Empreendedorismo verde
Betinho Bikes: mais que um negócio, um propósito
Escrito por: Jaime Álvaro
Francisco Cumbe (34 anos), ou Betinho, como todos o tratam, é um “mestre” em mecânica de duas rodas numa oficina de bicicletas da cidade de Maputo. É natural desta cidade, mas passou a maior parte da sua infância no distrito de Inharrime, na província de Inhambane, situado 500 km a norte da capital de Moçambique.
Lá, na “terra da boa gente”, descobriu a sua paixão, que mais tarde viria a tornar-se seu propósito de vida. “Aprendi sozinho a andar de bicicleta, na de um amigo, tinha apenas 10 anos de idade. Caí muito, antes de aperfeiçoar a técnica de dar ao pedal. Lembro-me de que aquela bicicleta não tinha pneus...” Mas que ironia! Murmurei bem alto, mas em pensamento, antes de ele prosseguir. “Tínhamos que amarrar capim em volta das jantes, e cobri-lo com as câmaras de ar, para podermos brincar com aquilo que era a nossa única diversão no bairro” – recorda, emocionado, a infância alegre que teve e a dificuldade de dar as primeiras pedaladas naquela bicicleta, compartilhada não só com ele, mas, na verdade, com todo o bairro.
Em 2000, já com 18 anos de idade, Betinho regressou à sua terra natal, tendo-se depois, em 2006, aventurado em busca de uma melhor oportunidade na África do Sul, sem fazer ideia de que a oportunidade que procurava não estaria tão distante de si.
“Na África do Sul, trabalhava numa oficina, onde fazia a manutenção de bicicletas, até que, um dia, um cliente da casa que gostava dos meus serviços decidiu oferecer-me uma bicicleta em segunda mão para lhe fazer companhia durante as suas excursões.” Graças a esse cliente, que mais tarde veio a tornar-se seu amigo, Betinho desenvolveu o hábito de praticar ciclismo. Regressado a casa, depois de vários anos no estrangeiro, criou um grupo de ciclistas com o objectivo de continuar com as aventuras sobre duas rodas. Em caso de alguma avaria na bicicleta de integrantes do grupo, era Betinho quem resolvia o problema. A situação tornou-se recorrente, tendo ele aí identificado uma boa ocasião para transformar a sua paixão por bicicletas em negócio.
Com a experiência que já possuía nesse mundo, Francisco Cumbe decidiu criar, em 2009, a “Betinho Bikes”, uma loja especializada na manutenção e venda de bicicletas e acessórios, com um efectivo de nove funcionários. Conta que investiu num sector ainda com pouca (na verdade quase inexistente) concorrência. “Vendo todo o tipo de acessórios de que um ciclista necessita para a manutenção da sua bicicleta, bem como para a sua segurança enquanto pedala: rodas, pneus, câmaras de ar, jantes, pedais, punhos, conjuntos de porcas, capacetes, óleo hidráulico, etc.”, diz com orgulho o mecânico, que tem mais uma loja na Matola, um cenário bem diferente do de quando iniciou a sua actividade. “Quando comecei, aqui (na loja) só tinha ferramentas, não tinha sequer uma peça. Hoje tenho tudo ou quase tudo aquilo de que um ciclista pode necessitar.” Todo o equipamento é importado da vizinha África do Sul. A Betinho Bikes tornou-se a pioneira nesta área, passando a ser uma loja com uma excelente promoção e grande visão.
Ainda há pessoas que associam a bicicleta ao campo e à incapacidade financeira de comprar uma viatura, o que não é verdade. O que é verdade é que falta a cultura de usar a bicicleta
Mais que um negócio, a Betinho Bikes é um projecto “verde” que promove e oferece mais uma opção de mobilidade na cidade, disponibilizando o aluguer instantâneo de bicicletas, um transporte ecológico. “Temos que consciencializar as pessoas para a importância do uso da bicicleta na mobilidade urbana e para o ambiente. Ainda há pessoas que associam a bicicleta ao campo e à incapacidade financeira de comprar uma viatura, o que não é verdade. O que é verdade é que falta a cultura de usar a bicicleta”, conclui, sublinhando que “um uso mais massificado seria uma forma de contornar a problemática do acesso aos transportes públicos na área metropolitana de Maputo.”
Na necessidade de se expandir, e uma vez que “não adianta ter cem lojas especializadas em bicicletas enquanto não houver a cultura do seu uso”, a Betinho Bikes organiza periodicamente, desde 2013, provas recreativas, como a “Volta à cidade de Maputo”, a “Mountain bike” e a “Road bike”, que junta mais de 100 ciclistas nacionais e estrangeiros, vindos sobretudo da Suazilândia e da África do Sul. Betinho lamenta a falta de apoio e patrocínios para a massificação da modalidade no país.
Este pai de um filho de seis anos de idade é casado e divide o seu tempo entre a loja de bicicletas e a família. Como pai, orgulha-se do filho, que segue os seus passos. “A bicicleta é um meio que me aproxima mais do meu filho”, diz, animado. “Para construir campeões, é preciso prepará-los agora” – diz, revelando que sonha ver o filho tornar-se um ciclista profissional.
Este empresário, que encontrou na bicicleta um negócio pelo qual é apaixonado, entende que o ciclismo, tal comao as outras modalidades desportivas, se for conhecido em profundidade e praticado de forma responsável, pode gerar uma mudança social positiva.
