A arte surgiu quase por acaso. Durante a infância, e quase sem querer, cresceu em Cristina a habilidade de se expressar com as mãos. Aos 47 anos, vive em Aveiro, cidade que os pais escolheram quando o ambiente de guerra civil assombrava Moçambique.
No Moçambique da década de 90, altura em que era uma jovem em formação, a agora artista deparou-se com alguns desafios: “Cresci durante a guerra civil em Moçambique e aprendi, como toda a gente, a saber lidar com a falta de muita coisa. A minha mãe passava tardes a fazer trabalhos manuais comigo e com os meus irmãos. Utilizávamos diversos materiais, como papel, cabedal, vidros, sementes, paus, arames, massas de estrelinhas pintadas com diversas cores, e fazíamos, entre outras coisas, colares e pulseiras”, partilha Cristina.

Nasceu Ana, mas todos a conhecem por Cristina. Se procurarmos o seu rasto online vamos encontrar, com certeza, mais referências ao seu trabalho. Cristina Bastos é hoje joalheira e cria peças para uma marca com o seu nome.

Da abertura da loja dos pais ao curso de Joalharia na Escola Engenho e Arte foram instantes: “Tinha feito um interregno na minha licenciatura na universidade de Aveiro e queria retomar a minha formação, ao mesmo tempo que os meus pais iam abrir uma loja com um conceito bastante inovador à época – a Loja Oriente, em Aveiro – e precisavam de uma colaboradora. Vim em Novembro de 1996, abrimos a loja em Dezembro de 1996”, conta-nos, através de correspondência electrónica.

Anos mais tarde, Cristina começou a fazer brincos, colares e pulseiras com vidros rolados de garrafas partidas da praia, sementes, conchas, búzios, cabedal, metal dos clipes, utilizando também fio de estanho, fio de cobre e transístores que o pai tinha para arranjar os computadores e a televisão lá de casa. No seu íntimo, a artista em ebulição tinha necessidade de alargar as suas ferramentas de trabalho, explorando outros materiais, como pedras e metais mais nobres.

Com o crescer da sua arte, Cristina Bastos passou a dar corpo a algo mais concreto, e é aí que nasce a marca com o seu nome, que, segundo diz, resulta do cuidado que tem ao criar peças de autor, sempre com base no mote ‘Wear your culture’, colocando, assim, Moçambique e a cultura moçambicana como caminho para onde quer que vá.

Actualmente, o grande desafio de Cristina Bastos é conseguir gerir a sua agenda. Com a loja fundada pelos seus pais, desenvolve peças para o Bairro Bistrô em Maputo, expõe no Hotel Moliceiro, em Aveiro (Portugal), e está a desenvolver uma parceria com uma empresa de pedras de Moçambique, para além das vendas que faz através das redes sociais.

“A paixão pela natureza e a sua biodiversidade leva-me a criar peças com características particulares que remetem a essa minha vivência. “Quando crio uma peça, não tomo por base um género de pessoa, mas sim se eu me atreveria a usá-la. Gosto do que faço, gosto de ter essa liberdade e gosto que o meu trabalho mostre essa mesma liberdade”, lê-se nas palavras de Cristina. A joalharia é, sem dúvida, a sua forma de expressão.