma época ou a um determinado livro, e essas fases, geralmente, passam. O verdadeiro grande prémio, na verdade, é a possibilidade de cultivar leitores. Por exemplo, no caso do Prémio Internacional Pena de Ouro, ser o único representante moçambicano e júri residente, entre tantas possibilidades e pessoas, algumas talvez mais capacitadas e experientes do que eu, é algo que me orgulha. Porque acredito que há uma razão para eu estar lá, e isso é o reconhecimento do talento. E sempre é um prazer e uma honra receber reconhecimento, tal como foi o caso do prémio BCI, por exemplo, ou saber que o Prémio Internacional de Tradução Stephen Spender foi ganho por um tradutor que usou um poema meu, o que é uma grande honra. Não apenas pelo prémio em si, mas porque começo a ganhar notoriedade dentro de um mercado que não é o lusófono, mas sim o mercado dos Estados Unidos e do Reino Unido, que oferecem outras perspectivas e oportunidades.

Quais são os principais desafios enfrentados como escritor moçambicano em termos de acesso ao mercado literário e reconhecimento internacional?
O nosso mercado é bastante limitado e é difícil fazer o livro circular. Esse é o primeiro grande desafio. Outro desafio tem a ver com uma quase ausência de crítica especializada que consiga acompanhar a literatura contemporânea moçambicana e amplificar a sua voz. O terceiro é um grande vício cultural, o da não-comunicação entre as classes e dos vários grupos que compomos como moçambicanos, tenho um juízo de que a grande maioria da nossa classe média-alta tende a olhar com desdém para obras que não vêm do seu próprio meio. E são nesses que se concentra o poder de compra. Apesar desses obstáculos, continuo a trabalhar. É inspirador ver como a nossa literatura é recebida no Brasil, em Portugal e até mesmo em lugares como o Uganda, onde estive. Perceber que tradutores americanos estão interessados em traduzir e publicar meus livros é algo surpreendente. No entanto, reconheço que ainda temos um longo caminho pela frente.

Como recebe a crítica às suas obras?
A maior crítica, aquela que realmente valorizo, é das pessoas que afirmam terem sido profundamente tocadas por minhas palavras, que sentem que tiveram uma nova oportunidade de se enxergar e de observar o mundo através dos meus poemas. Isso é extremamente significativo para mim. No entanto, a crítica, digamos que especializada, é também bem-vinda e, felizmente, neste quesito, a minha obra tem sido bem referenciada, e isso é muito bom, mas, em geral, precisamos de uma crítica mais presente que acompanhe o crescimento dos artistas, pois isso é o que pode contribuir para uma maior e melhor aceitação do público e no seio dos leitores.

Em que actividades ou projectos, para além da escrita, está envolvido, e como é que essas actividades complementam ou influenciam a sua prática literária?
Eu faço da escrita o meu trabalho, ou seja, trabalho exclusivamente com a escrita, o que já me traz muita satisfação. Todos os projectos em que estou envolvido têm relação directa com a escrita. Actualmente, por exemplo, tenho estado a colaborar com alguns músicos que têm a vontade, ou talvez a ousadia, de compor suas letras em parceria com escritores. Já tive o privilégio de trabalhar com a Xixel Langa, a Banda Kakana e Abuchamo Munhoto em alguns projectos, e gostaria de continuar. Além disso, também me dedico à escrita de roteiros para cinema e novelas. Por estes dias, estou envolvido na preparação de uma performance de dança contemporânea e teatro, através da minha poesia. Busco experimentar em todas as formas criativas possíveis, pois sinto que isso enriquece minha obra e também o meu percurso.

Para além dos prémios literários, como é que a sua obra, incluindo "Criação do Fogo", contribui para a construção da identidade cultural e nacional de Moçambique?
Acredito que cada um faz a sua parte e contribui da melhor maneira possível para a construção de uma identidade cultural e nacional dos moçambicanos. Ter a possibilidade de ser um porta-voz de uma geração é o meu contributo, se calhar. Dentro dos meus textos há muitas facetas de quem somos, creio que a partir daí é possível reconhecermo-nos ou afirmarmo-nos perante aqueles que ainda não nos conhecem. Acho que esse é o contributo das minhas obras. Espero que a minha poesia ajude ainda mais a promover uma maior compreensão e apreciação da diversidade e riqueza do nosso tecido cultural.