Os seus olhos contam histórias de vida enquanto lhe saem da boca melodias que embalam a alma e convidam a uma viagem no tempo. Passado e presente comunicam-se pela voz de uma mulher que cantou Moçambique por onde passou. Chude Mondlane é uma mistura de artes e “mundos”. Dança e música juntam-se numa mulher que deixou a sua marca em grandes palcos pelo planeta. 
Recebeu-nos no seu “cantinho de arte”, lugar onde vive documentado parte do seu percurso musical. Em sua casa, a artista procurou reservar um espaço para deixar a arte falar… Álbuns, fotos, vídeos e memórias acompanharam a nossa conversa com esta mulher-artista moçambicana.

Filha do primeiro Presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Eduardo Mondlane, e da americana Janet Mondlane, Chude teve muito contacto com a música ainda na infância. A sua mãe “fazia magia” com alguns instrumentos, como o violino e piano. “Cresci em Dar Es Salam, e na altura não tínhamos televisão, nem internet. A música era o centro do entretenimento da nossa família. Durante as viagens cantávamos em família e era bastante divertido”, disse-nos Chude. O “bichinho pelos palcos”, como ela própria apelida o amor que nutre pelas apresentações em público, surgiu aos 9 anos de idade. Na escola, em Dar Es Salam, fez a sua primeira apresentação pública de dança, com o seu grupo escolar: “Lembro-me como se fosse ontem. Os meus pais foram ver o show. Aqueles aplausos, estar em frente do público, fazer performances… tudo isso despertou em mim a paixão pelos palcos.”


Uma artista sem fronteiras 
Após o assassinato de seu pai, Chude foi estudar em Filadélfia, nos EUA, numa academia de dança moderna, entre os 12 e os 13 anos de idade. Passou pelas mãos de profissionais que dividiam o palco com grandes nomes da dança moderna, como Isadora Duncan e Martha Gra ham. “Estudávamos música, artes, história da arte e canto. Faziam parte do nosso currículo. Viajámos pelos EUA para fazer performances”, acresceu. Também passou pela antiga União Soviética, e aos 13 anos conseguiu uma bolsa de estudos para estudar ballet clássico naquele país.  Após a experiência na União Soviética, local onde ficou até aos 16 anos, foi ao Cazaquistão. Entretanto sopravam em Moçambique os ventos da independência, e Chude Mondlane, na outra parte do mundo, não se conteve com a notícia da libertação, só pensando em voltar para o seu país. “Quando soube da independência, abandonei os meus estudos. Passei pela Tanzânia em direcção a Moçambique para a viver de perto. Era a primeira que vivia no país”, disse a artista. Pouco depois da independência, com o país fragilizado pela destruição de infra-estruturas e falta de quadros profissionais, Chude deu aulas de dança numa escola para crianças com deficiência.

A artista queria explorar mais a sua arte e estudá-la melhor, por isso foi à Suíça, local onde morava o seu avô materno. Na altura, a música que vivia dentro de si pedia para ser cantada. A interpretação que fez do número musical de Frank Sinatra “My way” num Hotel na Suíça fê-la ganhar espaço como vocalista de uma banda que tocava naquele lugar, e foi assim que, aos 19 anos, Chude começou a cantar profissionalmente.

Uma moçambicana entre grandes nomes da música mundial
Os anos 80 são inesquecíveis para Chude Mondlane, que deles guarda lembranças que o tempo não pode apagar. Tal é o caso do festival em que participou no Japão onde esteve presente o lendário Stevie Wander. Ganhou prata no Festival Internacional de Música da Coreia em 1980, e venceu o Festival Internacional de Música de Tóquio em 1981. Álbuns e singles também fizeram parte desta época. Trabalhou com Marcus Miller, nome sonante do Jazz mundial, Robert Flack, o pianista Abdullah Ibrahim e Hugh Masekela. Também colaborou com artistas nacionais da cena musical tradicional e urbana. Chude Mondlane foi consagrada o Artista do Ano pela Rádio Moçambique em 1999.

Uma mulher pela causa das mulheres
Formada em antropologia cultural e estudos africanos, a cantora, compositora, intérprete e produtora musical, de 63 anos de idade, tem-se dedicado nos últimos tempos à sua produtora, a Nkateko Productions, uma empresa de produção musical cujo trabalho já mostrou frutos, como é o caso do “Festival Xingomane”, realizado em Gaza para celebrar grupos de dança tradicional e criar experiências para os artistas locais da região. O projecto denominado “The Acoustic Sessions” é outra iniciativa de intervenção na área musical ligada à promoção artística da mulher. Criado em 2019, assenta na produção e gravação audiovisual de números musicais com a missão de criar conteúdo de artistas femininas para distribuição em plataformas digitais e redes sociais. Cada artista apresenta quatro (4) temas originais e faz live performance. “A intenção é dar espaço a artistas femininas. Fazemos gravações e colocamos em plataformas digitais como o Youtube, a Amazon, o Spotify, para a distribuição”, disse Mondlane. Chude tem a causa da mulher nas suas veias e, por isso, sente-se chamada a lutar através do que mais sabe fazer, para o bem-estar da mulher moçambicana. A situação da covid em 2020 forçou a paragem da iniciativa “The Acoustic Sessions”, mas Chude Mondlane acredita que, com um olhar mais atento à cultura nacional e às iniciativas para o seu desenvolvimento, todos os obstáculos podem ser ultrapassados. “Temos uma riqueza cultural enorme. Há ainda muito a fazer para que ela não se perca. Há necessidade de se investir mais na cultura, de se criarem formas de os projectos ligados à cultura não morrerem”.