Dança de origem árabe, o tufo entra em Moçambique e difunde-se pela zona norte do país, sobretudo nas províncias de Nampula e Cabo Delgado, assim reza a história. Seu nome deriva provavelmente da designação dos instrumentos musicais que os árabes utilizavam, “ad-duff”. Em português, essa palavra tornou-se “adufe” ou “adufo”, e, depois, passou a “tufo”. 
Se antes era uma dança típica de diversão para os árabes, hoje há um grupo moçambicano na nossa capital que apregoa esta manifestação cultural como um ritual educativo e para anunciar celebrações. Fundado há mais de 50 anos pelo senhor Matano Abdala, o Tufo da Mafalala, maioritariamente composto por mulheres, há anos que vem servindo de escola para as novas gerações. Com efeito, através de canto e dança, o grupo procura educar mulheres e jovens a adoptarem uma postura mais responsável no seu dia-a-dia.

O grupo cultural Tufo da Mafalala é detentor de um extenso mosaico cultural e artístico, possui uma história de cruzamentos culturais do Oceano Índico. O seu vasto reportório de danças tradicionais de Nampula inclui o tufo, o ndzope e o matsepwa, ritmos marcados pela influência afro-árabe. Com trajes típicos de cores fortes, as “muthianas horeras” (mulheres bonitas) cobrem o rosto de mussiro – uma espécie de creme ou loção facial usado maioritariamente pelas mulheres macuas –, blusas e capulanas de cores vivas e um lenço à cabeça. Fazem movimentos leves com os braços, pernas e cintura e, com uma voz melodiosa, cantam e dançam. O grupo é composto por quinze membros, dos quais dez mulheres, duas raparigas, dois instrumentalistas e o presidente do agrupamento. São provenientes da província de Nampula, com excepção das duas raparigas, que são oriundas de Maputo. Saquia Rachid, de 49 anos de idade, mãe de dois rapazes (de 27 e 30 anos), e natural da capital do Norte, é a rainha do Tufo da Mafalala, do qual faz parte há cerca de 35 anos. Após o desaparecimento físico do seu sogro, fundador do grupo, assumiu o comando, onde permanece até aos dias de hoje.

Para esta revista alusiva ao Dia da Mulher Moçambicana, 7 de Abril, a revista Xonguila conversou com Saquia Rachid, que deu a conhecer a sua versão da história da dança que pratica. Contou que os árabes que levaram o tufo para a Ilha de Moçambique tinham por hábito, no intervalo da jornada laboral, tocar panelas e dançar. “Os nossos avós achavam aquilo estranho, mas, ao mesmo tempo, engraçado”, afirmou Saquia. Hoje em dia, olha-se para a dança tufo como herança cultural, e se antigamente, na opinião da nossa interlocutora, era uma dança exclusivamente praticada por homens, com o passar dos anos as mulheres reinventaram-na e tornaram-se as principais dançarinas.

Ainda segundo Saquia, o tufo é uma dança que foi criada especialmente para gingar, e, quando os homens gingassem, as mulheres comentavam: “Olha, aquele homem que esta a gingar, nem parece homem”. Daí que os homens tenham achado por bem deixar a dança para as mulheres, para evitar conotações e atributos, explicou a rainha do Tufo da Mafalala, acrescentando que os homens agora apenas cantam e tocam os instrumentos.

Semanalmente as mulheres juntam-se num dos bairros suburbanos da cidade de Maputo, o bairro da Mafalala, para dançar tufo. Segundo a rainha do grupo, esta dança é considerada uma dança terapêutica. “Jovens e mulheres juntam-se a nós para, de forma descontraída, esquecerem os seus problemas quotidianos e se aventurarem na dança. É uma excelente forma de purificação espiritual”, defendeu. Com a dança tufo, as mulheres procuram transmitir alegria. Em resultado disso, só dançam em ocasiões especiais, como aniversários, lobolo, casamentos, entre outros eventos comemorativos.

O Tufo da Mafalala viaja frequentemente dentro e para fora do país para apresentar alguns números do seu trabalho. A título de exemplo, já estiveram três vezes na vizinha África do Sul, estiveram na Argélia, no Brasil, concretamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e Itália também foi um dos destinos escalados, sublinhou, visivelmente emocionada, a nossa fonte, que, na mesma ocasião informou também que geralmente são os organizadores que definem o número de pessoas que deve viajar. “Para sair uma boa dança, no mínimo precisamos de ser oito pessoas. Apesar de serem movimentos leves, são cansativos, portanto há que trocar os elementos do grupo durante a dança”, disse Saquia Rachid.

“O valor monetário resultante das nossas actuações é repartido pelo grupo para garantir que cada um de nós consiga comprar os trajes necessários e as respectivas bijuterias. Ultimamente, devido ao cenário que o país e o mundo vivem, é normal por mês termos apenas um espectáculo, contrariamente ao que vinha acontecendo em outros tempos”, afirmou a representante do grupo, apontando um dos principais desafios que poderá vir a arruinar a continuidade do grupo. Segundo ela, é necessário que se injecte sangue novo, apesar de esta ser uma tarefa muito difícil, uma vez que as jovens do Sul não se mostram muito interessadas neste tipo de cultura, enquanto em Nampula as crianças crescem já dançando tufo.

O grupo sonha aprender outras habilidades para além do canto e dança, visto que a maioria dos seus elementos tem baixa escolaridade e, com o custo de vida a elevar-se, precisa de outras fontes de rendimento.

O bairro da Mafalala localiza-se na cidade de Maputo, no distrito Municipal de KaMaxaquene. Pela sua historicidade e simbolismo cultural, é um dos bairros mais conhecidos do país, estando associado à emergência da identidade moçambicana. Dele saíram grandes nomes da literatura, da música, do desporto e da vida política do país. Na Mafalala residem pessoas provenientes dos mais diversos pontos do país, com as suas variadas manifestações religiosas e culturais, sendo relevante a presença de pessoas da etnia macua, a que mais pratica a dança tufo.