Quem é Carmen Alcobio e como começou a tua paixão pela área do marketing e pela criação de conteúdo? Foi um caminho natural ou descobriste esse interesse mais tarde?
A Carmen é um canivete suíço. Moçambicana (apesar de muitos duvidarem), mãe de um gato preto chamado Shima e que, quando era pequena, achava que comprar roupa de fardo era motivo de vergonha; hoje em dia, cria conteúdo com roupa de calamidade. Os meus pais queriam que eu fosse gestora, mas sempre que via os anúncios da Golo, na rua e na televisão, os meus olhos brilhavam. É difícil saber o que queremos realmente ser quando “formos grandes”, mas sabia o que não queria: uma rotina monótona, automática e que não envolvesse comunicar. Lá convenci os meus pais de que Marketing seria uma boa opção, pois “todas as empresas precisam de vender”. O meu trajecto profissional na comunicação foi sempre nos bastidores das marcas. Cansada da forma padronizada como muitos influenciadores comunicavam, decidi ir para o outro lado. E não é que a melhor pessoa a seguir os meus briefings sou eu mesma?

A criatividade é o centro do teu trabalho. Como consegues manter essa veia criativa activa, especialmente em projectos de longo prazo?
Como criadora de conteúdo, o meu maior desafio é conseguir manter a relevância, autenticidade e qualidade do meu trabalho num mercado que tem um ritmo muito acelerado e cheio de trends, que é o digital. Definir uma estratégia consoante o posicionamento que quero ter no mercado e a fase de vida que estou a viver no momento é muito importante para perceber o quê, onde, com quê e como devo comunicar. Todo o conteúdo deve ser estratégico e coerente. Saber rentabilizar o tempo na criação do conteúdo foi uma virada de chave.

No teu papel como Gerente de Marketing e Comercial da Televisão Miramar, como equilibras a necessidade de estratégias comerciais com a criação de conteúdo inovador?
O digital é um meio incontornável na comunicação. Hoje em dia as redes sociais fazem parte do nosso portfólio e os parceiros percebem a sua importância. Somos a televisão moçambicana, e uma das televisões africanas, com maior número de seguidores no Facebook, por exemplo. Porque não anunciar também no digital, live inclusive? A Miramar é muito mais do que um canal de televisão, rádio e digital. É uma máquina de produção de conteúdo de forma inovadora, com vários braços, que têm um único objectivo: fazer a mensagem chegar à audiência de forma memorável. Então as estratégias comerciais passam pela criação de conteúdo também. Sou muito grata por contar com uma equipa incrível no digital e na produção de conteúdo que trabalha incansavelmente para que estas metas sejam cumpridas, acima da média.

Consideras que o mercado moçambicano valoriza devidamente o poder dos influenciadores digitais? Quais são os desafios e as oportunidades para o futuro dessa área no país?
Acho que cada vez mais as marcas estão cientes não só do poder, mas também da importância dos influenciadores na comunicação das marcas. Contudo, ainda há muita falta de informação e cepticismo que impacta directamente a valorização da área. O desafio começa na tipologia do nosso mercado, com o poder de investimento das marcas em geral, no acesso à internet por parte da audiência, até na compreensão do que é um trabalho criativo e uma marca pessoal. Porém há sim oportunidades, pois o nosso mercado ainda é muito verde, principalmente para quem encara o marketing de influência como criação de uma marca pessoal, a longo prazo. Ter uma audiência engajada e ser autoridade em algo é estar um passo à frente.

Como vês a evolução da relação entre marcas e consumidores no nosso país? O que falta para atingirmos uma conexão mais emocional e duradoura com os clientes?
Acredito que actualmente, pelo aumento da concorrência em muitos mercados, existem mais variantes para além da “acessibilidade” e “preço” na decisão de compra do consumidor. Até porque uma sequela da pandemia foi a facilidade na compra online por parte dos clientes (e revendedores, inclusive). Tendencialmente, as marcas terão de criar e reforçar mecanismos para se diferenciarem e manterem a sua notoriedade. Qualidade já não é um factor de diferenciação, é apenas um requisito básico. E com a escassez de recursos para produção no país, a importância é o recurso mais rápido e com maior margem de lucro de muitos negócios. Por consequência, acabamos encontrando os mesmos produtos, em locais diferentes, com preços muito similares. É nesta fase que no branding, pôr o consumidor em primeiro lugar e marcar presença nos espaços físicos ou virtuais, de forma criativa e humanizada, onde o seu público se encontra, está o diferencial. Em qualquer negócio.

Tens algum projecto ou campanha que tenhas desenvolvido e que te orgulhes especialmente? O que achas que a fez tão especial?
A parceria com a Compal foi e sempre será muito especial, por vários motivos. Para além de sempre ter sido uma companhia à mesa, o meu pai é da cidade da fábrica da Compal em Portugal. Quando íamos de férias passávamos sempre por lá. Na agência Golo trabalhei com a marca, lá está, nos bastidores, e quando saí da agência e tive o privilégio de ter a Compal como parceira. Acredito que tenha sido por isso que nem sequer tenha parecido uma parceria, foi só uma extensão do meu conteúdo (que é o que uma parceria deve ser e parecer). Consegui provar que um influenciador é literalmente uma mini-agência que vai desde a prospecção do cliente, estudo da marca, conceptualização da ideia, produção do material, filmagem, edição, promoção do conteúdo e gestão de comunidade. Isto com storytelling no primeiro vídeo (porque nunca é sobre o produto, é sobre a história que ele quer que a audiência viva com ele) e com a produção do jingle no segundo vídeo. Ah, tudo só com um smartphone. Esta parceria levou-me a podcasts, a ser caso de estudo, até a premiações. Uma influenciadora com menos de 10 mil seguidores na altura bateu métricas de influenciadores com o triplo de audiência.

Num mercado em constante mudança, como te manténs actualizada sobre as tendências e tecnologias emergentes no marketing digital?
Seguir os melhores da área e estar sempre atenta a formações. Seguir menos “dicas” e focar-me mais estudos de mercado, falar com profissionais da área, de cá e de fora, e criar eu mesmo as minhas metodologias. Para mim, é sobre acompanhar o comportamento do consumidor e pôr-me também nesse papel. Mais do que querer atenção, quero reter atenção, de forma sustentável e de acordo com os meus valores.

Qual é o papel da autenticidade no conteúdo que crias para as marcas? Achas que os consumidores estão cada vez mais atentos à autenticidade?
A autenticidade é um valor meu. É o que me diferencia. Não só a razão pela qual as pessoas me seguem, mas os porquês das pessoas querem saber o que vou fazer a seguir, sabendo que é uma caixa de pandora. Mas serei eu a fazer do meu jeito. Num mercado cheio de tendências e em que qualquer pessoa tem a capacidade de criar conteúdo e publicar, o que as diferencia? As pessoas estão cansadas de “monólogos de plástico”. Elas querem ver pessoas reais. Querem se conectar, sentir-se representadas ou apresentadas com formas reais de viver.

Quais são os teus conselhos para os jovens moçambicanos que querem seguir uma carreira criativa, mas têm medo de arriscar num mercado competitivo?
Começa hoje. Não deixes que alguém te impeça de seguires um sonho teu. Não esperes que toda a gente comente e elogie o teu trabalho, que seja perfeito, que tenhas todas as condições do mundo. Criatividade é também sobre criar soluções com as ferramentas que temos. A tua comunidade irá valorizar o teu crescimento. Não penses “no que irá me dar dinheiro?” Pensa no que sabes fazer, no que gostas de fazer (pode não ser a mesma coisa, tenta as duas), no que falta no mercado, no que gostarias de ter visto, no que pedem tanto que faças ou digas … Irias conseguir fazer isso infinitas vezes consecutivas? Então é uma boa ideia fazeres. Não? Sem consistência não vais chegar lá. Orgulha-te do que fazes e respeita o processo, mesmo que o processo implique ires ajustando ou até mudando a tua ideia inicial. Coisas incríveis acontecem a quem tem coragem para fazê-las.