Diáspora

Rui Tenreiro em Estocolmo, Suécia

Escrito por: Eliana Silva

O estado em que encontramos Rui Tenreiro pode ser característico da sua alma de artista: em transição, em crescimento e sempre à descoberta. 
Tenreiro vive na capital sueca há tempo suficiente para lá se sentir bem. Com um MFA – Master of Fine Arts – em storytelling, saiu de Maputo para fazer um mestrado, e, mais recentemente, dedicou-se à estratégia criativa: “Trabalho com ideias, com escrita e com imagem”, escreve à Revista Xonguila. Nas suas palavras, tem sido artista nos últimos anos, mas tem em mãos um novo desafio profissional que está a obrigá-lo a um pensamento mais estratega.

Se construirmos uma timeline do trabalho do criativo de Tenreiro, poderemos encontrar uma panóplia de expressões artísticas: fotografia, literatura, ilustração, realização. Se tivesse que escolher um amor-perfeito ficar-se-ia pela sétima arte, embora tenha consciência de que o seu maior desafio é manter toda a gente satisfeita, inclusive ele próprio. Um exemplo do que já fez está patente no filme de animação “The Tower” (realizado por Mats Grorud), cuja Direcção de Arte esteve a seu cargo. Nele se conta a saga de uma menina palestina num campo de refugiados no Líbano, propondo-se uma visão de como a criação do Estado de Israel resultou na criação de quase quinhentos mil deslocados palestinos. O filme foi exibido em reputados festivais internacionais e o trabalho de Rui foi considerado “excelente” pela revista norte-americana Hollywood Reporter. “Sou um criativo curioso e multifacetado com um vasto leque de interesses, que gosta de questionar as coisas, descobrir verdades e alinhar soluções estratégicas de marca para conceitos que resolvem problemas de raiz reais, muitas vezes invisíveis.” – diz Rui Tenreiro na sua página na Internet.

O trabalho de Rui foi considerado “excelente” pela revista norte-americana Hollywood Reporter

Os quase 15 mil quilómetros de distância que separam Maputo de Estocolmo não impedem Tenreiro de pensar em projectos pessoais relacionados com África, mesmo estando eles quase tão longe de se concretizar como as duas cidades entre si: a publicação em livro de artistas africanos (não somente moçambicanos), e um pequeno espaço de convívio cultural são as iniciativas eleitas. “Dar igual oportunidade no domínio cultural (criação, acesso, entre outros) de Sul a Norte, num país grande e culturalmente diverso, um país que tem também desafios mais urgentes do que a produção cultural. É preciso reconhecer isso para se saber qual a melhor abordagem em relação à cultura. No ISArC, pela mão de Filimone Meigos, esse desafio foi abordado através do alojamento de alunos que vêm do Norte do país para estudar em Maputo, o que eu achei importante”, partilha Rui. 
O seu crescimento e desenvolvimento é provavelmente resultado da sua natureza mais criativa e, por isso, Rui Tenreiro tenta ouvir pessoas com opiniões e visões diferentes das suas: “Não tenho muitas grandes influências, diversidade é bom. Em termos de estratégia de publicidade, por exemplo, acho que Praveen Vaidyanathan é brilhante”, ensina-nos.

E como é que o calor moçambicano é revivido no frio do Norte da Europa? Através da cultura, claro. É enquanto prepara o seu café matinal que Rui Tenreiro ouve a Emissão Provincial de Gaza – 90.9 FM, Xai-Xai – ou o canal nacional STV. Felizmente para o artista, e para os curiosos em matéria de cultura moçambicana, a biblioteca pública de Estocolmo tem edições em português de livros de Paulina Chiziane, Mia Couto, Nelson Saúte, Luís Bernardo, entre outros. Além disso, Rui Tenreiro dissipa as saudades quando, pelo menos uma vez por ano, visita Moçambique.