Em certas regiões de Moçambique, não é raro depararmo-nos com o consumo de areia por pessoas, principalmente por mulheres. Poucos anos atrás, chegou a ser considerado uma moda em crescimento, vendendo-se a areia em sacos ou pequenos cartuchos de papel, em mercados e outros locais. Diz-se que, para a capital, provém de Marracuene. É normalmente lavada, peneirada para extrair a mais grossa, e reduzida a pó.
Acreditam alguns seguidores da prática que ela se destina a satisfazer desejos que, por vezes, se tornam vícios. Curiosamente, são principalmente mulheres grávidas que manifestam o desejo específico de consumir areia. Há também quem defenda que a areia pode auxiliar na digestão ou oferecer cura para certas doenças, ou aliviar a fome, entre outros benefícios.
Mas o consumo da referida areia não está isento de perigos, sendo por isso desaconselhado pelos profissionais de saúde. Ela pode conter impurezas e metais pesados extremamente prejudiciais para a saúde, e a sua ingestão pode propiciar o desenvolvimento de parasitas, desencadear complicações intestinais como obstruções e perfurações, bem como outras doenças com gravidade.
Apesar de uma crescente sensibilização para estes riscos, muitos moçambicanos mantêm-se fiéis a este costume. Para diversas comunidades, sobretudo nas zonas rurais, é uma prática que vai passando de geração em geração.
Também conhecida como geofagia, a prática de comer areia não é exclusiva de Moçambique. Ela pode estar relacionada com um distúrbio alimentar denominado pica, caracterizado por uma necessidade anormal de consumir substâncias não alimentícias, cuja causa tem sido procurada sob diversas perspectivas. As teorias nutricionais mais citadas atribuem-na a deficiências minerais específicas no organismo. Além de ser observada em populações africanas, a pica é notada em outras partes do mundo.
Numa era de crescente globalização e intercâmbio cultural, é crucial que se procure respeitar e compreender os costumes populares, enquanto se promove o bem-estar e a consciência dos riscos associados.
