O que inspirou, dez anos atrás, a criação da vossa marca? Será que essa inspiração ainda se reflecte nas vossas colecções actuais?
Quando iniciámos o projecto da Chibaia, queríamos criar um produto moderno e versátil, mas que também reflectisse a nossa origem africana. Optámos por produzir um casaco com capuz feito de capulana (hoodie), que na altura considerei ser a forma de introdução perfeita da nossa marca. O design foi melhorando ao longo dos anos, mas continuamos a produzi-las e a vendê-las para pessoas de todo o mundo. Sempre que decidimos aperfeiçoar o design do hoodie, procuramos manter-nos fiéis à ideia de criar um produto funcional, mas que também sirva como ferramenta de expressão cultural.

Nesse processo criativo, o que mais vos tem influenciado?
A criatividade é uma ferramenta essencial que reúne pensamentos e conhecimentos, servindo como uma ponte entre os objectivos de uma pessoa e a realidade. Acredito que o conhecimento e a criatividade estão interligados. Quanto mais conhecimento tenho, mais criativo me torno. Um dos meus objectivos sempre foi promover a cultura africana, produzindo, ao mesmo tempo, artigos de qualidade. Para o fazer bem, estou constantemente em busca de conhecimento sobre esses dois temas, seja na música, na arte, na história, na psicologia, na sociologia ou na política.

Durante a década que já viveram, como se foi adaptando a marca às mudanças do mercado moçambicano?
Desde menino, sempre fui fã de Bruce Lee. Há uma citação dele que diz: "Esvazie a sua mente, seja sem forma. Sem forma, como a água. Se colocar água num copo, ela torna-se o copo. Coloque água numa garrafa, e ela torna-se a garrafa. Coloque-a num bule, e ela torna-se o bule. Agora, a água pode fluir ou pode quebrar. Seja água, meu amigo." Por outras palavras, isto significa que não devemos limitar-nos a uma forma, mas adaptá-la, construir a nossa própria forma e deixá-la crescer, como a água. Esta é uma filosofia que tirei das artes marciais e apliquei no meu negócio. Seja o que for que o mercado nos ofereça, ajustamo-nos e adaptamo-nos a ele. Um exemplo disso foi durante o período da covid, quando deixámos de produzir jaquetas e começámos a desenhar e produzir máscaras de capulana.

E como evoluiu a vossa equipa de colaboradores e sua relação com a actividade da empresa? 
Quando começámos a empresa, éramos apenas duas pessoas: um designer e um alfaiate. Hoje, somos oito a trabalhar a tempo inteiro. A empresa está dividida em dois departamentos: a loja e a fábrica. Um é responsável pela produção e o outro pela distribuição. Acredito fortemente no trabalho em equipa, por isso sou muito exigente com quem trabalho. Todos na nossa equipa devem entender os nossos objectivos e contribuir com algo de valor. Sempre preferi trabalhar com equipas pequenas e geríveis onde todos compreendem as suas responsabilidades e desempenham um papel importante na evolução da nossa marca. Acredito que as pessoas são o activo mais importante de uma empresa. Quanto mais forte for o vínculo entre os colegas de equipa, mais forte será a empresa.

Receberam algum reconhecimento ou participaram em eventos/desfiles que possam ter influenciado ou influenciar a trajectória da empresa?
Em 2023, tivemos a honra de ser convidados a participar em desfiles de moda em Joanesburgo e Roma. Interagir e mostrar o nosso trabalho a pessoas de outras culturas é sempre um enorme prazer. Estas duas experiências foram importantes porque me ajudaram a começar a visualizar a nossa marca e produtos fora de Moçambique, ou noutro contexto. Isso fez-me ponderar como seria a nossa loja se tivéssemos a oportunidade de abrir uma em Joanesburgo, Roma ou Nova Iorque. Experiências como estas sempre estimulam a imaginação.

Podes partilhar alguma situação particularmente desafiadora que enfrentaram e superaram?
Criar uma marca de roupa e operar num país como Moçambique é uma jornada repleta de desafios diários. Muitos desses desafios são exclusivos da nossa região, o que torna difícil encontrar soluções imediatas. Um exemplo é o acesso ao capital de investimento, essencial para o crescimento do nosso negócio. Também enfrentamos grandes problemas no fornecimento de materiais e equipamento. Os impostos de importação no nosso país são extremamente elevados, o que, na minha opinião, não favorece a indústria transformadora local.

E podes apontar também algum testemunho de cliente que ilustre a relação que têm com quem consome a vossa marca?
Fomos abençoados por ter clientes de todas as esferas da vida. Cada pessoa que comprou algo da nossa marca contribuiu para que estivéssemos onde estamos hoje. Sem o apoio dos nossos clientes, nunca teríamos alcançado este ponto. Agradecemos a cada um por nos dar a oportunidade de servir e representar a nossa cultura.

Finalmente, falando especificamente de ti, quais foram os momentos mais memoráveis e decisivos da tua carreira?
O momento mais marcante da minha carreira foi ver pessoas a usar as minhas criações sem saberem quem eu sou ou como sou. Tenho vivenciado isso muitas vezes nos últimos anos e, até agora, é sempre uma sensação gratificante.